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Posts Tagged ‘Renúncia’

Enfim 40…enfim desisto…
Os quarenta finalmente chegaram e acreditem, passa rápido mesmo. Outros quarenta só por sorte ou benevolência dos céus. Portanto, ao que as estatísticas indicam, já passei faz tempo da metade do trajeto. Então sejamos francos e encaremos os fatos: está na hora de uma reavaliação urgente. Reunião de emergência a portas fechadas.

Se bateu a crise dos quarenta? Sim, mais isso quando eu estava nos trinta. Sempre sofri por antecipação. Agora constato num misto de resignação e alívio: chegou a hora de desistir.

Não se trata de desistir da vida. Desta desisto todas as manhãs quando sou forçado a acordar antes das sete. Mas ao meio dia já estou cheio de planos e idéias novamente.

Trata-se de desistir dos sonhos que nunca foram meus, de ilusões e expectativas alheias. Trata-se de enxergar os fatos com coragem, esvaziar a mochila dispensando os cacarecos que não usarei mesmo e seguir em frente mais leve, ciente que não se deve importar com o que nunca importou.

Antes de tudo, desisto de ser adulto. Juro para vocês que tentei. Me formei naqueles cursos que garantem emprego e carro zero. Tive emprego de gente grande e sim, um carro zero. Trabalhei com carteira assinada e namorava direitinho, com a meta de chegar ao altar como manda o figurino. Mas o que posso fazer se não tenho competência suficiente para exercer a vida adulta? Acusem-me de irresponsável e libertino. Logo eu que já nasci velho, carregado de memórias e saudades, agora aos quarenta o menino surge do nada, grita por espaço e não admite gaiolas nem terno e gravata. Segue correndo atrás das pipas e bolhas de sabão. 

Desisto portanto de ser bem sucedido. Isso não me pertence e dá muito trabalho. Aos quarenta, nem que quisesse. Já não tenho mais fôlego – lê-se saco – para carreiras e planos de negócio, e o mercado de trabalho é impetuoso com semi-idosos. Deixo para os ambiciosos que negociam suas almas em troca de troféus e jantares caros. Vou seguindo leve com pouco no bolso. Assim posso ir longe mesmo com a idade pesando em minhas costas. Há tanto ainda por conhecer. Tantas trilhas a serem exploradas. Tantos rostos, histórias e lugares a serem degustados que a idéia de gastar dias e meses entre as mesmas paredes chega me dar urtiga. Fiquei alérgico a estabilidade, salário fixo e salas sem rota de fuga. 

Desisto também dessa caça incessante pelo propósito maior da vida. Acho mesmo que imaginei coisas quando acreditei que fui criado para um destino singular que mudaria a face do mundo. Hoje estou ciente, não mudo nem mesmo essa mania de limpeza que beira a neurose crônica ou esse hábito irritante de escovar os dentes a cada meia hora. Ainda bem que minha irmã é pior que eu…fico mais tranquilo. Como diria a Roseli – aquela que também esqueceu de atingir a adultice – ‘é tudo fruto do meio’.

Desisto inclusive de encontrar o grande amor da minha vida. Soa triste, eu sei. Mas já superei. Nunca consegui lidar com expectativas e frustrações. Sou exagerado demais, não faço julgamentos sensatos. Acabo amando completamente e sem freios para dizer adeus em seguida. Correr atrás, nunca mais. Minhas pernas até que ainda são ligeiras mas estão apaixonadas por outros rumos. Se existe alguma grande história de amor reservada para mim, ela que venha atrás. Que saia à minha caça até me capturar. E eu não pretendo dar mole. Agora que sou um quarentão charmoso, vai ter que ralar para me conquistar. Aviso logo que não sou fácil.

E finalmente desisto de atender as expectativas, sonhos, desejos, intenções e decisões dos outros. Se tenho rugas, alguns raros cabelos brancos, bico de papagaio e dermatite atópica, tirando o desgaste resultante dos anos de uso, o resto é fruto dessa minha mania de agradar a galera. Era, já não é mais. Aos quarenta me dei carta de alforria. Não faço por má vontade nem para causar polêmica. Espero que me entendam. Só agora compreendi que a vida é uma só, décadas passam como se fossem meses e agradar as pessoas – vizinhos, amigos e inimigos – é correr atrás do vento e não chegar em lugar algum. Aos que me amam de verdade, e usam a desculpa de que ‘só querem o meu bem’, não me levem a mal. Erros e acertos fazem parte da jornada e eles serão meus. Sofram ou se alegrem, mas não esperem encontrar em mim um filhote domesticado. Sou quase um idoso e me dou ao direito, hoje e daqui para frente, de decidir por mim mesmo e escrever uma história com minhas próprias mãos. Não quero, ao final dos dias, culpá-los pela frustração de não ter sido o que sou, caminhado com minhas pernas e perseguido os sonhos que me pertencem. Ficamos melhor assim?

Enfim os quarenta chegaram. Mentir não vou, fácil não é digerir isso. Mas tudo pode ser ainda melhor nesse segundo tempo. Isso se eu tiver mesmo coragem de desistir desse padrão de super man maduro, estável, gordo e feliz pelos feitos realizados até aqui. Nunca estive tão vulnerável, inquieto e ansioso pelo que ainda está por vir. Experimento o assombro ao viver a vida em toda sua brutalidade e beleza. Sei que deveria conter-me no corpo rígido de um adulto em fase de estacionamento, mas minha alma ainda é leve e não consegue se manter no chão. 

Finalmente quarenta. Recebo-o com sorriso largo e cabeça cheia de sonhos. Eu que nasci velho vou me tornando menino. Minha sede é do que ainda não tem nome. É de vazios e esperanças que meu corpo está cheio, desejando loucamente pelo que ainda virá, como anseiam as crianças e os poetas por mais um dia, nascido de novo e carregado de possibilidades e lacunas a serem preenchidas com essa nossa insistência pela vida.

  

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Por vezes sou atormentado por sete demônios,

mas não dou a eles nomes nem créditos.

Esqueço seus rostos que aparecem dentre as trevas do homem que sou.

Sigo a trilha como se suas vozes não fossem reais, nem possuíssem garras cortantes e olhos sedentos.

Não tenho por eles apreço nem temor.

Sei, no íntimo das coisas, que sou pior que eles…meu maior e mais perigoso inimigo.

Lutar contra minha ânsia de existir, meu apego à essa felicidade em fuga é batalha quase perdida.

Sou resistente como pedra e desejoso tal fogo consumidor…

Como navalha na carne vou fatiando meu corpo entre o não e o sim.

Entre um e outro sonho, desfaço-me pelo caminho até não encontrar fôlego.

Eis que renovado por mais um amanhecer terreno, renasço …demoro a definhar-me.

Sobrevivo a cativeiros e grades.

Por isso vencer-me é mais árduo e improvável que carregar às costas monstros demoníacos…

Temo essa sobrevivência prolongada…refúgio que as coisas cintilantes desse mundo me oferecem.

Assim estendo por séculos a punhalada fatal que daria fim a essa tormenta.

Se tão somente, por sofrimento terrível ou dor irreparável, eu tirasse forças para arrastar ladeira acima esse corpo frio e dele me livrar, estaria livre…de mim, dos demônios e dessa eterna gana de perseguir becos sem saídas.

Para que, enfim…meus olhos cansados pudessem convictos,
testemunhar o fim dos dias,
epílogo necessário para suscitar a frágil esperança de um recomeço qualquer.

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“Digo-lhes verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto.” Jesus no evangelho de João 12:24

Luta-se pela vida. Não apenas pela sobrevivência, mas para aproveitá-la em todos os seus desdobramentos e benefícios. Buscamos a overdose que sacie nossa vontade de viver.
Há o anseio pelo conforto do corpo e da alma.
Um desejo quase insano por prazer e aceitação.
A busca do poder e controle. Do nosso nome gravado e nossas palavras e gestos seguidas de aplausos. Precisamos da prova cabal de que nossa imagem está perpetuada nos cenários que nos cercam.
E o descanso, a brisa e o litoral para os dias distraídos. Pausas para tomar fôlego e recomeçar a sina de construir os castelos que nos satisfarão.
Não há tempo a perder.
Por coisas assim evoluem a ciência, as ferramentas se aprimoram e busca-se conhecimento.
Nessa gana por mais vida, homens constroem seus reinos, a custo de destruição alheia. Pelo alto preço do próprio sangue. Pais, filhos e amigos.
Essa busca injeta em nós asco e temor pela morte. Fazemos silencio sobre ela com medo que a simples menção nos traga seu abraço gélido. Uma inimiga a ser vencida. Uma praga antiga que precisa ser exterminada.
Assim foi no começo, assim continuará sendo…
Mas, contradizendo todas as racionalidades e ideais humanistas, também há os que invertem a ordem estabelecida e caminham em direção oposta. Ao invés da luta insana pelo desfrutar dos dias, morrem e mortificam-se sabe-se lá por ansiarem que tipo de valia?
A mulher que desfaz-se de seu corpo jovem e seus sonhos, permitindo que outro ser cresça em suas entranhas, deformando-a e alimentando-se em seu ventre. Morre-se aos poucos quando convicta de todas as lidas, decide ser mãe e para o resto dos seus dias não terá nunca mais um pensamento que exclua o interesse de sua cria.
Morre-se também aquele, que fisgado por qualquer injustiça é tomado por uma ira tão violenta, que entrega sua energia e seu tempo para gastar-se naquilo que não pode vencer. Sua vida é pouco para eliminar as mazelas desde mundo, mas não tem como segura-la pra si frente a tais incômodos e desalentos.
Vai deixando-se também os que, cansados de si mesmos e dessa angustia pela felicidade, arriscam-se encontrar direção nas frias cavernas do esquecimento e nas trilhas escuras da renúncia. Vão desfazendo-se das coisas que possuem e de si mesmos, enquanto caminham resolutos e solitários por essa estrada sem holofotes nem amenidades.
Mas morrer assim é mais doloroso e trágico que acidentes aéreos, infartos fulminantes e doenças incuráveis. Um morrer-se contínuo, sem marcos nem datas para validá-lo. Um estado permanente de despedida e dor. Morre-se lutando até o último suspiro por vontade própria. Anti-natural e subversivo.
A cada escolha, uma batalha a ser travada. A cada dia de mortificação, um amigo que nos deixa, uma cidade que nos declara guerra. Em cada pedaço de vida que se insinua, agarra-se desesperadamente as bordas da mortalha como salvação. Sobrevive-se negando a vida. Vive-se o inverso. Resiste-se com a tola esperança de que descartar a vida é melhor do que desejá-la.
Desde que a virgem concebeu uma criança, não para que vivesse nesse mundo, mas para morrer por ele, eis invertida para sempre a ordem das coisas. Nasceu para a morte, seu destino.
Assim feito, quem, com desejo ardente e determinação, entregar-se para a vida estará decretando seu óbito permanente. Mas aquele que, corajosamente e a despeito de todos as evidências, largar seu próprio corpo á beira do caminho, inerte e sem desejos que o movam, terá no fim dos dias a esperança de encontrar vida… plena, abundante e precisa. Alongará seus dias como semente jogada à beira do caminho, e que ao morrer, produz frondosos galhos e flores e frutos e sombra pros viajantes cansados.
Por isso, muitos vivem evitando a morte e nessa ânsia insana pela vida terminam por perdê-la.
E outros poucos entregam-se a morte na esperança de que recebam algo superior á vida que se apresenta todos os dias diante de si.
Escolhe pois teu caminho…
Encolhe-se diante das pálidas platéias e vai se diluindo, tornando-se o pó insignificante de onde surgiu seu ser. Só assim poderá receber um corpo indestrutível e belo e uma alegria que será tua, e nem a morte, nem a vida poderá arrancá-la de ti.

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Maternidade – Lasar Segall – 1931

Estendeu-se sobre o corredor nas mornas horas da manhã. Resistira mais uma noite e isso lhe bastava. Deslizou quase inconsciente com seus dedos leves a tocar as crespas paredes e o peso de seus pés pressionando a passadeira gasta. Esses poucos momentos silenciosos da manhã eram seus. Eram inteiros. Acordava mais cedo para descansar, para preparar o seu espírito simples para as duras batalhas que em instantes iniciariam. Carecia secretamente dessa trégua para não desfalecer ao meio dia.

Desceu degrau por degrau como uma estranha dama que desfruta os espaços de sua mansão misteriosa, quase se divertindo. Por instantes era outra, em outro lugar. Estava sólida. Existia.

Sem consciência das transições que fizera no percurso, quando despertou novamente o café estava pronto e aromatizando a cozinha de azulejos antigos. A impessoalidade da pia sem acabamento e do piso trincado era quase uma ofensa, um xingamento de baixo calão. Por pouco o leite fervido não escapa da leiteirinha velha. Um vacilo e sua pausa se desfaria, seu instante vital para fazer-se pronta seria substituído por uma necessária limpeza no fogão.

Apegou-se aquela cozinha sem filhos, sem homem e suas exigências rígidas. Nela presenciava devaneios cada vez mais constantes e temia esse desgaste que suas rotinas sofriam a cada manhã. Necessitava mais cautela.

Delicadamente pousou leite em uma xícara e sentou-se à mesa. Ecoou o tintilar da louça por um momento e depois esparramou-se em silêncio. O fato de saborear aquele leite morno a preencheu de um prazer momentâneo, quase obsceno. Permitiu-se vagar mais uma vez.

Estivera outra em muitos momentos. Seu casaco de inverno suportaria as ruas européias ou frias cidades cravejadas de luzes, carros velozes e propaganda. Sabia vagar dura e ameaçadora. Protegia-se. Sobreviveu a tanto e com tão pouco que bastaria usar a severidade herdada desde os primeiros anos. Nunca fora uma criança e por vezes já estivera grata por lhe faltar colo e devoção de amas molengas que só conheceu de novelas e folhetins. Sempre esteve só e sobrevivera. Isso soava quase como um consolo, uma graça herdada.

Andaria a pé, conhecendo novos lugares a cada estação do ano. Colheria flores estranhas e experimentaria campos e lagos como fazem os aventureiros sem rosto.

Viveria sem amante e trabalharia como operária ou escrituraria de qualquer repartição. Abdicaria das dores de parto e dos afetos fatalistas que a maternidade impusera em suas entranhas e mamas. Receou cair em pecado mortal e imperdoável. Como se desfaria desse desejo abrupto de liberdade? Recuou.

Mais um gole e percebeu que o prazer diminuíra com o leite que esfriava rapidamente. Ocorreu-lhe que o prazer nunca se repete da mesma forma. Estamos constantemente perdendo, como se nosso destino fosse descer ladeiras infindas. Desmoronam-se fragmentos entre os dedos.

Sorriu resignada, estava envelhecendo. Sim, envelhecia como todas as comadres tão flácidas e irritantes que encontrava em tardes monótonas de chás compartilhados e vendinhas. Arrancaram-lhe desde cedo sua vida e agora envelhecia.

Levantou-se violenta fazendo com que o pouco leite que sobrou se agitasse pastoso e uniforme, rodando dentro da xícara sem derramar-se. Consumiu-se mais do que podia enquanto se permitia inexata. Em breve mergulharia novamente na vida, nos afazeres tão benevolentes que impediam que tudo desabasse em sentidos e constatações. Os ruídos e esbarrões familiares a trariam de volta para a casa, as contas, a semana que se refazia. Era quase como ser resgatada de águas bravias e profundas.

Em pé, ereta em frente à xícara sabia seus próximos passos. Lavaria sua pequena louça, recolheria o lixo úmido da noite passada e arrumaria a mesa para a primeira refeição de sua família. Mas hesitou, permanecendo imóvel. Não podia. Sabia que precisava seguir adiante, desvencilhar-se dessa nuvem sorrateira que ocupara mais lugar do que deveria. Sentiu um calafrio que pareceu por ela mesma ter sido provocado. Percebeu todo o seu corpo, ele a pertencia e isso a assustou.

Levou a mão ao pescoço e acariciando-o pareceu ser outra quem a tocava. Suas mãos eram pesadas, como não havia percebido? Esses dedos curtos e gastos poderiam ter feito redes, escrito romances ou pintado porcelanas imensas. Vasos antigos que tocariam o teto de casas de luxo. Poderiam escrever discursos. Ela agigantava-se sem reservas por enxergar sua outra face, absorta em vazios. Nesse desvario em que permanecia suspensa, pensou como quem sussurra preces: ‘eu nasci para presidir essa nação de flagelados inúteis e vagabundos. Nasci para conduzi-los aos destinos que ainda não dei nome. Posso levá-los adiante como quem arranca crianças remelentas de seus barracos sujos. Posso libertar tantos dessa miséria que vitima suas vidas sem sentido’.

Este súbito fluxo quase a arrastou como encostas que desmoronam violentas. Suspirou angustiada. Esquecera de respirar por horas e agora sugava o ar como quem está por afogar-se. Despertava abruptamente.

Sua hesitação foi rápida, mas pareceu-lhe muito. Um leve balançar de cabeça e recobrava-se. As cortinas xadrez de sua pia lhe saudavam, como que a relembrando de seus pertencimentos. Com um preocupante atraso, refazia-se para mais um dia.

O primeiro a aparecer foi o filho do meio, que sonolento esgueirou-se sinuoso até a cadeira. Ela não o reconheceu, parecia outro. Assustou-se por quase não relembrar de seus traços. A quem pertence esse menino tão insosso? Depois, como um bloco insípido, apareceu o marido e seu cheiro de homem gasto. Sentou-se e lhe fez algum comentário. Talvez uma saudação matinal. Ela respondeu sem pensar, com um sorriso que o marido sequer notou. Era claramente culpada. Sim, culpada por carregar em seu peito o fardo de não pertencimento. Não reconhecia a casa como sendo sua. Ressentia-se e como providência retomava seu dia, sua rotina agarrando-a com fúria.

Estava pronta para tudo que viria a seguir. Finalmente abria-se a luz da manhã derramando-se sobre o piso trincado da cozinha.

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Amo-te nesses momentos de completude e encanto

Nesses encontros fortuitos, instantes, vagas casualidades

Nas horas rápidas e conversas sem pausas, amo-te em silêncio

Amo-te como quem renuncia a existência, como quem prende o fôlego diante do abismo

Amo-te nos cantos sombrios, iluminados pelas luzes bruxuleantes de velas e canções

Assim te amo, a despeito do céu e do infinito,

vou seguindo nessas trilhas escuras sem estrelas

Largando pegadas de lama no carpete de mais outro hall de entrada

Amo-te como quem ingere um veneno em pequenas doses para oferecer-te hálito doce

Por isso recebo teu sorriso e não retribuo, por amar-te e desejar perder-te no exato momento em que te amo

Por ser distinto, estranho e irreconhecível este amor dou-lhe apenas meu olhar

Armadilha consumada em chamas

Pois que amar-te assim é câncer a ser arrancado por minhas mãos endurecidas, minhas esperas por redenção

Amar-te nas bordas desses instantes para sofrer eternidades

E de tão cansado de amar-te, sigo desfigurando teu rosto, anulo teu sorriso

Seco as últimas gotas amargas em meus lábios antes de partir

Nesta noite vazia sem resistências permito cravar sua última imagem em meu peito,

para amanhã esquecer-te indiferente

Desatinado por esse amor bebo esse fel, na firme esperança de que cessará de tempos em tempos

Assim como é breve o abraço que nos une

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Ela sonha e isso é dolorido. Sonhos de realizar coisas com significado, conhecer pessoas, sonhos de reconhecimento, de ser percebida. Anseia por não desaparecer sem rastros nem relevâncias.

Mas sua vida lhe parece grades. São as crianças pequenas e exigentes em suas necessidades, a casa sempre por arrumar, os dias perdidos em uma esquina qualquer do interior, tão distante dos lugares onde as coisas acontecem e as pessoas experimentam a aceleração provocada por desejos instantaneamente atendidos.

Está encarcerada e não recebe visitas. Não há registro de seu nome nos jornais da cidade. Encerrada nas paredes frias de suas escolhas, angustia-se que isso possa durar uma vida, mais um entardecer sem mudanças ou contradições.

Mas há em todos os seres invisíveis algo rico, uma chance única de inventar cantos inesperados e belos, que ressoam por séculos nos muros úmidos desses sítios abandonados. Criar essas canções é resistir. Proclamar angústias e fagulhas de esperança é romper as portas que aprisionam os seres alados. Mesmo que ninguém as ouça, mesmo que ela continue invisível para o resto do mundo.

Segue fazendo versos que aliviem sua alma, dê significado ao momento e encha seu peito de uma beleza suave, como brisas que acariciam os rostos nos dias de calor opressor.

Reconhecer-se a ser reconhecido. Renunciar a fama mesmo sem chance de tê-la para fazer de seu tempo um horizonte liberto pelo canto diário, carregado de palavras verdadeiras, pois que nascidas da dor. Há que se viver, invisível e recluso, mas com asas recém-nascidas que te levem a compor a obra que entregará com mãos anônimas para que outros possam alimentar-se dela.

Eis o fel que te é oferecido a cada manhã. Eis a renúncia diária que te salvará e cravará em teu ser comum uma verdadeira obra prima.

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