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Posts Tagged ‘Verdade’

Advento 1

Enquanto esperamos, esperamos assim…
Invisíveis. Quietos e cansados.
Segurando em nossas mãos rústicas uma frágil esperança…
De que essa ordem rígida que nos esmaga e despreza um dia será invertida.
De que o reino que ansiamos um dia nos pertencerá. E nos pertenceremos.
Os velhos sonharão novos sonhos.
Os últimos serão finalmente notados.
O pequeno será de todos o mais sábio.
E uma criança nos conduzirá pela mão…
Para um lugar nascido de novo,
onde não mais haverão coroas, espadas ou títulos…
…mas somente irmãos.

Advento 2

Esses muros e espinhos, se olharmos com franqueza…
Esses muros e espinhos são nossos.
Não estão fora como obstáculos a serem transpostos e esquecidos.
Nos pertencem. Nos constituem. Nos doem diariamente.
Mas vou negando suas existências com medo de expor cicatrizes.
Porém o justo viverá pela fé.
Fé de que os mesmos dramas, deficiências e incapacidades que nos afligem serão chave para nossa completa libertação.
Se com olhos valentes pudermos finalmente enxergar quem somos…lá bem fundo.
E anunciarmos nossas misérias e dores como quem convida amigos para um banquete.
Então poderemos sorrir aliviados. E celebrar!
Vulneráveis e belos como são os pássaros caídos de seus ninhos.
Fortes e calmos como envelhecem as árvores fortes.
Pois quando sou fraco, eis que então posso ser recipiente do mistério que não tem nome.

Advento 3

Aquilo que tenta nosso corpo, fugimos furiosamente ou nos entregamos. Pelos pecados da carne somos julgados e condenados. Afligidos ou realizados.
O corpo em evidência. Uma religião míope e manca.
Mas nem só de pão vive o homem a ser tentado.
Misérias maiores e silenciosas nos assolam.
Quando não enxergo o outro, somente meu rosto a se refletir em tudo que toco.
Quando sedento por atenção manipulo e ameaço.
Quando me desespero ao compreender que o destino de todos é um dia desaparecer.
Quando finalmente entrego minha alma para que, mesmo que por um momento, outros se curvem diante de mim.
Espelho e queda. Não haverá redenção aos que só amam a si mesmos.
Mas são os quebrados, esquecidos e sujos que um dia serão consolados.
Aquele que serve nas cozinhas escondidas e os que cantam hinos tristes nos porões dos séculos.
Serão esses os únicos que verão a face das coisas altíssimas.
Pois não foram cegados pela própria imagem.

Advento 4

Não mais profissões, títulos ou especializações.
Descartar a placa de doutor fixa na porta do consultório. E o cargo que me concede privilégios.
E o cartão VIP da sala de embarque.
E meu nome. Não amá-lo ou nele colocar minhas esperanças.
Mas antes a ousada caminhada de abdicar…
Das importâncias e aplausos…
Do meu rosto na capa do livro…
E do meu nome cravado na pedra.
Vamos! Esqueça-te!
E deixe-te guiar-se pelas estrelas que são infinitas.
E quem sabe uma delas te mostrará o destino.
Uma criança.
O mistério sem fim.

Advento 5

O dia comum vai exigindo atenção redobrada.
A lista do supermercado.
Roupas e lençóis a serem lavados.
Os planos a serem feitos pra semana.
Uma visita inesperada. O café com leite e torrada.
A comida do gato que insiste em destruir o sofá.
E aos poucos vamos esquecendo as luzes, as canções de outros tempos, o amigo secreto.
A euforia dos feriados cheio de amigos e cunhados se transforma em ressaca sem álcool.
A rotina nos parece até um alívio.
E de tantas fotos e comida ingerida, pouco realmente nos resta.
Pouco, muito pouco é nascido em nós.
Voltamos como chegamos.
Somos os mesmos, só um pouco mais velhos e pesados.
A luz que ilumina noites escuras… essa estrela misteriosa não nos pertence.
E os lugares esquecidos a serem descobertos repousam fora do alcance de nossos olhos cansados.
O rosto da criança.
Um bebê que traz em si o mistério sem fim,
ainda espera, perdido em algum lugar, entre casebres pardos e rotinas.

Orua bay

 

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E se hoje fizéssemos diferente. Só por diversão ou curiosidade.
Se hoje pudéssemos experimentar um outro jeito, mais honesto, sem firulas ou fingimentos, mais elegante?
Se hoje ao invés de conversar sobre o tempo, sobre se choveu ou trovejou, se nevou nos picos ou se tava um sol de rachar o côco, pudéssemos falar sobre as tempestades que habitam nosso peito, as tormentas que apavoram nossas manhãs quando acordamos e as brisas e raios de luz que iluminam nossas incertezas?
E se ao invés de fazer as mesmas perguntas e repetir os mesmos jargões toda vez que encontramos nossos vizinhos pudéssemos abraçá-los e perguntar qual é a temperatura interna de seus espíritos e quando fará primavera dentro de suas almas?
E se ao invés de falar do futebol a cada encontro pudéssemos, mesmo que uma única vez, mesmo que por pura provocação, conversar sobre o dia em que você perdeu o chão e tentou segurar seu coração dentro do peito? E se trocássemos a copa do mundo pela disputa para descobrir quem é o melhor entre nós para dizer sua verdade, para revelar nossos monstros lá do fundo e trazer à tona sem máscaras o verdadeiro rosto? Coragem para mostrar nossos corpos desnudos de uniformes, bandeiras e fanatismos.
E se ao invés de defender o partido político corrupto ou o opositor igualmente criminoso, pudéssemos fazer política com nossos gestos diários? Se pudéssemos cumprimentar o porteiro com a admiração e respeito devido a quem trabalha honestamente. E separássemos o lixo, e consumíssemos apenas o necessário, e cuidássemos do nosso jardim e dos nossos filhos como quem lança sementes? Se a política fosse tão enraizada em nosso lar que corrupção viraria finalmente algo exclusivo de uma minoria política e não mais de uma nação inteira.
E se, mesmo que por pura irreverência, deixássemos de lado nossa ânsia de conquistar o paraíso e nossa mania de justiça de enviar tantos para o inferno? Se ao invés de discutir quem trará a marca da besta ou se Cristo podia pecar ou casar, pudéssemos aquecer outro ser humano com nossos braços mortais e apontar os lírios do campo como forma de revelar os mistérios do reino de Deus? E alimentar nossos olhos com milagres que estão aí, entre o capim silvestre que cresce diariamente e a asa colorida da borboleta que carrega em si a beleza toda do universo.
E se pudéssemos, quase que por subversão, ao invés de nos intitularmos bispos, pastores ou mesmo filhos seletos de Deus, pudéssemos chamar nós mesmos de pecadores perdidos, loucamente carentes de amor? Que o centro de nossa busca fosse atingir toda a humanidade que um dia nos foi dada e que, por medo ou preguiça, deixamos em algum lugar pelo caminho. Essa humanidade divina, que cheira terra fresca e chuva de verão. Essa humanidade que traz o outro no coração e não sob o jugo de nossas vontades e crenças.
E se deixássemos de lado nossa necessidade de dizer o que comemos, que praia visitamos ou o diploma universitário conquistado e compartilhássemos nossa fome, nossos sonhos de ir além de nossas fronteiras e aquela chama que arde dentro e que nos sussurra o porque estamos aqui? Se apenas por provocação pudéssemos contar mais sobre nossas jornadas ao invés dessa mania de conquistar o rótulo de ser bem sucedido e feliz.
Talvez, se fizéssemos isso, apenas talvez, estaríamos mais leves. Mais comunitários, mais saudáveis, mais belos. Talvez praticássemos mais lágrimas e menos euforias e pílulas para dormir. Mais abraços e beijos e menos cocaína e divórcios. Então talvez pudéssemos ver a neve de mãos dadas ao invés dessa insistência em falar sobre o tempo como forma de evitar a comunhão tão pronta a se cumprir.
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Tem um corvo me perseguindo pelas ruas de Brisbane. Aconteceu várias vezes – in fact, apenas duas mas uso do direito de liberdade poética para agravar os fatos – e por isso resolvi denunciar essa perigosa situação.
Pois é exatamente essa minha dúvida, corro perigo de vida? (Sei que o certo é escrever perigo de morte, mas cá pra nós, não comunica. Me perdoem os revisores gramaticais).
Corvos são figuras sinistras largamente utilizadas em filmes de terror que acabo por não ter noção do que é ficção ou realidade – essa diferenciação, desde minha tenra idade, nunca fui capaz de fazer. Pois juro de pé junto que assim tem acontecido – mesmo não tendo testemunhas pra validar meu caso e um tanto desnorteado por trabalhar mais de 15 horas por dia – continuo jurando que o danado me persegue toda vez que passo por uma rua sinistra e inabitada – sim, a Austrália ainda está em um longo processo de habitação – em direção a estação de trem. Assim sucedem os fatos:
Estou eu andando tranquilamente pela calçada, fim de madrugada, alvorecer naquele momento em que a luz começa a acariciar as trevas no horizonte. Ouço o gralhar ameaçador e contundente – esse o termo correto para o barulho assustador que corvos fazem? Eis o militante que juro – sei que precisarei jurar muitas vezes neste relato para angariar alguns crédulos – é o mesmo das outras ocorrências. Como sei disso? Bem, ele é inteiramente preto – até aqui nenhuma novidade – muito maior do que o normal – considero a possibilidade disso ser uma distorção causada pelo medo – e tem uma asa levemente caída – não me pergunte qual pois canhoto que sou não consigo distinguir os lados, ainda mais em situação de risco.
Sigo, coração acelerado, mas fingindo que não é comigo, a despeito da persistência do elemento em voar baixo entre os galhos e fios pousando sempre acima da minha cabeça e gralhando ferozmente com seu bico apontando meu pescoço. E não adianta atravessar a rua, ele faz o mesmo e recomeça a perseguição. Estaria ele interessado na minha humilde mochila onde carrego dois wraps de atum e uma maçã pro almoço? Ou é o gel para cabelos rebeldes que comprei na promoção e tem cheiro de jasmim que atrai seu faro – biólogos de plantão, pássaros tem esse sentido desenvolvido?
Acho bastante improvável que ele queira petiscar minha carne – após perder 10 quilos estou um osso só, é mais fácil ser atacado por cães famintos.
Após andar rápido e bastante, assumindo o fato de que estou em perigo, ele desiste e desaparece nas sombras da qual surgiu.
Registro esse relato por segurança. Assim, se futuramente acontecer de eu sair de casa uma madrugada qualquer com meus wraps, não chegar no trabalho como esperado e ninguém tiver notícias do meu paradeiro, eis uma ótima teoria a ser investigada que explique esse desaparecimento.
Desconfio de que poucos acreditarão nessa história.
Os mais céticos, com doses de sarcasmos, poderão dizer que sumi por uma simples razão, emagreci tanto que um vento qualquer me levou para longe.
Os mais românticos acreditarão piamente que segui pela estrada que me leva à liberdade completa e agora caminho solto pelo mundo, andarilho que sou, sem lenço e nem documento.
Os conspiradores de plantão, sempre com teorias sobre bombas e alienígenas controlando o governo americano, se basearão no fato de que estou envolvido em uma denúncia trabalhista contra exploração ilegal de estudantes internacionais e afirmarão que fui raptado e silenciado de forma misteriosa.
Eu insisto que, caso eu desapareça, pensem com carinho na teoria do corvo assombrado. Contem a saga do menino sonhador que viajou para terras longínquas em busca de aventuras e esqueceu dos perigos que toda jornada traz. Sempre preferi as histórias ditas infantis que se assemelham com lendas e mitos. Pois só elas são capazes de esbarrar na verdade que não conseguimos explicar por meio dos fatos e acrescentar um significado para a nossa trajetória.

Foto - Rafa Barreto

Foto – Rafa Barreto

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