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Posts Tagged ‘Sonhos’

Enfim 40…enfim desisto…
Os quarenta finalmente chegaram e acreditem, passa rápido mesmo. Outros quarenta só por sorte ou benevolência dos céus. Portanto, ao que as estatísticas indicam, já passei faz tempo da metade do trajeto. Então sejamos francos e encaremos os fatos: está na hora de uma reavaliação urgente. Reunião de emergência a portas fechadas.

Se bateu a crise dos quarenta? Sim, mais isso quando eu estava nos trinta. Sempre sofri por antecipação. Agora constato num misto de resignação e alívio: chegou a hora de desistir.

Não se trata de desistir da vida. Desta desisto todas as manhãs quando sou forçado a acordar antes das sete. Mas ao meio dia já estou cheio de planos e idéias novamente.

Trata-se de desistir dos sonhos que nunca foram meus, de ilusões e expectativas alheias. Trata-se de enxergar os fatos com coragem, esvaziar a mochila dispensando os cacarecos que não usarei mesmo e seguir em frente mais leve, ciente que não se deve importar com o que nunca importou.

Antes de tudo, desisto de ser adulto. Juro para vocês que tentei. Me formei naqueles cursos que garantem emprego e carro zero. Tive emprego de gente grande e sim, um carro zero. Trabalhei com carteira assinada e namorava direitinho, com a meta de chegar ao altar como manda o figurino. Mas o que posso fazer se não tenho competência suficiente para exercer a vida adulta? Acusem-me de irresponsável e libertino. Logo eu que já nasci velho, carregado de memórias e saudades, agora aos quarenta o menino surge do nada, grita por espaço e não admite gaiolas nem terno e gravata. Segue correndo atrás das pipas e bolhas de sabão. 

Desisto portanto de ser bem sucedido. Isso não me pertence e dá muito trabalho. Aos quarenta, nem que quisesse. Já não tenho mais fôlego – lê-se saco – para carreiras e planos de negócio, e o mercado de trabalho é impetuoso com semi-idosos. Deixo para os ambiciosos que negociam suas almas em troca de troféus e jantares caros. Vou seguindo leve com pouco no bolso. Assim posso ir longe mesmo com a idade pesando em minhas costas. Há tanto ainda por conhecer. Tantas trilhas a serem exploradas. Tantos rostos, histórias e lugares a serem degustados que a idéia de gastar dias e meses entre as mesmas paredes chega me dar urtiga. Fiquei alérgico a estabilidade, salário fixo e salas sem rota de fuga. 

Desisto também dessa caça incessante pelo propósito maior da vida. Acho mesmo que imaginei coisas quando acreditei que fui criado para um destino singular que mudaria a face do mundo. Hoje estou ciente, não mudo nem mesmo essa mania de limpeza que beira a neurose crônica ou esse hábito irritante de escovar os dentes a cada meia hora. Ainda bem que minha irmã é pior que eu…fico mais tranquilo. Como diria a Roseli – aquela que também esqueceu de atingir a adultice – ‘é tudo fruto do meio’.

Desisto inclusive de encontrar o grande amor da minha vida. Soa triste, eu sei. Mas já superei. Nunca consegui lidar com expectativas e frustrações. Sou exagerado demais, não faço julgamentos sensatos. Acabo amando completamente e sem freios para dizer adeus em seguida. Correr atrás, nunca mais. Minhas pernas até que ainda são ligeiras mas estão apaixonadas por outros rumos. Se existe alguma grande história de amor reservada para mim, ela que venha atrás. Que saia à minha caça até me capturar. E eu não pretendo dar mole. Agora que sou um quarentão charmoso, vai ter que ralar para me conquistar. Aviso logo que não sou fácil.

E finalmente desisto de atender as expectativas, sonhos, desejos, intenções e decisões dos outros. Se tenho rugas, alguns raros cabelos brancos, bico de papagaio e dermatite atópica, tirando o desgaste resultante dos anos de uso, o resto é fruto dessa minha mania de agradar a galera. Era, já não é mais. Aos quarenta me dei carta de alforria. Não faço por má vontade nem para causar polêmica. Espero que me entendam. Só agora compreendi que a vida é uma só, décadas passam como se fossem meses e agradar as pessoas – vizinhos, amigos e inimigos – é correr atrás do vento e não chegar em lugar algum. Aos que me amam de verdade, e usam a desculpa de que ‘só querem o meu bem’, não me levem a mal. Erros e acertos fazem parte da jornada e eles serão meus. Sofram ou se alegrem, mas não esperem encontrar em mim um filhote domesticado. Sou quase um idoso e me dou ao direito, hoje e daqui para frente, de decidir por mim mesmo e escrever uma história com minhas próprias mãos. Não quero, ao final dos dias, culpá-los pela frustração de não ter sido o que sou, caminhado com minhas pernas e perseguido os sonhos que me pertencem. Ficamos melhor assim?

Enfim os quarenta chegaram. Mentir não vou, fácil não é digerir isso. Mas tudo pode ser ainda melhor nesse segundo tempo. Isso se eu tiver mesmo coragem de desistir desse padrão de super man maduro, estável, gordo e feliz pelos feitos realizados até aqui. Nunca estive tão vulnerável, inquieto e ansioso pelo que ainda está por vir. Experimento o assombro ao viver a vida em toda sua brutalidade e beleza. Sei que deveria conter-me no corpo rígido de um adulto em fase de estacionamento, mas minha alma ainda é leve e não consegue se manter no chão. 

Finalmente quarenta. Recebo-o com sorriso largo e cabeça cheia de sonhos. Eu que nasci velho vou me tornando menino. Minha sede é do que ainda não tem nome. É de vazios e esperanças que meu corpo está cheio, desejando loucamente pelo que ainda virá, como anseiam as crianças e os poetas por mais um dia, nascido de novo e carregado de possibilidades e lacunas a serem preenchidas com essa nossa insistência pela vida.

  

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Dizem as estatísticas recentes que suicídio é a segunda principal causa dos óbitos entre jovens no mundo, perdendo apenas para acidentes de trânsito. No Brasil é a terceira causa de mortandade entre jovens. Difícil de acreditar que esses números são reais. Parece-me uma grande tragédia tanta gente desistir da vida, geralmente na fase em que ela está só começando.
Eu mesmo já pensei algumas vezes nessa possibilidade. Pode parecer uma disfuncional e depressiva reflexão, mas para mim foi uma das melhores coisas que já fiz. ‘Morrer é possível’ foi a frase que emprestei de um filme e que ficou ecoando em minha mente, cavando espaço em minhas meditações diárias.
Papo mórbido que assusta muita gente. Mas uma coisa é certa…quem evita o sofrimento, a dor e a morte a todo custo acaba por evitar a vida, a alegria e a liberdade de escolhas tudo no mesmo pacote. ‘Não se pode ter paz negando a vida’…outra frase que peguei emprestada do filme ‘As horas’ do diretor Stephen Daldry e que me serve de mantra quando se faz necessário tomar decisões e rumos.
Suicídio intriga e assusta.  Depressão, mal do século, é apontada como um dos grandes vilões desse crime sem rosto. A comoção é geral e amigos e familiares ficam atônitos diante dessa decisão que normalmente é tomada em silêncio, na angústia de momentos solitários. Na falta de sentido para continuar a caminhada.
Pois eu não tenho nenhuma vocação para identificar suicidas em potenciais. Quisera eu ter, pelo menos poderia tentar evitar esses gestos últimos de desespero. Mas me foi dado um outro dom, parecido, o de identificar mortos-vivos. Esses se revelam para mim o tempo todo.
No filme ‘O sexto sentido’ do diretor M. Night Shyamalan, o personagem Cole, um garoto de 11 anos, era assombrado por ter um dom especial, a capacidade de ver e interagir com os mortos. A frase ‘I see dead people’ ficou famosa e até virou motivo de chacota nas redes sociais.
A pergunta que faço para o pobre garoto perseguido por defuntos é…e dai Cole que você vê gente morta? Eu vejo gente viva que já morreu o tempo todo e nem por isso fico chorando debaixo das cobertas.
Pois apesar dessas estatísticas alarmantes sobre suicídio defendo veementemente a idéia de que mais trágico e lamentável que o suicídio de fato é o suicídio da alma cometido por milhares de pessoas que se permitiram morrer em algum momento de suas vidas, mas esqueceram de se enterrar. E esses mortos-vivos estão em toda parte. São porteiros de prédio, tias viúvas, chefes de repartição pública ou mesmo alunos do ensino médio.
Mas como saber que alguém que anda e respira na verdade já morreu? Para mim é fácil…já lhe disse que tenho esse dom. Basta passar um tempo – alguns minutos são suficientes – e ficará clara a certidão de óbito previamente assimilada. Mortos vivos costumam falar do passado, as vezes décadas atrás, como se ainda fosse o presente. Citam pessoas e lugares que viveram em idos tempos como se isso tivesse acontecido ontem. Amarguras e conquistas de anos atrás são ainda os motivos de orgulho ou frustração que os fazem rastejar pelos dias afora. O momento presente não os comove mais. Agarram-se como podem ao que viveram um dia.
Mortos vivos repetem a frase ‘não tenho mais nada que esperar da vida’ e suas variações como um lema que os protege de ainda enfrentar as horas. Escapam da angústia de existir enterrando-se com a terra de suas desistências e medos.
Mortos vivos fogem de romances e relacionamentos como o diabo foge da cruz. Não suportam o pavor de serem vulneráveis, de ficarem atônitos diante do abismo assustador que é se entregar a uma história de amor. Preferem nunca experimentarem a beleza de se doarem a outro ser com medo da rejeição e do abandono.
Mortos vivos não sonham mais. Não olham para o futuro com lágrimas nos olhos. Não crêem mais que a esperança pode produzir milagres em suas almas já em estado de putrefação. Acham que os sonhadores são idiotas desajustados que precisam acordar (lê-se: virar zumbis como eles). Que aqueles que protestam contra as injustiças deveriam enxergar a realidade e voltar aos seus pijamas estampados de conformismo e negligência. Odeiam aqueles que decidem escrever suas próprias histórias acusando-os de serem egoístas patológicos que perturbam a ordem natural das coisas…que é morrer precocemente com medo de viver a vida.
Vejo-os o tempo todo em toda parte. São tantos que se fosse feita um pesquisa constatariam que essa causa mortis é a mais cruel e abrangente do que todas as demais juntas. Muito mais perigosa que dengue hemorrágica brasileira ou terremoto japonês.
Pois falo do perigo que é se tornar um morto vivo com propriedade de causa. Pois eu mesmo vivi anos arrastando meu cadáver nas costas para em troca receber conforto, aceitação e segurança de pertencer ao mundo dos mortos vivos. Ainda vivo sob essa ameaça do jeitinho que é retratado no seriado norte-americano ‘The Walking Dead’. Todas as vezes que a vida se levanta assustadora, com seus dentes agudos e suas garras sedentas por mais uma vítima, me encolho e penso se não seria melhor fugir dela ao invés de ficar enfrentando-a assim, de peito aberto e olhar inocente.
Mas a idéia de que serei mais um morto vivo a engrossar as fileiras de cadáveres ambulantes me perturba por demais. Me parece mais trágico viver assim que o próprio suicídio, esse pelo menos deixa as coisas mais definidas. Preto no branco.
Vou seguindo na ânsia de existir de fato, não apenas na teoria. Luto pela vida, não porque respiro mas por saber que viver de verdade vai além de ter seu corpo ainda quente e a capacidade de se mover pela casa. Viver exige de nós entrar em uma luta sangrenta, dia após dia, de quem encontrou sentido na caminhada e não irá arredar o pé da trilha até o momento que o corpo, esse objeto fadado ao fracasso, não aguentar mais seguir o espírito, esse sim precisa estar sempre vivo e saudável para ainda enfrentar a eternidade. A coisa vai longe gente.
Pois me parece que viver é privilégio daqueles que erguem-se a despeito do seu medo e enfrentam a vida com o desejo insano de conquistá-la para si. São aqueles que aceitam a dor e a alegria como faces da mesma moeda e vivem-nas intensamente pois descobriram o segredo que fazem seu coração pulsar de verdade: ‘não se pode ter paz negando a vida!’.
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Foi num lampejo que perdi o status que me elevava a ser humano especial e único.
Acenderam a luz por mim. Virei comum, fiquei normal.
Quando eu era especial tinham pessoas ao meu redor o tempo todo, me pedindo, exigindo coisas, me bajulando, esperando um pouco de atenção. E eu decidia, especial que era, quem atenderia e quem rejeitaria.
Quando eu era especial urgia salvar o mundo com a força de minhas idéias e o labor das minhas mãos. Sabia que não faria o serviço sozinho, me juntaria a outros, igualmente seletos e especiais como eu, para cumprir a missão.
Vidas seriam tocadas e transformadas pela minha bondade. Pessoas ficariam inspiradas pelo meu exemplo. Afinal ser especial tem lá suas responsabilidades.
Quando eu era especial não havia um trabalho, de administrador a artista, professor a bancário, que eu não realizava com maestria e por causa deles recebia sempre elogios e louvores. Claro, eu era especial e jamais me daria o luxo de ser medíocre.
Quando eu era especial tinha afeto e admiração até da minha família. E se minha família, que me conhece profundamente, sente admiração por mim, é porque eu realmente era especial.
Foi crescendo dentro de mim a certeza de que ser especial dispensa glacês e perfumarias. Vive só de essências os seres especiais. Pois foi então que decidi, especial que era, a seguir caminhos de sacrifício, simplicidade e beleza.
Não trabalharia para alimentar a roda da injustiça. Não dispensaria um minuto sequer da minha vida especial para ajudar empresas a ter seu lucro exagerado.
Era especial, com uma missão. Nasci para cumprir um propósito único e grandioso.
Deixei profissão e futuro promissor. Fui me embrenhando na trilha dos que são especiais e valentes, que enfrentam o sistema e cumprem seu destino de gente especial.
Troquei duas, três, sete vezes de serviço. Nenhum era tão especial para que neles eu me detivesse. A insatisfação segue a rondar o peito dos inquietos que não descansam… São especiais, não tem tempo para preguiças, medos ou comodismos.
E de tão especial que era, não suportava mais os limites culturais do meu país, dos que me cercavam. Difícil conviver com quem não é especial. Precisava viajar. Expandir fronteiras. Mudar de ares, encontrar gente diferente, sei lá, digamos mais…especiais.
Mudei de país, convivi com outra cultura, aprendi outra língua, encontrei amigos de todo o mundo. Sim, isso combinava mais com meu estilo um tanto especial.
Tinha certeza, especial que eu era em minha terra, seria especial em qualquer lugar do planeta. Bem sucedido em questão de minutos.
Mudei de país novamente, já que alguém especial como eu não sabe bem o que significa limites, barreiras ou estabilidades.
E de tanto ser especial, descobri como num lampejo de gênio, privilégio apenas daqueles que são especiais… Eu nunca fui especial. E tudo indica que nunca serei.
Só alguém comum e sem muita inteligência como eu acredita mesmo ser especial.
Gente comum como eu sonha em dia ser muito especial. Ou pensa que já nasceu assim.
Encabeça projetos malucos, desafia os padrões, tem visões grandiosas, inspira os desenformados. Tudo em nome de um chamado tolo e fútil: ser especial.
Gente que por possuir apenas dois olhos, acaba míope ou cego de vez. Enxerga o mundo pequeno demais e nele até mesmo eu posso ser especial.
Gente que acredita de pé junto que é protagonista principal de uma história épica.
Ator principal de um longa metragem que dá origem a maior série de sucesso de todos os tempos. Onde ali você é especial e o mundo acontece ao redor de seu umbigo.
Gente que vive na certeza de que seu destino foi escrito nas estrelas e por mais que sofra e precise batalhar pela vida, tudo isso são apenas capítulos da saga, que se encaminham para o grand finale… Que será demais de especial.
Gente que acredita que escrever e declarar-se comum também é uma forma de se achar especial. Enganando-se a si mesmo ao assumir-se comum na esperança de ao fazer isso, seja por assim dizer, um pouquinho especial.
Gente que corre muito para realizar grandes feitos, resignificar seu universo interior, fazer terapia para se encontrar, tudo isso por medo de aceitar de uma vez por todas: não, eu não sou especial.
Você também não é, nem o Brad Pitt ou Madonna são.
Se ainda existe nesse mundo algo especial, isso não vem de mim nem de você. Vem daquilo que acontece entre nós quando resolvemos deixar de lado nossas vidas mega especiais e olhar para o outro. E finalmente enxergarmos.
Porque especial mesmo é só aquilo que pode nascer no intervalo que existe entre eu e você.
Algo que criaremos juntos ao nos conectarmos de verdade, livres da tolice de sermos especiais.
Só então existirá condições de surgir algo que seja verdadeiramente especial.
O resto sou eu e você gastando tempo tentando ser especial.

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Há sempre algo que carregamos conosco pela estrada. Até mesmo os mais desapegados viajantes possuem ao menos uma mochila em suas costas. Ninguém é totalmente livre. Sobram bagagens e fardos para todos.
Há aqueles que carregam casa, jóias, carros, carreira, diplomas e saldos bancários. Quanto mais cacarecos, mais difícil de carregá-los.
Há os que carregam filhos, netos, bisnetos e por vezes sobra algum espaço para levar o cônjuge também. Os mais ambiciosos carregam primos, tios e avós. Almoços de domingo, ceias de Natal, viagens em família. Esse sempre é um pacote pesadíssimo, mas que reserva momentos únicos de alegrias, dramas e fotos de tirar lágrimas dos mais insensíveis.
Há também os que carregam experiências e histórias. A escalada daquele pico nevado, a onda perfeita, a trilha realizada entre lagos de algum país remoto da Oceania ou anos gastos atravessando o mundo para trazer nas costas uma bagagem cheia de aventuras, conquistas e memórias.
Outros seguem dançando. Estes carregam só sonhos e poesia. São os moradores da rua, sem-teto por opção pois amam as estrelas. Não passam fome pois estão cheios de simplicidade e beleza em seus ventres.
Há ainda aqueles que só carregam a si mesmos e sua ânsia de que o mundo todo os carreguem nas costas. Deus ajude a me livrar dessa bagagem! Egos são cargas pesadas demais.
Pois como disse o mestre, ‘onde está o seu tesouro aí também estará seu coração.’ Eu diria: mostre-me o que carregas e eu te direi quem és.
Pois eu carrego vazios. Dirão ser uma carga fácil de se transportar. Os vazios não pesam, não tem substância, não fazem o corpo gemer.
Pois é exatamente o contrário. Carregar vazios é ter que administrar todas as bagagens e cacarecos que as pessoas costumam levar, só que ao contrário. Tudo do inverso, ao avesso.
Sobre meus ombros, o peso de todas as coisas que abdiquei. As carreiras que deixei de investir, o dinheiro que não persegui, as casas que não comprei, os cartões de credito que joguei no lixo.
Levo em meus braços, apertado ao meu peito, os filhos que nunca existirão, os pais que um dia cuidaram de mim e agora já não podem mais, os amigos e irmãos que foram ficando no caminho.
Levo na memória as pessoas raras das quais experimentei comunhão. Encontros que me fizeram compreender que a solidão não é assim tão assustadora, mas que agora deixaram esse rastro dolorido da saudade em meu peito.
Sobre minha cabeça pesa-me a carga de todas as experiências sonhadas e não vividas. Os lugares que ainda não pisei e os mares que não naveguei. Possibilidades e sonhos infinitos, quem suporta te-los em sua mochila?
Me verão caminhando sem nada e dirão: ele é livre, não tem bagagens para carregar. E deixarão de notar aquilo que só vemos com o coração: que este vazio que cala fundo em nossa alma é a carga mais difícil de se carregar.

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ou Vejam como crescem os lírios do campo (Mateus 6:28)

As flores não têm memória. Elas se adaptam ao que acontece no exato momento da existência, são belas por distração. Cumprem sua sina silenciosamente.

Não estiram suas pétalas em busca de futuros nem se lançam a outros lugares. Não são acometidas de ansiedade, apenas absorvem o essencial para existirem. Satisfazem-se em perseguir a luz do sol e aprofundar as raízes na terra que lhes pertence, no exato lugar que o destino as lançou. Onde, sem planos nem registros, sementes foram trazidas por qualquer brisa…

Nem reis e majestades podem ser tão belos como elas, nem tão simples e perfeitos. Efêmeras como o sopro vital, sua lida é pertencer ao mundo, perfumar o ar, os bosques, as estradas e os machados e mãos rústicas que as arrancam distraidamente.

Não somos assim.

Exigem-nos ambições humanas e seus ideais. A ânsia por um legado que nos força a cravar nomes e histórias na pedra. Ferramentas, técnicas e engenhosidades para modificar aquilo que antes era belo, perfeito. Traços retos e frios são feitos para provar nossa superioridade, enquanto as eras e o vento se encarregam de levar tudo embora.

Ruínas humanas, poeira e chão batido desfazem-se com nossa angústia de existir.

Por isso é pesado o barco que ajunta cracas em suas carcaças, e as carregam para poder contar sua história, registrar seu nome. Para ser único em meio ao porto e suas intermináveis embarcações anônimas. Segue exausto arrastando seus dias acumulados em sua fuselagem.

Anseio ser como as flores, sem destinos nem propósitos construídos. Sem sonhos nem carências de progresso.

Não ser partido ao meio com o peso que as memórias trazem. Os amores e realizações acumulados e somados, na esperança que desenhem minha sombra, revelem quem sou. Que riscam meu rosto e cortam minha pele como faca de dois gumes.

Uma coisa só desejo e um sonho apenas para compor meu repertório de notas alheias, ser como as flores e em quietude passar pelo curto vapor do tempo com um único propósito, alimentar-se da beleza simples desse mundo enquanto meu corpo desfaz-se em perfume nos braços de uma ventania qualquer.

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Luar - Foto de Filipe Colombia

Desvio lunar

Por Sérgio Dantas

Ele andava a passos largos e firmes pelo asfalto irregular. Desprezava as calçadas, preferindo as ruas vazias naquela noite quente e comum. Estava cansado e sentia-se desconfortável com o próprio suor que grudava em sua camisa gasta. A semana inteira estivera acumulando horas a mais no seu já extenso período de serviço. Algo da discussão fria do dia anterior importunava sua cabeça como um espeto metálico a furar sua carne. “Você é ausente com seus filhos e comigo” sentenciava sua esposa, que para ele tornara-se uma mulher incompreensível e estranha. Sua ausência não acontecia justamente pelo amor que sentia por sua família e todos os sacrifícios que fazia por ela? Sentia-se injustiçado.

Angustiava-se terrivelmente pelas dívidas acumuladas no cartão de crédito. Essa sombra o perseguia a todo instante. Por mais que dobrasse suas horas de trabalho, não conseguia quitá-las, adiando o desejo de ter seus deveres cumpridos. Estava realmente cansado e não tinha forças para reagir.

“Mais um passo, é só do que precisamos para continuar vivendo” consolou-se em voz alta, interferindo no único som da noite, seus passos que martelavam o chão irregular da rua.

Uma última nuvem teimosa afastou-se devagar, não sem antes lamber a lua cheia que começava a clarear a noite. Sua luz azulada e vertiginosa derramou-se lentamente pelas casas e prédios antigos daquele bairro em que passava um único homem, ao voltar de sua lida.

Ele demorou a perceber o quanto o cenário modificou-se por conta da lua que exibia-se toda, subjugando sorrateiramente a escuridão. Mas seus olhos aos poucos foram assimilando aquele novo cenário. “Que belo luar” pensou, sentindo-se um tanto mais leve.

Mas sem compreender a razão de seu gesto, foi diminuindo seus passos apressados até parar no meio da rua. Todos os dias passava por ali, mas por um momento contemplou aquele espaço que lhe pareceu tão estranho, como se vivenciasse algo irreal. A luz azulada projetava-se sobre os prédios e postes realçando sombras tão nítidas que ele teve a impressão de que nunca avistara tal coisa em sua vida. Perdeu-se naquele instante, assombrado com a possibilidade de estar no limiar entre um mundo de sonhos e a realidade.

“A lua é um corpo estranho que insiste em refletir uma luz que não lhe pertence. Mas as sombras que provém dela são ainda mais alheias e misteriosas.” Assustou-se com esta declaração feita em alta voz. De onde viera isso? Quem teria soprado em seus ouvidos tal pensamento? Nunca lhe ocorrera juntar tais palavras que resultassem numa frase tão carregada de significado. A isto justificou com seu cansaço, só poderia estar delirando.

Porém, algo novo se revelou. Naquele instante finito esquecera problemas, dívidas, frustrações e perdas. Desprendera-se inclusive de sua personalidade e manias. Era outro, em outro lugar fora do tempo. Sentia-se totalmente poderoso e ao mesmo tempo pertencente a todos os elementos que compunham aquele quadro fantasioso. “É possível criar outras possibilidades. É possível enxergar a beleza nas sombras de um luar qualquer.” Suspirou contente, como alguém que desvenda o sentido de todas as coisas.

Totalmente amparado por esta verdade, iniciou seus passos lentamente. O som abafado de seus sapatos em atrito com o chão voltou a dar ritmo à sua sina. Aos poucos, foi se dissipando aquela luz sombria da lua e junto a isso, sua convicção de que é possível enxergar o infinito.

Ocupou-se novamente de seus dilemas cotidianos e agora pensava em como reagir às agressões verbais de sua esposa.

Mas, por algum motivo, levava consigo a sensação de que alguma parte de sua alma transformara-se pelo simples fato de ter descoberto em uma rua deserta a possibilidade de testemunhar a existência de outros lugares.

– X –

Ele enxergou tão bem

Por Filipe Colombia

As botas estavam nos pés. O agasalho estava cobrindo os braços, o peito, parte do pescoço. Não precisava de luvas porque de certo modo ele sentiu um estranho desejo de passar frio nas mãos, como se fosse um jeito de tatear a brisa e sua temperatura. Por último um gorro preto, que cobria a suas orelhas com precisão, porém não obstruindo os sons carinhosos que a noite tem pra doar. Saiu. Esqueceu de trancar a casa, deixou a chave na porta e foi. Experimentou a primeira brisa, que pareceu um bafo quente e quando deu por si era o cachorro a cheirar-lhe a mão. Caminharam pelo caminho das azeitonas, o caminho que de dia era amarelo com pedras brancas pequenas e grãos pretos espalhados, pisados. Ele e o cachorro.

Era breu. O breu estava tão sólido que ele até tinha medo de dar com a cara em alguma parede ou porta escondida, e olha que a idéia da porta era até mais desejada do que um muro sem saída. Mas, ele conhecia o caminho perfeitamente bem, era só a imaginação a brilhar-lhe suposições no pensamento. Andou acompanhado pelos passos pequeninos do cão até chegar perto dos grandes pinheiros. Ali, os olhos já enxergavam galhos, algumas folhas, sabia distinguir entre céu e chão. Sorriu um sorriso escondido, que só ele viu. As folhas secas faziam aquele famoso estalido seco, ouviu-se os galhos dançando, olhou o borrado do animal passando em sua frente. Estavam agora em uma grande área aberta, e o banco o esperava. Ele sentou-se como se fosse uma obrigação, e o cão sumiu. Suas mãos já recebiam o ar gélido, que parecia possuir dedos ou espinhos, cravando nos intervalos dos dedos um abraço breve mas que parecia constante. Ele fechou os punhos tentando enrijecer o calor. Fumaça saía da sua boca, parecia um dragão, mas na verdade era um homem. Olhou para céu e viu que era o céu, o mesmo céu, somente pelo fato dele estar acima. Procurou por alguma coisa, mas não viu nada. Uma mancha branca porém quase imperceptível passava vagarosamente, como os vagões de um trem que já esta chegando ao seu destino. Então viu certo ruído, vindo dos pinheiros. Girou o pescoço silenciosamente, viu as sombras da árvore dançarem e quando deu por si viu meia dúzia de anões dançarem debaixo do maior dos pinheiros.  Depois um barco ancorado na copa de uma laranjeira, dois homens caminhando silenciosamente… Virou-se e olhou para o mesmo céu. Viu a lua que cortava a cortina de nuvens e mostrava sua face esquartejada, ceifada pelo calendário. Viu o cão achegar-se a ele dando-lhe os devidos carinhos, como se ele fosse seu único dono. Seus olhos já enxergavam tão bem que via o que não deveria ver, desde os espíritos que habitavam nos troncos, até as serpentes dos trevos. Pensou em voltar pra casa e deixar aquelas sombras de luz de lua incompleta para trás… Não, permitiu-se por hora divagar e deixar suas mãos expostas para cumprimentar o bafo frio que a lua em sorriso soltava.

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