Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Esperança’

Advento 1

Enquanto esperamos, esperamos assim…
Invisíveis. Quietos e cansados.
Segurando em nossas mãos rústicas uma frágil esperança…
De que essa ordem rígida que nos esmaga e despreza um dia será invertida.
De que o reino que ansiamos um dia nos pertencerá. E nos pertenceremos.
Os velhos sonharão novos sonhos.
Os últimos serão finalmente notados.
O pequeno será de todos o mais sábio.
E uma criança nos conduzirá pela mão…
Para um lugar nascido de novo,
onde não mais haverão coroas, espadas ou títulos…
…mas somente irmãos.

Advento 2

Esses muros e espinhos, se olharmos com franqueza…
Esses muros e espinhos são nossos.
Não estão fora como obstáculos a serem transpostos e esquecidos.
Nos pertencem. Nos constituem. Nos doem diariamente.
Mas vou negando suas existências com medo de expor cicatrizes.
Porém o justo viverá pela fé.
Fé de que os mesmos dramas, deficiências e incapacidades que nos afligem serão chave para nossa completa libertação.
Se com olhos valentes pudermos finalmente enxergar quem somos…lá bem fundo.
E anunciarmos nossas misérias e dores como quem convida amigos para um banquete.
Então poderemos sorrir aliviados. E celebrar!
Vulneráveis e belos como são os pássaros caídos de seus ninhos.
Fortes e calmos como envelhecem as árvores fortes.
Pois quando sou fraco, eis que então posso ser recipiente do mistério que não tem nome.

Advento 3

Aquilo que tenta nosso corpo, fugimos furiosamente ou nos entregamos. Pelos pecados da carne somos julgados e condenados. Afligidos ou realizados.
O corpo em evidência. Uma religião míope e manca.
Mas nem só de pão vive o homem a ser tentado.
Misérias maiores e silenciosas nos assolam.
Quando não enxergo o outro, somente meu rosto a se refletir em tudo que toco.
Quando sedento por atenção manipulo e ameaço.
Quando me desespero ao compreender que o destino de todos é um dia desaparecer.
Quando finalmente entrego minha alma para que, mesmo que por um momento, outros se curvem diante de mim.
Espelho e queda. Não haverá redenção aos que só amam a si mesmos.
Mas são os quebrados, esquecidos e sujos que um dia serão consolados.
Aquele que serve nas cozinhas escondidas e os que cantam hinos tristes nos porões dos séculos.
Serão esses os únicos que verão a face das coisas altíssimas.
Pois não foram cegados pela própria imagem.

Advento 4

Não mais profissões, títulos ou especializações.
Descartar a placa de doutor fixa na porta do consultório. E o cargo que me concede privilégios.
E o cartão VIP da sala de embarque.
E meu nome. Não amá-lo ou nele colocar minhas esperanças.
Mas antes a ousada caminhada de abdicar…
Das importâncias e aplausos…
Do meu rosto na capa do livro…
E do meu nome cravado na pedra.
Vamos! Esqueça-te!
E deixe-te guiar-se pelas estrelas que são infinitas.
E quem sabe uma delas te mostrará o destino.
Uma criança.
O mistério sem fim.

Advento 5

O dia comum vai exigindo atenção redobrada.
A lista do supermercado.
Roupas e lençóis a serem lavados.
Os planos a serem feitos pra semana.
Uma visita inesperada. O café com leite e torrada.
A comida do gato que insiste em destruir o sofá.
E aos poucos vamos esquecendo as luzes, as canções de outros tempos, o amigo secreto.
A euforia dos feriados cheio de amigos e cunhados se transforma em ressaca sem álcool.
A rotina nos parece até um alívio.
E de tantas fotos e comida ingerida, pouco realmente nos resta.
Pouco, muito pouco é nascido em nós.
Voltamos como chegamos.
Somos os mesmos, só um pouco mais velhos e pesados.
A luz que ilumina noites escuras… essa estrela misteriosa não nos pertence.
E os lugares esquecidos a serem descobertos repousam fora do alcance de nossos olhos cansados.
O rosto da criança.
Um bebê que traz em si o mistério sem fim,
ainda espera, perdido em algum lugar, entre casebres pardos e rotinas.

Orua bay

 

Anúncios

Read Full Post »

A Felicidade anda me rondando. Juro para você!
Ela pensa que já não percebi seus olhos gulosos pra cima de mim.
Manda mensagens, cochicha meu nome, jura-me amor eterno.
Depois desmente. Posa de indecisa e pede um tempo.
Diz que estava bêbada, que não está mais afim. Quer mesmo é me confundir.
Por vezes parece enamorada de outros, mas pelo jeito
ela está mesmo é de olho em mim.
Anda me provocando com seu corpo malhado e sorriso largo.
Sem vergonha que é faz de tudo para me seduzir.
Já lhe disse que não sou seu tipo, mas ela não se importa.
Porque seduz muitos, pensa que também serei alvo fácil.
Mas ela não me engana. Sei que nunca foi fiel a ninguém.
Prefiro mesmo outros amores. Com eles celebro a vida sem sobressaltos ou tropeços.
Me amarro na Tristeza. Não é bonita. Ninguém gosta muito dela. Pois eu não tenho uma queixa sequer. Desde minha infância somos amigos. Ao seu lado sou sereno e me enxergo como realmente sou. Nos crepúsculos e nas noites escuras é ela, conselheira fiel, que vai comigo.
Quando viajo pelas trilhas desse mundo gosto mesmo e de ter a Solidão como companhia. Quantos evitam-na a todo custo. Atravessam a rua, viram a cara. Compram programas de TV, wi-fi e pacotes turísticos. Seguem em multidões para shopping centers, praias lotadas e baladas. Agarram-se ao barulho do jeito que podem. Tudo para não encará-la. Desprezam-na desesperadamente.
Mas perdem o melhor que a Solidão gentilmente nos oferece. Descobrir o prazer de caminhar em silêncio pelas estradas desertas e nelas saber que nunca estamos sozinhos. É ela, essa companheira pra todas as horas, que me ensina a nunca desperdiçar um momento sequer de comunhão.
E tem a Alegria. Ah, a Alegria! Com essa sim eu noivaria, casaria, cozinharia e faria todas as bodas possíveis. Mas ela é demais pro meu bico. Aparece vez por vez quando eu menos espero. Estar com ela é reconhecer que temos tudo, nada mais nos falta.
Mas ela é livre e só vem quando quer. Quando se vai, deixa seu perfume para me consolar. Assim vivo sempre esperando sua próxima visita.
Tem ainda a Liberdade, mais alta que eu, me provoca calafrios só de pensar nela. Eita partidão! Tem que ser muito homem para beijá-la. Poucos tiveram coragem.
A Dúvida que me convida para cafés e conversas nas tardes frias. A Esperança que surge sempre na hora H, quando todas as alternativas se esgotaram.
Sou tão grato por todas elas. Amo-as e por elas serei sempre um fã devoto e apaixonado.
Mas o que tenho eu com essa tal Felicidade?
Que outros a persigam. Que lhe façam promessas e que trabalhem a vida toda para conquistá-la. Que gastem seus dias, suas horas e dólares para tê-la por perto.
Se ela pensa que cairei no seu papo furado, está enganada.
Que continue tentando ter minha atenção.
Se quiser podemos até ser amigos. Passearemos no parque aos domingos e assistiremos alguns filmes juntos.
Mas meu coração, nem adianta. Esse já tem dono.
E eu não sou besta de cair no seu papo furado para descobrir no fim da vida que ela nunca me amou.
Só queria mesmo é ter minha atenção.

image

Read Full Post »

image
Ou… Eu só peço a Deus um pouco de malandragem.

Tal qual em Brisbane, a semana iniciou com sol forte e calor indesejável. Tal qual em Brisbane eu novamente sentia meu corpo pesado demais para levantá-lo sozinho e forçá-lo a sair cedo da cama em busca de um emprego. Há quase um ano atrás, quando cheguei na terra dos cangurus, começava minha labuta em busca de uma oportunidade de trabalho que seria meu passaporte para permanecer na Austrália por tempo maior que apenas os dois meses já garantidos. Depois disso a previsão mais otimista anunciava: o saldo acabaria e eu não teria recursos vindos de nenhuma parte do planeta para poder pagar aluguel, comida e outras coisas básicas que dizem serem necessárias para sobrevivência. Na verdade, eu não teria dinheiro nem para pagar uma passagem de volta. E como a Austrália é um pouco longe do Brasil, o plano de voltar caminhando estava fora de cogitação.
Dois meses de corrida contra o relógio, onde eu saía pra rua quase todos os dias com uma pasta azul cheia de currículos de todos os tipos, um inglês que mal dava para dizer ‘bom dia’ e uma coragem vinda sei lá de onde. Após viver uma saga que lembra filmes épicos como ‘e o vento levou…’ uma semana antes de meu saldo se esgotar consegui um emprego de Dishwasher (lê-se lavador de pratos em sistema de semi escravidão). Na verdade eu mesmo não consegui nada, só encontrei esse restaurante pois por distração perdi meu caminho e descobri um bairro charmoso cheio de cafés e bares chamado Rosalie. Esse equívoco salvou minha vida. Fica a dica, por vezes precisamos perder nosso caminho para encontrarmos uma saída.
Iniciava-se ali minha vida de estudante internacional semi escravizado. Foram meses de muito trabalho, troca de emprego – de serviço semi-escravo para escravo advanced – e então após alguns meses consegui juntar uma reserva financeira suficiente para mudar de cidade, de país e dessa loucura de ter que achar um emprego em prazo recorde antes de virar um homeless. Dessa vez carregava alguns dólares Aussies in my pocket. Good luck, mate!!!
Foi respirando aliviado que aterrissei na cidade de Auckland, Nova Zelândia (terra média para os amigos de Frodo, Gandalf e a toda a sociedade do Anel) certo de que meus dias de fortes emoções ficaram definitivamente para trás. Aqui seria diferente, teria pelo menos três a quatro meses para curtir a cidade, estudar com mais afinco – quem sabe finalmente aprender um inglês mais decente – e procurar na maior calma do mundo um emprego, que pagasse bem e que me desse certa realização profissional. Situação confortável, eu só não estava mais por cima da carne seca porque não tem dessa carne por aqui, Unfortunately!
Foi então que recebido pela polícia neozelandesa no aeroporto quase fui impedido de entrar no país – na verdade, após uma investigação de mais de duas horas, com direito a interrogatório, mala remexida e IPAD vistoriado, pensei que ia mesmo é ser mandado de volta para nossa pátria varonil – todos os meus planos de sombra e água fresca começaram a desabar um por um e após dois dias em Auckland compreendi que minha situação aqui era mais dramática do que quando cheguei em Brisbane. O curso pretendido não me daria chance de trabalhar e o curso ideal custou-me os olhos castanhos da cara e toda minha reserva financeira. Voltei a ponto zero menos 2 na escala. Com um agravante, apesar de agora ter um inglês suficiente para dizer ‘bom dia’ e algo mais, aquela coragem de matar leões e cangurus a cada dia eu já não tinha mais. Perdi em algum aeroporto ou deixei em algum lugar que já não me lembro mais.
Me vi novamente na mesma situação. Corpo pesado para carregar pelas ruas em busca de emprego, um prazo ainda mais apertado – agora eu tinha apenas trinta dias – e a recorrente pergunta: onde foi mesmo que eu errei?
Foi então que, no meu primeiro dia de recomeçar meu calvário tomei uma decisão insana. Não viveria novamente a mesma experiência de Brisbane aqui em Auckland. Sim, eu batalharia um emprego. Sim, eu entraria com a maior cara de pau e procuraria cada gerente de cada estabelecimento que eu passasse. Sim, eu suplicaria para cada conhecido ao meu redor implorando por um contato que me ajudasse. Faria tudo isso, só que diferente.
Same, same, but different.
Pois sempre vi as experiências que vivemos como lições a serem aprendidas e superadas. Me recuso a repetir de ano! Se é pra ter a mesma lição, que pelo menos seja em um nível superior. Que eu traga algo aprendido das experiências passadas! Já não tenho idade para andar em círculos e não chegar em lugar algum.
Decidi! Dessa vez será diferente! A mesma pasta azul cheia de currículos, o mesmo sol – acreditem, Auckland resolveu fazer piada e recriar o calor insuportável de Brisbane – e a mesma coragem, só que agora bem gasta e cheia de arranhões. Só que na mochila uma garrafa térmica com suco, creme para as mãos ressecadas e a câmera fotográfica para registrar os lugares belos que estou passando. Ao entrar nos estabelecimentos me recuso a gaguejar e manter o estado constante de taquicardia. Entro como quem faz um favor para os donos daquele lugar, afinal não é todo dia que eles terão o privilégio de ter um candidato como eu oferecendo uma excelente oportunidade de contratação, certo? Tô acreditando piamente nisso agora. E quem me prova o contrário?
Dos 10 a 15 currículos entregues por dia em Brisbane, estou entregando de 3 a no máximo 5 currículos em lugares previamente e meticulosamente selecionados e com bom percentual de sucesso. Adeus aos takeaways indianos, chineses e thailandeses, vocês não vão me humilhar mais!
E nos fins de semana, pode esquecer. Só saio da cama se for pra andar de bicicleta ao longo de belas praias e mirantes. Me recuso a sequer enviar emails pela internet.
Se estou com sede, entro no supermercado e compro o suco que considero mais gostoso, não importa se o saldo da conta está terminando. Se estou cansado, volto pra casa e faço uma bela de uma siesta. Consciência pesada? Fica pra depois de curtir o cochilo.
Me chamarão de louco ou inconseqüente. Penso que não… Descobri que para nossa saúde física e principalmente mental é bom de vez em quando pedir a Deus um pouco de malandragem, como diz a sábia canção. Continuo no sufoco, mas recuperei aquela ginga brasileira que faz os gringos pirarem!
Pois cristão que sou, sempre ouvi desde criança que em vão é trabalhar duro para se sustentar, pois Deus dá aos seus enquanto dormem. Está lá nas sagradas escrituras e eu que não sou besta de duvidar.
Certo que não ficarei dormindo, tomado pela preguiça ou vencido pelo medo de encarar a luta. Estou fazendo minha parte e continuo um hard worker. Mas compreendi finalmente que o meu esforço e gana por controle não me darão um resultado positivo como em uma equação matemática. O único resultado certo que conseguirei por forçar-me excessivamente a controlar meu destino é: úlceras, enxaquecas e todas as tão famosas síndromes de pânico e depressão tão conhecidas hoje em dia.
Eu hein? Vou mesmo é aproveitar o dia e confiar que se nada der certo, pelo menos não saí dessa com cabelos brancos a mais do que deveria.
Sigo passeando pela vida e curtindo a brisa. Confiante de que, quase por distração, esbarrarei no sustento que preciso para continuar minha saga. Encontrarei as pessoas que careço para viver uma vida de comunhão e sempre receberei as oportunidades certas como dádivas para fazer valer cada segundo que ainda estou por aqui.
Em Brisbane eu compreendi, após uma longa a amarga trajetória, que não tenho condições de cuidar de mim mesmo. Aqui em Auckland não pretendo cometer o mesmo erro. Caminho confiante de que as respostas virão. E se não virão, essa por si só é a resposta. Sigo feliz por nada, sabendo que ao menos aproveitarei o passeio e não voltarei para casa carrancudo, carregando frustrações em minha bagagem.

PS. Escrevi, revisei e refiz esse texto enquanto ainda não tinha conseguido um emprego sequer. Publico esse texto e ainda o emprego não chegou e o saldo segue diminuindo em velocidade surpreendente. Disto tiro a relevância em decidir caminhar naquilo que acredito e não no que vejo. Com a corda no pescoço é difícil, mas acreditem… Vale a pena!!!

Read Full Post »

No festivo domingo de eleições para prefeito e vereador de todo nosso país varonil, foi uma tristeza ver as ruas cobertas de lixo duplo…papeis no chão e fotos de tanto candidato sem vergonha que por motivos escusos se enfiam na política brasileira. Lixo!

Como se já não fosse suficiente, encontramos pelo caminho uma Kombi lotada de camaradas que deveriam distribuir os panfletos dos candidatos – uma iniciativa já desesperada e baixa de conseguir voto de forma apelativa – mas dos males o menor, caso os indivíduos estivessem cumprindo o combinado. Mas não, eles estavam jogando bolos de papel pra cima numa declarada atitude de vandalismo. Fui pego por aqueles momentos que nossa indignação abafa o bom senso e abordei os seres humanos daquele veiculo com a seguinte pergunta:

_ Por que vocês estão fazendo isso? Não era para vocês distribuírem isso pras pessoas?

Ao que respondeu um dos integrantes da trupe:

_ Tô nem aí! A gente já ganhou o dinheiro e agora tamo jogando na tudo na rua.

Como a indignação só aumentou e o bom senso cada vez menor, eu insisti:

_ E vocês nem ao menos se importam de sujar a rua desse jeito?

Ao que respondeu, cada vez mais ameaçador, o indivíduo representante dos demais suspeitos:

_ Tô nem aí! Eu não moro aqui mesmo!

Então fechei o vidro do carro…e respirei fundo. Como estávamos parados no semáforo, tínhamos essa excelente oportunidade de ver os rapazes daquela Kombi jogar mais lixo na rua. O bom senso já tinha se esvaído totalmente e então resolvemos anotar o nome do vereador…quem sabe ele, que usa o jargão eleitoral ‘candidato pela educação’ poderia rever as pessoas que contrata para fazer boca de urna. Mas isso ofendeu terrivelmente a ética dos indivíduos ao lado, e o interlocutor deles resolveu pular do veiculo e nos ameaçar, pedindo que eu saísse do carro para ter o merecido castigo pelos meus atos infames. O bom senso voltou imediatamente, pois posso até ser atrevido, mas não sou bobo. O semáforo piscou verde e isso salvou nossas vidas.

Fomos votar felizes, atravessando o mar de papel e lama que se encontrava na frente do colégio eleitoral. Isso tudo para destacar a frase tão utilizada pelo indivíduo da Kombi: tô nem aí!!!

Eu cheguei em frente a urna e inspirei essa amarga decepção e falta de esperança em que vivem tantos brasileiros. Veio a minha mente toda corrupção, mentiras, crimes e descaso que os políticos descaradamente cometem e continuam cometendo…sempre afirmando que não sabiam de nada. Veio a mente também o triste fato de que os brasileiros em geral não se mostram tão diferentes de seus líderes.

Pensei na educação do país que está um caos e ninguém coloca ordem nisso. E aí concluo que nossa pobreza não é financeira. A pobreza que experimentamos é resultado do nosso caráter duvidoso e nossos valores miseráveis, isso quando possuímos algum.

Por um instante, enquanto piscavam os quadradinhos da urna, eu pensei: não resta muita esperança. Acho que vou concordar com o meliante da Kombi…tô nem aí também!

Mas então lembrei da caminhada de alguns solitários que me ensinaram que pode ser impossível mudar, mas isso não quer dizer que não valha a pena lutar. E declarei mentalmente um grito de independência interna: Tô nem aí!
Mas um ‘tô nem aí’ inverso, do mesmo jeito que invertemos as ordens caóticas institucionalizadas e nos rebelamos em busca de algo melhor…

Então declaro hoje e como bandeira a ser carregada pelo resto dos meus dias: to nem aí se roubam e enganam, eu serei sincero e usarei da verdade sempre que puder. To nem aí se sujam as ruas e destroem monumentos e praças, eu plantarei as árvores que puder. To nem aí se é impossível educar essas crianças revoltadas e famintas, eu serei sempre um educador e cumprirei essa sina até o fim dos meus dias. To nem aí se o que vale pra todos é o quanto você ganha e o carro que você tem, seguirei com uma vida simples e viverei com apenas aquilo que necessito.

Por isso declaro hoje, amanhã e depois: to nem aí se o Brasil vai de mal a pior, eu pertenço e esse país e darei minha contribuição mesmo que por vezes, possa ser humilhado e agredido.

Resistir será como deixarei claro meu lema para o quadro desolador que foi pintado por todos esses homens maus e por séculos de corrupção e miséria: eu não estou nem aí!

Read Full Post »

Imagem

?

Ela ansiava pelos rotineiros ensaios do coro, mas foi lançada a uma reclusão abrupta. Seu rosto segue deformando-se pelo câncer que corrói tudo. Perdida pra sempre foram suas feições, seu sorriso e sua possibilidade de maquiar-se para as festas que amava freqüentar. Está condenada a vestir uma máscara grotesca, que perturba os que não conseguem disfarçar o peso da morte a se cumprir. Como artista de uma tragédia, segue arrastando-se até o último ato antes do cair do pano.

??

Ele se foi abruptamente. Suas mãozinhas tinham os dedos cruzados segurando uma coleção encardida de bichinhos de pelúcia, enquanto seu corpinho frágil permanecia estático entre flores indiferentes daquele pequeno caixão branco. Quantos lanches e sorrisos esses brinquedos presenciaram ao serem apertados pelas mãos desse garoto que só não era tão comum, porque dividia com sua irmã gêmea a simultaneidade da infância. Agora lhe restavam apenas seus dedinhos cruzados e seu rosto inchado que já não podia sentir o olhar perplexo de sua mãe nem a dor insuportável que ela carrega.

???

Ela tinha as madrugadas como uma companheira antiga. No escuro a angústia desabava sobre seu peito, como fardo de uma herança maldita de gerações passadas. Exausta de arrastar seus queridos para o poço inevitável do qual não conseguia se desvencilhar, dessa vez temia não resistir. Percebia como quem recebe uma condenação irrevogável que não suportaria mais o peso de sua existência. Levantou-se da cama que dividia com seu companheiro gasto pela vida, caminhou no escuro pela sala como tantas vezes fez em silenciosa angústia, mas dessa vez preferiu seguir além e livrar-se do beco sem saída que a encarcerava. Voou pela janela da varanda até seu corpo triste romper-se no chão do condomínio classe média no qual raras vezes vivera momentos felizes.

????

Essas histórias desabavam sobre ele como se a vida fosse um prédio antigo sempre a ponto desmoronar e do qual ninguém está livre. Abatia-se sobre o seu peito tamanho desespero, que imaginou que a única resposta que temos é lamentar e se proteger, cada qual a sua maneira. Vítimas que caminham no escuro. Assim andou tanto tempo sozinho o garoto estranho de braços cumpridos, que desaprendeu a diferença entre solidão e abandono. Sua face guarda a lembrança de tantas lágrimas mornas que agora estão secas.
Mas algo moveu-se estranhamente em si. De tristeza em tristeza foi contraindo essa paz sem nome e como por feitiço ou milagre abriu-se diante de seus olhos amargurados um novo cenário que o fez sorrir quase que por distração…
Percebeu-se com uma terrível possibilidade em suas mãos desajeitadas: é possível lutar! Desde então esse espectador anônimo fez pra si um tributo-antídoto e um manifesto guia para declamá-lo aos cantos escuros de sua cidade, entre conterrâneos que dividem o mesmo pão amargo das fatalidades. Bradou como se tivesse só essa vida para anunciar sua peleja e arrebanhar os que sofrem. Foram essas as suas palavras…

!!!

Eis que se faz necessário um novo grito, a plenos pulmões e com o som furioso de uma resistência eminente…clamemos por alegria! Não uma euforia desmedida nem um otimismo destacado e irritante. Mas uma luta incessante por aquela alegria de quem sabe que não há assunto urgente ou importante neste universo que justifique um rosto emburrado.

Que haja risos das crianças por todos os lados, em praças e funerais, em igrejas solenes e campos de batalha. Que suas vozes ecoem pelos cantos miseráveis desse planeta hostil e cubram os andarilhos de esperança.

Declaro em vigor a lei que impede assuntos sérios e cerimônias vazias. Só não resistamos à tristeza, essa que é a outra face da própria alegria e se faz necessária quando o corpo padece e a alma é golpeada pela vida.

Aos que sofrem em seu peito a dor das doenças e das perdas, resta-lhe portanto uma alternativa: resistir bravamente com doses de alegria. Ouço seus gritos e lamento suas angústias e a estes responderei dando-lhes qualquer fagulha de bom humor como tributo aos seus dias tristes.  Não faço por desrespeito ou insensibilidade, pelo contrário, o que tão somente posso oferecer é esse compromisso de agarrar-me a alegria e dividi-la com o outro como fazem os mendigos com as migalhas que encontram pelo chão.

Clamemos por alegria!

Por isso desistam de esperar de mim um executivo respeitável, um doutor formal ou um mestre distinto…apresento-lhes o que serei, um palhaço errante que combate as mazelas do mundo plantando nos corações amargurados sementes de risos a se cumprir.

Para aliviar os que adoecem, um afago desajeitado e uma história esquisita.

Para suavizar e perda irreparável de uma criança, um verso e um sorriso de quem partilha uma carga pesada demais…

Para os que desistiram, antes que se partam…dedicarei uma dança estranha, um abraço apertado e uma careta.

Não eliminará suas dores nem aliviará as marcas que as tragédias causam, mas quem sabe, arrancará um sorriso distraído e lhes ascenderá uma pequena brasa de esperança.

Clamemos pois, por alegria!

!!!

Assim partiu o palhaço, por caminhos incertos e hostis, na busca de vencer a tragédia dos que o cercam e colher qualquer broto de sorriso nesses campos áridos que nos foram destinados.

Read Full Post »