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Posts Tagged ‘Máscaras’

E se hoje fizéssemos diferente. Só por diversão ou curiosidade.
Se hoje pudéssemos experimentar um outro jeito, mais honesto, sem firulas ou fingimentos, mais elegante?
Se hoje ao invés de conversar sobre o tempo, sobre se choveu ou trovejou, se nevou nos picos ou se tava um sol de rachar o côco, pudéssemos falar sobre as tempestades que habitam nosso peito, as tormentas que apavoram nossas manhãs quando acordamos e as brisas e raios de luz que iluminam nossas incertezas?
E se ao invés de fazer as mesmas perguntas e repetir os mesmos jargões toda vez que encontramos nossos vizinhos pudéssemos abraçá-los e perguntar qual é a temperatura interna de seus espíritos e quando fará primavera dentro de suas almas?
E se ao invés de falar do futebol a cada encontro pudéssemos, mesmo que uma única vez, mesmo que por pura provocação, conversar sobre o dia em que você perdeu o chão e tentou segurar seu coração dentro do peito? E se trocássemos a copa do mundo pela disputa para descobrir quem é o melhor entre nós para dizer sua verdade, para revelar nossos monstros lá do fundo e trazer à tona sem máscaras o verdadeiro rosto? Coragem para mostrar nossos corpos desnudos de uniformes, bandeiras e fanatismos.
E se ao invés de defender o partido político corrupto ou o opositor igualmente criminoso, pudéssemos fazer política com nossos gestos diários? Se pudéssemos cumprimentar o porteiro com a admiração e respeito devido a quem trabalha honestamente. E separássemos o lixo, e consumíssemos apenas o necessário, e cuidássemos do nosso jardim e dos nossos filhos como quem lança sementes? Se a política fosse tão enraizada em nosso lar que corrupção viraria finalmente algo exclusivo de uma minoria política e não mais de uma nação inteira.
E se, mesmo que por pura irreverência, deixássemos de lado nossa ânsia de conquistar o paraíso e nossa mania de justiça de enviar tantos para o inferno? Se ao invés de discutir quem trará a marca da besta ou se Cristo podia pecar ou casar, pudéssemos aquecer outro ser humano com nossos braços mortais e apontar os lírios do campo como forma de revelar os mistérios do reino de Deus? E alimentar nossos olhos com milagres que estão aí, entre o capim silvestre que cresce diariamente e a asa colorida da borboleta que carrega em si a beleza toda do universo.
E se pudéssemos, quase que por subversão, ao invés de nos intitularmos bispos, pastores ou mesmo filhos seletos de Deus, pudéssemos chamar nós mesmos de pecadores perdidos, loucamente carentes de amor? Que o centro de nossa busca fosse atingir toda a humanidade que um dia nos foi dada e que, por medo ou preguiça, deixamos em algum lugar pelo caminho. Essa humanidade divina, que cheira terra fresca e chuva de verão. Essa humanidade que traz o outro no coração e não sob o jugo de nossas vontades e crenças.
E se deixássemos de lado nossa necessidade de dizer o que comemos, que praia visitamos ou o diploma universitário conquistado e compartilhássemos nossa fome, nossos sonhos de ir além de nossas fronteiras e aquela chama que arde dentro e que nos sussurra o porque estamos aqui? Se apenas por provocação pudéssemos contar mais sobre nossas jornadas ao invés dessa mania de conquistar o rótulo de ser bem sucedido e feliz.
Talvez, se fizéssemos isso, apenas talvez, estaríamos mais leves. Mais comunitários, mais saudáveis, mais belos. Talvez praticássemos mais lágrimas e menos euforias e pílulas para dormir. Mais abraços e beijos e menos cocaína e divórcios. Então talvez pudéssemos ver a neve de mãos dadas ao invés dessa insistência em falar sobre o tempo como forma de evitar a comunhão tão pronta a se cumprir.
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