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Posts Tagged ‘Ilusões’

Não me considero um viajante profissional, desses que fazem de sua vida uma eterna despedida. Tem como profissão desbravar lugares novos e exóticos e enchem de inveja os pobres coitados que acompanham suas andanças pelas fotos publicadas em redes sociais. Não, não sou desse tipo. Mas tenho arrumado e desarrumado minha mala um número suficiente de vezes para poder dizer…que falta uma estabilidade nos faz!
Veja bem companheiros, não estou reclamando…só compartilhando o quanto carregar sua vida toda em duas malas e não saber exatamente o próxima parada pode ser desconfortável e assustador, mesmo se você é um desses europeus backpackers. Que dirá para um brasileiro nascido em família tradicional com os dois pés no chão.
Me perguntarão…’Mas então tá nessa vida por que?’ Eis aí uma ótima questão que me faço de vez em vez, mais frequentemente quando o calo aperta. E para ser bastante honesto, não sei ao certo a resposta. Deveria, mas não sei ainda. Se você tiver algum palpite é mais do que bem vindo para me enviar.
Não sei, mas tenha lá minhas suposições… uma delas é… só assim tenho condições de entender certas coisas. Admiro aqueles que aprendem, crescem, são surpreendidos e vivem uma vida cheia de aventuras dentro de sua zona de conforto particular. Sendo embalados por dias mansos e ninados no colo confortável do planejamento prévio. Eu não… sou lento e teimoso demais para aprender desse jeito. Abismos metafóricos não me dão frio na barriga e aprender outra língua na segurança de uma classe de aula nunca funcionou pra mim. Eu preciso do solavanco abrupto da vida bruta para forçar-me a crescer. Só quando sobreviver é uma questão real que me ponho a lutar com garras, suor e lágrimas. 
Pois é assim que termino mais uma viagem…inteiro, pero no mucho. Corpo dolorido e a alma leve. Cabeça a mil, cheia de novos sonhos e coração aos pulos, imaginando aquilo que vem pela frente.
Foram meses que pareceram anos, anos que pareceram décadas. Fui esticado, dobrado, picado e remontado…tudo isso na base da porrada.
Pois só na base da porrada consegui conjugar corretamente o verbo To Be. Foi na base da porrada que aprendi mais três ou quatro profissões – sem contar as variações e especializações – para garantir o aluguel da próxima semana e o pão tostado de cada dia. Foi assim que deixei de lado minhas neuras por limpeza e fiquei em paz com banheiros sujos, louça suspeita e panos de prato encardidos.
Só assim compreendi minha insignificância, incompetência e o quanto posso ser bom em uma ou duas coisas…e terrivelmente incapaz de realizar todas as demais.
A muito custo fui forçado a lidar com quatro ou cinco culturas completamente diferentes em apenas uma escala de serviço. E quando a diversidade cultural já estava me dando nos nervos, tinha que dividir a cozinha com mais três flatmates vindos das mais diversas partes desse pequeno planeta.
E finalmente compreendi algo que suspeitava, mas tava relutando para aceitar…faço falta para bem pouca gente… aquelas que cabem nos dedos da mão – de uma só. Essa porrada doeu, mas depois também me deu uma paz. Dorzinha gostosa essa de se ver livre das ilusões.
Vou caminhando agora meio manco com algumas manchas roxas pelo corpo. Mas com aquela sensação de músculos preparados para novas batalhas. Corpo menos preguiçoso para enfrentar a estrada. Alma mais leve para levar na mochila.
Sei que muitas outras porradas virão. Elas sempre vêm de um jeito ou de outro. Melhor mesmo é subir logo na arena e chamar a vida para uma luta…desigual, mas o que há de se fazer?
Pois levar porrada é coisa que ninguém quer, mas na maior parte das vezes é só assim que a gente entende que a vida pode ser brava pra caramba, mas enfrentá-la de frente não só é possível como a única forma de conquistá-la.
  

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Véspera de Natal, eu mudando novamente para outra casa, e ao tentar cumprir as soon as possible as tarefas do dia levei um tombo que me trouxe a revelação final: 2014 veio como um professor impiedoso e duro, daqueles que provoca pavor na gente, mas que nos ensina por meio de lições que ficam gravadas na carne.
Dia chuvoso, bicicleta gasta, e eu fui inventar de subir na calçada pra não molhar a bunda com a água que espirrava do asfalto. Não deu tempo nem de pular da bike, cai de lado, em cima do braço e bati a testa no chão molhado. Incrível como nesses segundos é possível pensar tanta coisa. A palavra que resumiu o volume de pensamentos que tive naquele momento de cara no chão, sem saber quais ossos ainda estavam inteiros foi: FERROU! (Claro, a palavra que melhor se encaixa aqui não é exatamente essa, mas vou usá-la devido o horário e as crianças ainda brincando na sala).
Sim, ferrou de vez.
Porque o ano veio me ferrando sem dó. E há apenas alguns dias dele terminar, levo uma rasteira que resultou em uma fratura que insisto em tratar sem imobilizar o braço e me impediu de cumprir o plano tão esperado de finalmente economizar alguma grana nas férias de verão.
Sim, ferrou geral. Já não bastou as perdas irreparáveis. Gente que partiu e deixou-me em frangalhos.
Já não bastou as lutas que não deram trégua nem ofereceram lugares de descanso.
Não, parece que não bastou. Falta sempre um desfecho, um último ato, uma cena final para transformar a metáfora em realidade. Um tombo no asfalto e um corpo estatelado no chão. Sim, ferrou de vez! Obrigado 2014!
Mas então compreendi.
Toda virada de ano enchemos nossas mentes de pensamentos positivos e nossa barriga com mais comida do que deveríamos. Toda virada de ano desejamos dias por vir que sejam mansos, felizes, que nos tragam prosperidade e paz. Que nos agrade com presentes, conquistas e realizações. Que nos mime com aquilo que a gente quer faz tempo, seja um filho, uma Ferrari ou uma casa na Praia Grande. Toda virada a gente quer a mesma coisa, ser feliz sem ter que pagar a conta. Pança cheia de sucesso e conforto.
Mas quando janeiro começa a gente tem que enfrentar a realidade de que a vida não é assim um animal domesticado que nos obedece e que a gente leva pra passear na coleira dos nossos desejos. A vida é selvagem, instável, misteriosa, cruel e assustadora. Nossas ilusões são boas para nos manter em movimento, mas há um momento que é preciso perdê-las para finalmente poder enxergar o mundo.
2014 foi arrancando de mim ilusão por ilusão. E quando não restavam muitas em minha mochila gasta, ele me passou a rasteira derradeira para me arrancar a última de todas: a de que estamos protegidos e amparados seja qual for a tempestade que enfrentamos. Eternamente intocáveis. Não, não somos.
Esse professor impiedoso normalmente é odiado e evitado. Eu decidi ouvi-lo. Porque foi essa brutalidade que me libertou para entrar em 2015 livre das ilusões que ainda me impediam de ter olhos que finalmente pudessem enxergar as duas faces da vida: sua crueldade e beleza. Entro em 2015 mancando mas consciente. Entre nesse novo ano como quem perdeu muito, mas agora está leve para seguir a jornada. Como dizia a Cora, carrego só aquilo que cabe no meu coração.
Começo mais um calendário entendendo a crueza das horas, a frieza daqueles que deveriam nos amar, o amargo fel daqueles que partem sem dizer adeus, porém não há mais lentes distorcendo o cenário que está por vir. Só meus olhos crus, ainda marejados pelas últimas perdas, mas possuindo uma lucidez que ilumina o caminho.
Entro em 2015 com muito pouco. 2014 me arrancou quase tudo. Sigo leve, sentindo o vento no rosto e finalmente compreendendo que as ilusões pesam demais e a melhor coisa a fazer é abandoná-las pela estrada.
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