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Posts Tagged ‘Retorno’

Após algumas boas horas de um vôo interminável, quando só restava um trecho curto entre Santiago e São Paulo a ansiedade começou a gemer e dar trabalho. Não fosse o cansaço me nocautear estaria eu em constante estado de arritmia resultante da pergunta que não se cala: como será o retorno?
Pois os retornos em si mesmos são fáceis de executar. Para isso basta decidir voltar para o ponto de partida. Difícil mesmo é readaptar nosso ser, já de tamanhos e cores das mais distintas, à mesma caixa da qual saímos tempos atrás. E se fosse exatamente a mesma caixa, vai lá. Pelo menos saberíamos em que espaço devemos nos enfiar novamente. Mas não. Nos deparamos com caixas parecidas, mas sutilmente diferentes. Sutilezas que alteram e dificultam zerar a conta.
Inicia-se o processo árduo de conciliar o que sobrou de nós e que tamanho e forma tem esse lugar, essas pessoas, essa cidade que antes era tão familiar. A lembrança dos objetos, dos móveis da casa, agora mais gastos ou substituídos. O rosto dos nossos amigos e familiares que apresentam um pouco mais de cansaço, um pouco mais de tristeza, a algumas alegrias diferentes. Aqueles que partiram e que deixaram lacunas impossíveis de serem preenchidas. As ruas e casas tão acumuladas parecem disputar espaço entre si. A cidade, antes uma quarentona conservada, deixou de tingir seus cabelos grisalhos, está num desanimo só. Parece que desistiu da vida.
Eu tremo só de pensar que, na árdua tarefa de reconciliar espaços, sonhos e percepções, terei que dar conta de explicar aquilo que não entendo ainda: o porque mesmo regressando estamos sempre vivendo um novo momento, um novo lugar, novas as pessoas também. Sei que seria ótimo retomar a vida, conhecida e segura. Trazer eu, eu mesmo de volta, do jeitinho que parti. Mas se entendi algo ao caminhar fora das fronteiras que me protegeram por tanto tempo foi: quando se inicia uma jornada, os caminhos nunca mais serão os mesmos.
No terceiro dia de regresso, depois de anos de imunidade, pego uma virose. Febre vai e vem oscilando com meus pensamentos que outrora foram um pouco mais regulares. Não mais. Vou tentando administrar meu corpo, antes gasto e preparado para enfrentar leões e gigantes, agora confinado em um quarto confortável, envolto em segurança e parcialmente debilitado por um vírus de boas vindas. Quão difícil me parece viver as trivialidades quando se aprende a arte de se equilibrar sob abismos. Quão difícil é vestir dias normais quando se experimenta o assombro das tormentas inesperadas.
O que nos salva dessa interminável inadequação é o alívio de poder reviver as memórias, que antes eram bálsamo para dias difíceis, agora são oferecidas a cada momento. Gratuitas, disponíveis, quase passam despercebidas não fosse esse olhar já calejado de ausências. O café da tarde com bolo de fuba. As histórias do sobrinho em sua pré-adolescência. Os relatos de tios e primos. A conversa que nunca termina. A temperatura sempre aquecida dos pequenos cômodos do apartamento que revelam, este é o melhor lugar do mundo. Este é o nosso lar.
Poucas coisas restaram intactas desde a partida. O retorno nos revela algo que pode ser assustador. Não existe retorno, apenas uma nova etapa de nossa jornada. A estrada nos aguarda, aqui, acolá ou além. Não há como voltar ao ponto onde partimos. Ele não existe mais. Só nos resta seguirmos em frente, carregando os momentos vividos com aqueles que amamos, os únicos que ainda nos oferecem algo que jamais mudará ou desaparecerá, um lar onde poderemos sempre descansar dessa longa caminhada.
bike Kaio

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Há aqueles que se mudam, se re-movem como quem tomam o café da manhã. Que estão em busca de novas trilhas e decidem procurar sabe-se lá o que em outros continentes e cenários. Carência, inconstância, necessidade ou sonho em demasia?
Estranha espécie essa de seres deslocados que estão sempre de partida, prontos para pegarem o próximo trem, o avião que os levará para aquele país distante ou o próximo mergulho em si mesmos, que os isolam daqueles que o cercam. Ausência temporária, assim também se viaja.
Que distinta mania essa de explorar o desconhecido. Quantos já não sacrificaram sua vida e de outros por causa dessa obsessão? No silêncio branco do Ártico, nos áridos desertos africanos, escalando os picos do Himalaia ou em meio as luzes frenéticas de Tokio, estamos a procura de algo que nos afasta daqueles que não conseguem romper com as densas raízes que os prendem ao solo. Eis então o descompasso. Por um lado aquela foto de calendário, um filme, um sonho desvairado ou uma idéia fixa atormenta noite e dia, atraindo-nos para a estrada. Por outro, como dizer adeus, ou mesmo até logo, para aqueles que nos são tão essenciais? Por isso, mais cedo ou mais tarde surge o dilema: decidir partir implicará que você estará sozinho longe das pessoas que ama. Resultado previsível. Você foi longe demais, impossível levar consigo todos que lhe são tão caros. Desse intervalo entre percorrer minha trilha – que me chama por meio de uma canção que só eu consigo ouvir – e sentir a falta terminantemente doída dos amigos que surge esse forte sentimento de solidão. Por isso o lamento: dura é a solidão do outro lado do mundo! Duras são as pedras de todos os cais. Mas devo logo confessar uma coisa, não compartilho desse sentimento.
Um momento por favor! Explico-me rapidamente antes que pré-julgamentos me sentenciem como individualista em estado terminal. Difícil é para mim estar distante. Prova disso é a saudade insuportável que sinto a todo momento. SAUDADE – palavra exclusivamente portuguesa de difícil tradução que é em si mesma um verso completo. Tentar explicá-la é fazer poesia. Experimente traduzi-la e você virará poeta. Assim fez Chico Buarque em uma de suas canções:

“…saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”.

Ou o mestre Rubem Alves que teve sua obra e vida banhada pelas luzes crepusculares da saudade e das memórias:

“A saudade é nossa alma dizendo para onde ela quer voltar”.

Tensão invisível nos atraindo para um eterno retorno. Pois é nesse intervalo, no meio das forças opostas entre ir em busca das trilhas que ansiamos percorrer e voltar pelos caminhos da saudade que a batalha se trava e nos deixa em permanente estado de conflito. Só teremos paz quando esse descompasso for resolvido…talvez no dia do nosso enterro.
Pois bem, a saudade corta minha carne mais fundo que o vento gelado dos trilhas dos Andes. Mas solidão, essa eu não consigo ter. Ou melhor, a solidão até o momento não conseguiu me alcançar.
É impossível pra mim ter esse sentimento de se encontrar sozinho nas distancias percorridas. Pois não carrego comigo todos os pensamentos, sonhos, frases e lembranças das pessoas que eu amo? Tanto é que nunca sei onde começa um pensamento meu e onde termina o do outro. Nem sei mesmo se existo sozinho sem o reflexo dos outros compondo meu rosto. Sou como aquele possesso que ao perguntarem seu nome disse ‘legião, pois somos muitos…’.
Se ando pela cidade e vejo seres estranhos passeando despreocupadamente pela rua – pois há cidades como Brisbane que estranho mesmo é ser normal – é o seu olhar debochado e comentário sarcástico que tomo como meu. E sorrio como quem acaba de ouvir suas palavras de um humor único.
Se sinto o aroma do café, é seu rosto sereno que me diz como é delicioso sentar-se a mesa para conversar sobre nada por horas. Apenas pelo prazer de estar contigo.
Se vejo alguém usando um All Star vermelho é com seu olhar infantil que aprecio o fato de que vermelho é uma cor para crianças e palhaços e por isso nos cai tão bem!
Se percebo a casa suja é seu zelo excessivo que me faz sorrir e pensar que é hora da faxina.
Se estou diante do mar, mais encantador que o infinito, lembro-me de você, nadador que sempre preferiu a profundidade das águas à futilidade dos banhistas em busca de algum bronzeado.
Quando contemplo o por-do-sol e faço um retrato, quando assisto um monólogo, quando quebro um copo, faço uma sesta ou suspiro cansado. Na beira do rio, no escuro das madrugadas, no alto dos montes ou nas tardes alaranjadas, não há um único espaço ou hora que eu não tenha essas presenças a me lembrar quem eu sou e do lugar de onde parti.
E assim, sigo caminhando sozinho na companhia dessa multidão de vozes que não cessam. Ando aos bandos, cercado de gente que amo e sem ter sequer a chance de um momento de solidão.

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Pródigo Exilado

Por Sérgio Dantas

I

No princípio, lançaram-me verbos…

Não pude aceitá-los nem recusá-los

Rumei sobre eles como Maria Máquina em trilhos fumegantes

levado a desfechos inóspitos e raras estações de refrigério

Forjado a ferro e fogo nessas eiras sem fim

resvalei em capim santo e aço encrespado.

Fez-se porém rumos de aparente liberdade

São as escolhas, ações e conduta que,

como certa a matemática, ditarão o destino desta viagem.

Mas como manter a sanidade diante da terrível percepção

de que não existem escolhas?

…eternamente conduzidos sobre os mesmos trilhos

Vastas paisagens pardas e ensolaradas, que se repetem

para o destino que não ouso citar nomes e pronúncias.

Haverá na bondade de Deus cercas, arames e veredictos antecipados?

Ou segue-se o destino impiedoso e cego?

E por mais que se declare corajoso que mover-se é a única possibilidade

resignando-nos ao paralelismo exato dos trilhos

Sigo deslocando-me (inutilmente?) de frangalhos em esperanças

na improvável busca de encontrar desvios e atalhos.

II

Somos todos seres exilados. Distantes de nós mesmos e dos que tão ilusoriamente nos cercam, nos abraçam. Exilados até de nossas possíveis escolhas e liberdades.

Não nos foi dado o direito de explorar o oceano, países e continentes quando lançados em uma ilha, sem barco nem remos que nos movam além.

Caminhamos vislumbrando o horizonte, seus rumos e possibilidades, mas nossos passos nos conduzem sempre para o mesmo lugar, a morada de onde partimos.

Os errantes, com seus pés descalços e calejados traçam em suas andanças um desenho confuso que, no fim dos dias, compõem o mapa de suas raízes. Os rebeldes são esmagados pelas paredes de labirintos que só oferecem uma única saída.

Terrível é, para os que percebem a escuridão que habita o peito, decidir mudar seus rumos. Tão mais terrível é saber que o cenário belo deste retorno, no horizonte utópico e frágil de nossas crenças, amarra-nos a uma única trilha.

Por vezes, convictos de nossa liberdade, seguimos na direção contrária. Outras vezes retornamos, contra desejos e inquietações. Mas sempre na mesma estrada, de pedras pisadas e solidão.

O filho que volta para casa não tem escolha, exceto à morte. Volta para os braços do pai, este abraço compassivo e determinista. Rendido está ao exílio do amor.

Todo retorno é uma espécie de sentença.

III

Deus feriu-me com sua graça imensa, tal faca penetrante de dois gumes.

Desferiu-me um golpe fatal, marcando-me com uma dor que jamais cessa.

Esmagou-me com o tamanho de sua busca e revirou-me todo.

Atirou em minha face esperanças violentas contra minhas frágeis incertezas.

O Onipotente, sem dó nem misericórdia, aprisionou-me a certezas daquilo que não posso ver nem tocar.

Encravou pecados e inversões em meu peito e sujeitou-me à um único antídoto salvador.

Deixou que feras e monstros comessem meu corpo para oferecer enxertos espirituais como única forma de sobrevivência.

Massacrou meus desejos carnais e vestiu-me com roupas que não são minhas.

Lavou-me com fogo que corroeu minha carne e derreteu minha alma.

Transformou meus quadros abstratos e confusos em cenários impressionistas e belos.

Aquele que não tem nome, chamou-me pelo nome profetizando um só destino e ofereceu a morte como única possibilidade diversa.

Quebrou meus ossos, cobriu minha pele de feridas e golpeou-me com minha própria liberdade. Esbofeteou minha face com sua outra face terrível.

Atou-me no caminho de volta ao lar.

Deus exilou-me de mim mesmo como forma arbitrária de conceder fôlego vital.

Abraçou-me suavemente, olhou-me com ternura, prendendo-me eternamente em suas moradas.

Era isso, ou a miséria dos meus próprios caminhos.

 

Escritos de um Exilado

Por Filipe Colombia  

Eu procurei entre as gavetas da prateleira por um volume de papéis rabiscados. Mas não achando, sentei-me na cadeira de palha, que rangeu suavemente. Era noite, como na maioria das vezes em que o ócio de pensar nos trás a solidão que vem com mala e cúia e se instala nos cômodos da casa mental com uma total avidez. Então tomei a decisão de escrever em outra folha de papel, uma nova folha, pra variar, somente para dissipar essa ânsia por voltar ao descontrole de outrora. A mesa em minha frente é tão velha que ela nem mais range, se não grita, reclama a qualquer rabisco. Porém tampei seu gemido com um mpb sacerdotal, mesmo já ouvindo alguns cretinos dizerem que mpb é do demônio. Depois de escrever um bocado, meu punho parou tremendo. De sobressalto decidi parar e não sei porque, olhei para os meus dedos com unhas mal-cortadas, frios como o inverno ártico. Voltei há um ano atrás, mesmo sem saber porque.

Lembro-me que eu fumava, mas não fumava tanto. Porém afogava minhas primas-mágoas na imensidão dos bares centrais, com estagiários de terceira divisão que cheiravam almoxarifado e notas de um real. Eu não ficava junto com eles na mesma mesa, ficava sozinho, mas o recinto nos unia pela fumaça, pela ilusão da eternidade em uma sexta-feira banhada de choop e misto-quente. Logo após ver o pessoal de telemarketing sair do trabalho com roupas mini mostrando as barrigas, coxas, sobrecoxas, maminha, fraldinha, parecendo mais o dia de festival de carne do que um dia de trabalho. Olhava aquela babilônia paulista com um olhar de “Maranata”. Bebia meu choop de sempre, sentava na mesma mesa de sempre, via os mesmos preços de sempre. Não havia faculdade, era perto do natal. Minhas médias eram de dar inveja, meus projetos eram mirabolantes porém, bem fundamentados na teoria da arquitetura confucionista. Enfim, na parte educativo-profissional eu estava bem. Meu emprego me pagou, tinha o vale refeição recheado e podia tirar quantas fotos eu quisesse das favelas. Tinha sido “promovido” a responsável mirim do arquivo fotográfico geral do Programa Mananciais. Pra mim era coisa boa, afinal, o pessoal parecia gostar de mim e eu, parecia gostar deles. Porém na minha área social, eu andava torto.

Torto por causa da bebida e por causa das recordações recentes. Uma fumaça que não saía da minha frente e me fazia tatear em qualquer lugar, procurando apoio, sustento. “Que se ferre o passado”, dizia. Gostei do ideal futurista que varreu o mundo no começo do século XX, dizendo que todos os museus tinham que ser destruídos e tudo deveria ser novo. Tratava meus problemas sentimentais como o nazista tratava o judeu, como o americano trata o mexicano e como o brasileiro ainda trata os bolivianos. Resolvia não tolerar-me, comecei a tratar-me mais mal que o comum, sendo juiz de mim mesmo e nem solicitando um advogado para a minha pobre alma enclausurada. Então quando chegou o natal decidi não freqüentar mais os bares centrais, decidi ficar em casa, dando desculpa para o meu corpo, dizendo que precisava dar tempo para a família.

Já viu, natal e final de ano é sinônimo de lusinhas, corais horrendos, perús, e uma programação continua que sempre sabemos que vai ser igual. O pessoal faz a ceia, sorriem, comem panettone, chocottone, moussettone… dão e recebem presentes e assistem a tv globo. Então eu decidi fazer diferente. Dei outra desculpa para minha família e disse “ficarei em casa, estou cansado pois trabalhei muito”. Eu não estava mentindo, pois minha mente trabalha até quando dorme e realmente aquela semana no trabalho tinha sido exaustiva por causa do “fechamento” do ano no escritório. Fui nas festas de comunhão empresarial, ganhei minha cesta de natal, joguei sinuca, fui cínico e bebi tudo o que eu podia, mas sempre chegava de pé em casa, mesmo fedendo a depressão. No próprio dia do natal, a casa encontrou-se vazia, não sei porque. Fiquei só com a poltrona azul e com a cesta de natal. Fiquei a vontade, vagando entre os cômodos, perturbado pelo calor insuportável e pela gritaria no prédio em frente. Liguei a tv como se aquela tela colorida me desse às respostas para as perguntas que eu nem sabia formular. Parei no canal “Brasil” dedicado somente a filmes brasileiros. Um filme passava e eu não entendia bulhufas, só sei que a Malu Mader era protagonista. Decidi abrir a cesta de natal e percebi que havia um vinho do Porto. “Uaauu”, pensei, “essa cesta sim é boa”. Peguei a única taça que tinha sobrado na casa, pois as outras três já tinham ido “pru céu”. Comecei. Não parei. Me vi dançando sentado, vendo as letrinhas do filme que acabava até que vi o nome do filme: Brasília 18%.

Fui na varanda quando a garrafa acabou. Fiquei sólido e plantado em um banquinho de plástico, recebendo a brisa da madrugada que não agregava em nada.

Não Chorei.

Não sorri.

Entreguei-me a uma indiferença penetrante que me arrastou ao poço da indignidade. “Poderia terminar assim”.

Coloco o aquecedor perto de mim e me encolho em meio à sala vazia. Estou em outro lugar, sóbrio pelo frio. A kilometragem de quantas letras já escrevi por aqui é alta. Cuido de mim mesmo, cuido principalmente de meus dedos e medos, mas tenho que cuidar dos outros. Faço carinho nas árvores, me entrego ao passado como um arqueólogo. Não me afastei do perigo, pois é ele que me persegue, mas neste exílio mental, procuro fundamentar meus propósitos e meu sentido de viver. Já me perdi o bastante, agora cabe achar-me. Mas procurando-me percebo que achei o calhamaço de folhas que procurava, estavam debaixo do álbum de retratos. 

René Magritte

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