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Posts Tagged ‘Perdas’

Véspera de Natal, eu mudando novamente para outra casa, e ao tentar cumprir as soon as possible as tarefas do dia levei um tombo que me trouxe a revelação final: 2014 veio como um professor impiedoso e duro, daqueles que provoca pavor na gente, mas que nos ensina por meio de lições que ficam gravadas na carne.
Dia chuvoso, bicicleta gasta, e eu fui inventar de subir na calçada pra não molhar a bunda com a água que espirrava do asfalto. Não deu tempo nem de pular da bike, cai de lado, em cima do braço e bati a testa no chão molhado. Incrível como nesses segundos é possível pensar tanta coisa. A palavra que resumiu o volume de pensamentos que tive naquele momento de cara no chão, sem saber quais ossos ainda estavam inteiros foi: FERROU! (Claro, a palavra que melhor se encaixa aqui não é exatamente essa, mas vou usá-la devido o horário e as crianças ainda brincando na sala).
Sim, ferrou de vez.
Porque o ano veio me ferrando sem dó. E há apenas alguns dias dele terminar, levo uma rasteira que resultou em uma fratura que insisto em tratar sem imobilizar o braço e me impediu de cumprir o plano tão esperado de finalmente economizar alguma grana nas férias de verão.
Sim, ferrou geral. Já não bastou as perdas irreparáveis. Gente que partiu e deixou-me em frangalhos.
Já não bastou as lutas que não deram trégua nem ofereceram lugares de descanso.
Não, parece que não bastou. Falta sempre um desfecho, um último ato, uma cena final para transformar a metáfora em realidade. Um tombo no asfalto e um corpo estatelado no chão. Sim, ferrou de vez! Obrigado 2014!
Mas então compreendi.
Toda virada de ano enchemos nossas mentes de pensamentos positivos e nossa barriga com mais comida do que deveríamos. Toda virada de ano desejamos dias por vir que sejam mansos, felizes, que nos tragam prosperidade e paz. Que nos agrade com presentes, conquistas e realizações. Que nos mime com aquilo que a gente quer faz tempo, seja um filho, uma Ferrari ou uma casa na Praia Grande. Toda virada a gente quer a mesma coisa, ser feliz sem ter que pagar a conta. Pança cheia de sucesso e conforto.
Mas quando janeiro começa a gente tem que enfrentar a realidade de que a vida não é assim um animal domesticado que nos obedece e que a gente leva pra passear na coleira dos nossos desejos. A vida é selvagem, instável, misteriosa, cruel e assustadora. Nossas ilusões são boas para nos manter em movimento, mas há um momento que é preciso perdê-las para finalmente poder enxergar o mundo.
2014 foi arrancando de mim ilusão por ilusão. E quando não restavam muitas em minha mochila gasta, ele me passou a rasteira derradeira para me arrancar a última de todas: a de que estamos protegidos e amparados seja qual for a tempestade que enfrentamos. Eternamente intocáveis. Não, não somos.
Esse professor impiedoso normalmente é odiado e evitado. Eu decidi ouvi-lo. Porque foi essa brutalidade que me libertou para entrar em 2015 livre das ilusões que ainda me impediam de ter olhos que finalmente pudessem enxergar as duas faces da vida: sua crueldade e beleza. Entro em 2015 mancando mas consciente. Entre nesse novo ano como quem perdeu muito, mas agora está leve para seguir a jornada. Como dizia a Cora, carrego só aquilo que cabe no meu coração.
Começo mais um calendário entendendo a crueza das horas, a frieza daqueles que deveriam nos amar, o amargo fel daqueles que partem sem dizer adeus, porém não há mais lentes distorcendo o cenário que está por vir. Só meus olhos crus, ainda marejados pelas últimas perdas, mas possuindo uma lucidez que ilumina o caminho.
Entro em 2015 com muito pouco. 2014 me arrancou quase tudo. Sigo leve, sentindo o vento no rosto e finalmente compreendendo que as ilusões pesam demais e a melhor coisa a fazer é abandoná-las pela estrada.
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Ela ansiava pelos rotineiros ensaios do coro, mas foi lançada a uma reclusão abrupta. Seu rosto segue deformando-se pelo câncer que corrói tudo. Perdida pra sempre foram suas feições, seu sorriso e sua possibilidade de maquiar-se para as festas que amava freqüentar. Está condenada a vestir uma máscara grotesca, que perturba os que não conseguem disfarçar o peso da morte a se cumprir. Como artista de uma tragédia, segue arrastando-se até o último ato antes do cair do pano.

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Ele se foi abruptamente. Suas mãozinhas tinham os dedos cruzados segurando uma coleção encardida de bichinhos de pelúcia, enquanto seu corpinho frágil permanecia estático entre flores indiferentes daquele pequeno caixão branco. Quantos lanches e sorrisos esses brinquedos presenciaram ao serem apertados pelas mãos desse garoto que só não era tão comum, porque dividia com sua irmã gêmea a simultaneidade da infância. Agora lhe restavam apenas seus dedinhos cruzados e seu rosto inchado que já não podia sentir o olhar perplexo de sua mãe nem a dor insuportável que ela carrega.

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Ela tinha as madrugadas como uma companheira antiga. No escuro a angústia desabava sobre seu peito, como fardo de uma herança maldita de gerações passadas. Exausta de arrastar seus queridos para o poço inevitável do qual não conseguia se desvencilhar, dessa vez temia não resistir. Percebia como quem recebe uma condenação irrevogável que não suportaria mais o peso de sua existência. Levantou-se da cama que dividia com seu companheiro gasto pela vida, caminhou no escuro pela sala como tantas vezes fez em silenciosa angústia, mas dessa vez preferiu seguir além e livrar-se do beco sem saída que a encarcerava. Voou pela janela da varanda até seu corpo triste romper-se no chão do condomínio classe média no qual raras vezes vivera momentos felizes.

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Essas histórias desabavam sobre ele como se a vida fosse um prédio antigo sempre a ponto desmoronar e do qual ninguém está livre. Abatia-se sobre o seu peito tamanho desespero, que imaginou que a única resposta que temos é lamentar e se proteger, cada qual a sua maneira. Vítimas que caminham no escuro. Assim andou tanto tempo sozinho o garoto estranho de braços cumpridos, que desaprendeu a diferença entre solidão e abandono. Sua face guarda a lembrança de tantas lágrimas mornas que agora estão secas.
Mas algo moveu-se estranhamente em si. De tristeza em tristeza foi contraindo essa paz sem nome e como por feitiço ou milagre abriu-se diante de seus olhos amargurados um novo cenário que o fez sorrir quase que por distração…
Percebeu-se com uma terrível possibilidade em suas mãos desajeitadas: é possível lutar! Desde então esse espectador anônimo fez pra si um tributo-antídoto e um manifesto guia para declamá-lo aos cantos escuros de sua cidade, entre conterrâneos que dividem o mesmo pão amargo das fatalidades. Bradou como se tivesse só essa vida para anunciar sua peleja e arrebanhar os que sofrem. Foram essas as suas palavras…

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Eis que se faz necessário um novo grito, a plenos pulmões e com o som furioso de uma resistência eminente…clamemos por alegria! Não uma euforia desmedida nem um otimismo destacado e irritante. Mas uma luta incessante por aquela alegria de quem sabe que não há assunto urgente ou importante neste universo que justifique um rosto emburrado.

Que haja risos das crianças por todos os lados, em praças e funerais, em igrejas solenes e campos de batalha. Que suas vozes ecoem pelos cantos miseráveis desse planeta hostil e cubram os andarilhos de esperança.

Declaro em vigor a lei que impede assuntos sérios e cerimônias vazias. Só não resistamos à tristeza, essa que é a outra face da própria alegria e se faz necessária quando o corpo padece e a alma é golpeada pela vida.

Aos que sofrem em seu peito a dor das doenças e das perdas, resta-lhe portanto uma alternativa: resistir bravamente com doses de alegria. Ouço seus gritos e lamento suas angústias e a estes responderei dando-lhes qualquer fagulha de bom humor como tributo aos seus dias tristes.  Não faço por desrespeito ou insensibilidade, pelo contrário, o que tão somente posso oferecer é esse compromisso de agarrar-me a alegria e dividi-la com o outro como fazem os mendigos com as migalhas que encontram pelo chão.

Clamemos por alegria!

Por isso desistam de esperar de mim um executivo respeitável, um doutor formal ou um mestre distinto…apresento-lhes o que serei, um palhaço errante que combate as mazelas do mundo plantando nos corações amargurados sementes de risos a se cumprir.

Para aliviar os que adoecem, um afago desajeitado e uma história esquisita.

Para suavizar e perda irreparável de uma criança, um verso e um sorriso de quem partilha uma carga pesada demais…

Para os que desistiram, antes que se partam…dedicarei uma dança estranha, um abraço apertado e uma careta.

Não eliminará suas dores nem aliviará as marcas que as tragédias causam, mas quem sabe, arrancará um sorriso distraído e lhes ascenderá uma pequena brasa de esperança.

Clamemos pois, por alegria!

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Assim partiu o palhaço, por caminhos incertos e hostis, na busca de vencer a tragédia dos que o cercam e colher qualquer broto de sorriso nesses campos áridos que nos foram destinados.

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