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Posts Tagged ‘Destino’

Não me considero um viajante profissional, desses que fazem de sua vida uma eterna despedida. Tem como profissão desbravar lugares novos e exóticos e enchem de inveja os pobres coitados que acompanham suas andanças pelas fotos publicadas em redes sociais. Não, não sou desse tipo. Mas tenho arrumado e desarrumado minha mala um número suficiente de vezes para poder dizer…que falta uma estabilidade nos faz!
Veja bem companheiros, não estou reclamando…só compartilhando o quanto carregar sua vida toda em duas malas e não saber exatamente o próxima parada pode ser desconfortável e assustador, mesmo se você é um desses europeus backpackers. Que dirá para um brasileiro nascido em família tradicional com os dois pés no chão.
Me perguntarão…’Mas então tá nessa vida por que?’ Eis aí uma ótima questão que me faço de vez em vez, mais frequentemente quando o calo aperta. E para ser bastante honesto, não sei ao certo a resposta. Deveria, mas não sei ainda. Se você tiver algum palpite é mais do que bem vindo para me enviar.
Não sei, mas tenha lá minhas suposições… uma delas é… só assim tenho condições de entender certas coisas. Admiro aqueles que aprendem, crescem, são surpreendidos e vivem uma vida cheia de aventuras dentro de sua zona de conforto particular. Sendo embalados por dias mansos e ninados no colo confortável do planejamento prévio. Eu não… sou lento e teimoso demais para aprender desse jeito. Abismos metafóricos não me dão frio na barriga e aprender outra língua na segurança de uma classe de aula nunca funcionou pra mim. Eu preciso do solavanco abrupto da vida bruta para forçar-me a crescer. Só quando sobreviver é uma questão real que me ponho a lutar com garras, suor e lágrimas. 
Pois é assim que termino mais uma viagem…inteiro, pero no mucho. Corpo dolorido e a alma leve. Cabeça a mil, cheia de novos sonhos e coração aos pulos, imaginando aquilo que vem pela frente.
Foram meses que pareceram anos, anos que pareceram décadas. Fui esticado, dobrado, picado e remontado…tudo isso na base da porrada.
Pois só na base da porrada consegui conjugar corretamente o verbo To Be. Foi na base da porrada que aprendi mais três ou quatro profissões – sem contar as variações e especializações – para garantir o aluguel da próxima semana e o pão tostado de cada dia. Foi assim que deixei de lado minhas neuras por limpeza e fiquei em paz com banheiros sujos, louça suspeita e panos de prato encardidos.
Só assim compreendi minha insignificância, incompetência e o quanto posso ser bom em uma ou duas coisas…e terrivelmente incapaz de realizar todas as demais.
A muito custo fui forçado a lidar com quatro ou cinco culturas completamente diferentes em apenas uma escala de serviço. E quando a diversidade cultural já estava me dando nos nervos, tinha que dividir a cozinha com mais três flatmates vindos das mais diversas partes desse pequeno planeta.
E finalmente compreendi algo que suspeitava, mas tava relutando para aceitar…faço falta para bem pouca gente… aquelas que cabem nos dedos da mão – de uma só. Essa porrada doeu, mas depois também me deu uma paz. Dorzinha gostosa essa de se ver livre das ilusões.
Vou caminhando agora meio manco com algumas manchas roxas pelo corpo. Mas com aquela sensação de músculos preparados para novas batalhas. Corpo menos preguiçoso para enfrentar a estrada. Alma mais leve para levar na mochila.
Sei que muitas outras porradas virão. Elas sempre vêm de um jeito ou de outro. Melhor mesmo é subir logo na arena e chamar a vida para uma luta…desigual, mas o que há de se fazer?
Pois levar porrada é coisa que ninguém quer, mas na maior parte das vezes é só assim que a gente entende que a vida pode ser brava pra caramba, mas enfrentá-la de frente não só é possível como a única forma de conquistá-la.
  

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Véspera de Natal, eu mudando novamente para outra casa, e ao tentar cumprir as soon as possible as tarefas do dia levei um tombo que me trouxe a revelação final: 2014 veio como um professor impiedoso e duro, daqueles que provoca pavor na gente, mas que nos ensina por meio de lições que ficam gravadas na carne.
Dia chuvoso, bicicleta gasta, e eu fui inventar de subir na calçada pra não molhar a bunda com a água que espirrava do asfalto. Não deu tempo nem de pular da bike, cai de lado, em cima do braço e bati a testa no chão molhado. Incrível como nesses segundos é possível pensar tanta coisa. A palavra que resumiu o volume de pensamentos que tive naquele momento de cara no chão, sem saber quais ossos ainda estavam inteiros foi: FERROU! (Claro, a palavra que melhor se encaixa aqui não é exatamente essa, mas vou usá-la devido o horário e as crianças ainda brincando na sala).
Sim, ferrou de vez.
Porque o ano veio me ferrando sem dó. E há apenas alguns dias dele terminar, levo uma rasteira que resultou em uma fratura que insisto em tratar sem imobilizar o braço e me impediu de cumprir o plano tão esperado de finalmente economizar alguma grana nas férias de verão.
Sim, ferrou geral. Já não bastou as perdas irreparáveis. Gente que partiu e deixou-me em frangalhos.
Já não bastou as lutas que não deram trégua nem ofereceram lugares de descanso.
Não, parece que não bastou. Falta sempre um desfecho, um último ato, uma cena final para transformar a metáfora em realidade. Um tombo no asfalto e um corpo estatelado no chão. Sim, ferrou de vez! Obrigado 2014!
Mas então compreendi.
Toda virada de ano enchemos nossas mentes de pensamentos positivos e nossa barriga com mais comida do que deveríamos. Toda virada de ano desejamos dias por vir que sejam mansos, felizes, que nos tragam prosperidade e paz. Que nos agrade com presentes, conquistas e realizações. Que nos mime com aquilo que a gente quer faz tempo, seja um filho, uma Ferrari ou uma casa na Praia Grande. Toda virada a gente quer a mesma coisa, ser feliz sem ter que pagar a conta. Pança cheia de sucesso e conforto.
Mas quando janeiro começa a gente tem que enfrentar a realidade de que a vida não é assim um animal domesticado que nos obedece e que a gente leva pra passear na coleira dos nossos desejos. A vida é selvagem, instável, misteriosa, cruel e assustadora. Nossas ilusões são boas para nos manter em movimento, mas há um momento que é preciso perdê-las para finalmente poder enxergar o mundo.
2014 foi arrancando de mim ilusão por ilusão. E quando não restavam muitas em minha mochila gasta, ele me passou a rasteira derradeira para me arrancar a última de todas: a de que estamos protegidos e amparados seja qual for a tempestade que enfrentamos. Eternamente intocáveis. Não, não somos.
Esse professor impiedoso normalmente é odiado e evitado. Eu decidi ouvi-lo. Porque foi essa brutalidade que me libertou para entrar em 2015 livre das ilusões que ainda me impediam de ter olhos que finalmente pudessem enxergar as duas faces da vida: sua crueldade e beleza. Entro em 2015 mancando mas consciente. Entre nesse novo ano como quem perdeu muito, mas agora está leve para seguir a jornada. Como dizia a Cora, carrego só aquilo que cabe no meu coração.
Começo mais um calendário entendendo a crueza das horas, a frieza daqueles que deveriam nos amar, o amargo fel daqueles que partem sem dizer adeus, porém não há mais lentes distorcendo o cenário que está por vir. Só meus olhos crus, ainda marejados pelas últimas perdas, mas possuindo uma lucidez que ilumina o caminho.
Entro em 2015 com muito pouco. 2014 me arrancou quase tudo. Sigo leve, sentindo o vento no rosto e finalmente compreendendo que as ilusões pesam demais e a melhor coisa a fazer é abandoná-las pela estrada.
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Foi num lampejo que perdi o status que me elevava a ser humano especial e único.
Acenderam a luz por mim. Virei comum, fiquei normal.
Quando eu era especial tinham pessoas ao meu redor o tempo todo, me pedindo, exigindo coisas, me bajulando, esperando um pouco de atenção. E eu decidia, especial que era, quem atenderia e quem rejeitaria.
Quando eu era especial urgia salvar o mundo com a força de minhas idéias e o labor das minhas mãos. Sabia que não faria o serviço sozinho, me juntaria a outros, igualmente seletos e especiais como eu, para cumprir a missão.
Vidas seriam tocadas e transformadas pela minha bondade. Pessoas ficariam inspiradas pelo meu exemplo. Afinal ser especial tem lá suas responsabilidades.
Quando eu era especial não havia um trabalho, de administrador a artista, professor a bancário, que eu não realizava com maestria e por causa deles recebia sempre elogios e louvores. Claro, eu era especial e jamais me daria o luxo de ser medíocre.
Quando eu era especial tinha afeto e admiração até da minha família. E se minha família, que me conhece profundamente, sente admiração por mim, é porque eu realmente era especial.
Foi crescendo dentro de mim a certeza de que ser especial dispensa glacês e perfumarias. Vive só de essências os seres especiais. Pois foi então que decidi, especial que era, a seguir caminhos de sacrifício, simplicidade e beleza.
Não trabalharia para alimentar a roda da injustiça. Não dispensaria um minuto sequer da minha vida especial para ajudar empresas a ter seu lucro exagerado.
Era especial, com uma missão. Nasci para cumprir um propósito único e grandioso.
Deixei profissão e futuro promissor. Fui me embrenhando na trilha dos que são especiais e valentes, que enfrentam o sistema e cumprem seu destino de gente especial.
Troquei duas, três, sete vezes de serviço. Nenhum era tão especial para que neles eu me detivesse. A insatisfação segue a rondar o peito dos inquietos que não descansam… São especiais, não tem tempo para preguiças, medos ou comodismos.
E de tão especial que era, não suportava mais os limites culturais do meu país, dos que me cercavam. Difícil conviver com quem não é especial. Precisava viajar. Expandir fronteiras. Mudar de ares, encontrar gente diferente, sei lá, digamos mais…especiais.
Mudei de país, convivi com outra cultura, aprendi outra língua, encontrei amigos de todo o mundo. Sim, isso combinava mais com meu estilo um tanto especial.
Tinha certeza, especial que eu era em minha terra, seria especial em qualquer lugar do planeta. Bem sucedido em questão de minutos.
Mudei de país novamente, já que alguém especial como eu não sabe bem o que significa limites, barreiras ou estabilidades.
E de tanto ser especial, descobri como num lampejo de gênio, privilégio apenas daqueles que são especiais… Eu nunca fui especial. E tudo indica que nunca serei.
Só alguém comum e sem muita inteligência como eu acredita mesmo ser especial.
Gente comum como eu sonha em dia ser muito especial. Ou pensa que já nasceu assim.
Encabeça projetos malucos, desafia os padrões, tem visões grandiosas, inspira os desenformados. Tudo em nome de um chamado tolo e fútil: ser especial.
Gente que por possuir apenas dois olhos, acaba míope ou cego de vez. Enxerga o mundo pequeno demais e nele até mesmo eu posso ser especial.
Gente que acredita de pé junto que é protagonista principal de uma história épica.
Ator principal de um longa metragem que dá origem a maior série de sucesso de todos os tempos. Onde ali você é especial e o mundo acontece ao redor de seu umbigo.
Gente que vive na certeza de que seu destino foi escrito nas estrelas e por mais que sofra e precise batalhar pela vida, tudo isso são apenas capítulos da saga, que se encaminham para o grand finale… Que será demais de especial.
Gente que acredita que escrever e declarar-se comum também é uma forma de se achar especial. Enganando-se a si mesmo ao assumir-se comum na esperança de ao fazer isso, seja por assim dizer, um pouquinho especial.
Gente que corre muito para realizar grandes feitos, resignificar seu universo interior, fazer terapia para se encontrar, tudo isso por medo de aceitar de uma vez por todas: não, eu não sou especial.
Você também não é, nem o Brad Pitt ou Madonna são.
Se ainda existe nesse mundo algo especial, isso não vem de mim nem de você. Vem daquilo que acontece entre nós quando resolvemos deixar de lado nossas vidas mega especiais e olhar para o outro. E finalmente enxergarmos.
Porque especial mesmo é só aquilo que pode nascer no intervalo que existe entre eu e você.
Algo que criaremos juntos ao nos conectarmos de verdade, livres da tolice de sermos especiais.
Só então existirá condições de surgir algo que seja verdadeiramente especial.
O resto sou eu e você gastando tempo tentando ser especial.

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Ando buscando fazer as pazes com a mediocridade. Sigo respirando o cotidiano e vou comprando banalidades nos shoppings da city. Até mesmo meus textos estão cada vez mais lisos e auto-explicáveis. O último vinha em 10 tópicos, introdução do assunto e conclusão – ajuda muito o leitor acostumado com pensamentos de Clarice Lispector suprimidos em telas de powerpoint. Este tem um título que já diz tudo – se você quiser, pare de lê-lo aqui, nem perca seu tempo pois já entreguei de bandeja.
Tento compreender a razão desse retorno, ou talvez dessa trégua, com minha mediocridade particular. Poderia tentar explicar que, na luta por aprender outro idioma, acabo por não fazer isso e ainda desaprendo o meu próprio. Sem a palavra rara dominada, restam-me apenas aquelas que são fáceis, prostitutas da linguagem que se entregam a qualquer frase leviana. Outra explicação possível: aceitando trabalhos práticos e penosos, que exigem apenas dos meus músculos – quais mesmos? – e quase nada da minha sensibilidade ou pensamento, estou limpo dos efeitos alucinógenos da subjetividade e abraço finalmente uma vida concreta. Mereço um tardio parabéns queridos professores e chefes?
Eis o resultado matemático: estou em paz com a guerrilha sangrenta que não me deixava ser um medíocre feliz e realizado. Pois nunca acreditei que existam seres humanos geniais salvos de qualquer ataque de mediocridade, o que existem são aqueles que não se conformam e passam a vida lutando contra o senso comum. Dessa batalha incessante surgem alguns raros resquícios de genialidade. O resto é vaidade e correr atrás do vento, como já dizia o sábio Salomão, que passou sua vida em busca de algo mais relevante e profundo do que as coisas que o cercavam – e olha que eram muitas e da mais fina qualidade.
Pois sei lá porque me entrego de corpo e alma à mediocridade. Nem gastarei energia em busca de explicação – ninguém nunca me exigiu isso, pelo contrário – sigo confiante na minha decisão pois sei que não estou sozinho nela. Terei muitos companheiros medianos para me apoiar e me aceitar em seus clubes – encontros todo sábado com muita cerveja, risada e conversa mole – como dizia meu pai.
Já pregava o profeta Raul…’Eu não sou besta pra tirar onda de herói, sou vacinado eu sou cowboy, cowboy fora da lei.’ Música com arranjo quase infantil mas com uma verdade profunda, quem sai da trilha movimentada e segue solitário a jornada em busca da sua verdade íntima, acaba por virar herói, persegue seu destino trágico – quer saber um pouco mais sobre isso, pesquise no google sobre os heróis das tragédias gregas pra depois não dizer que ninguém te avisou! Eis o fim da linha já previamente anunciado há mais de dois mil anos atrás. Vai encarar?
Eu não, prefiro um salário mensal com benefícios, crises da classe média sempre envolta em contas e restituição de imposto de renda e futebol toda quarta na TV Globo com narração do Galvão Bueno.
Pois por qual motivo deveria eu lutar tanto para descobrir por que foi me dada uma singularidade que me lança diante de alguma vocação, e depois de compreendê-la, lutar novamente para fazer dessa vocação algo que contribua com os que me cercam? Qual é mesmo o prêmio que recebo por sacrificar meu tempo e viver uma constante instabilidade ao descobrir que aquilo que devo fazer não se encaixa no padrão do mercado de trabalho?
Que vantagem levo eu em seguir os sonhos que me lançam em caminhos obscuros e incertos, se posso comprar um sonho pronto para beber e com manual de uso em qualquer supermercado de bairro?
Onde mesmo encontro razão no balaio das minhas razões para acreditar naquilo que não se pode ver nem se pode tocar? Porque deveria eu caminhar por fé e não apenas naquilo que recebo como garantia de fábrica?
São tantas as vidas que me ensinam sobre os perigos de tentar subverter a ordem natural das coisas em busca dessa voz perigosa que nos chama no silêncio de nossas noites mal dormidas. Tantos foram os Vincents, Virginias e Fernandos. Os Martins, Dietrichs e Teresas que me bastam os exemplos para me alertar a não correr o risco de seguir seus passos. O destino sádico tem prazer em exibir os cadáveres desses mártires em praças públicas para servir de lição aos que quiserem tentar algo semelhante.
Os pobres sempre tereis convosco, anunciava Jesus. Pois amplio o comentário para além. As injustiças, as falcatruas, a opressão do mais forte, a corrupção, a indiferença, a maldade, o egoísmo, o desespero, os famintos, o conformismo e o abandono. Tudo isso sempre tereis convosco. Porque logo eu deveria encarar esses gigantes as custas de abandonar a segurança do meu sofá? – me perdoem citar tanto o sofá em meus últimos textos, preciso fazer terapia para entender porque ele tem aparecido com frequência. Talvez pelo fato de que atualmente não possuo nenhum.
Pois vou mesmo seguir medíocre e feliz. Deixe que o mundo acabe em pizza. Mantenho um único desejo ardendo no peito: que o fim de semana chegue logo! Trabalhar o suficiente para garantir meu salário, me divertir o suficiente para relaxar e viver apenas o suficiente. E basta! Tomo pra mim o crachá de ‘Cowboy fora de lei’ e assim posso respirar aliviado por não correr o risco de no fim da trilha morrer dependurado numa Cruz.

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Foi-lhe revelado no dia de seu nascimento, vai ser destino teu perseguir o monstro alado, desconhecido e misterioso, que pequenos homens marginais o apelidaram de Abaçaiadô.

Cresceu evitando e diluindo esse destino na ânsia de manter-se reconciliado com o trivial e os dias comuns. Mas dado o fim do sentido e na ausência de ter o direito a um nome próprio, encontrou-se com a lucidez e a insana convicção que nos é ofertada nas noites estranhas e solitárias. Sentiu arder em seu peito o desejo de partir rumo aos lugares que lhe ensinaram temer e jamais trilhá-los.

Iniciava a jornada em busca de encontrar, desvendar e aniquilar a estranha ave Abaçaiadô.

Caminhava a passos firmes, exilado das vozes que sempre o ampararam, mas plenamente sustentado por todas as coisas. Havia a beleza comum naquelas estradas desconhecidas e seus olhos famintos devoravam cada elemento numa ânsia violenta, como se disso dependesse sua vida.

Passada algumas poucas eras já estava exausto e, no entanto, sabia que apesar de todo infortúnio experimentado e solidão, as pedras que pisavam seus pés lhes pertenciam como se pertencem os amantes eternamente destinados. Estava na trilha certa e esta convicção lhe bastava.

Resistir e perseverar era sua sina e única maneira de cumprir seus dias. Foi quando intuiu chegar na toca do estranho monstro e sua taquicardia revelava que o confronto final se faria naquela arena misteriosa.

Porém o que lhe surgiu foi um pequeno dragão de cores terrosas com detalhes alaranjados e agudos.

‘Quem és tu, que carrega a insensatez dessa busca?’

‘Não sei quem sou, mas sei que meu destino é lutar e vencer a terrível ave Abaçaiadô’.

Os olhos do dragão eram como chamas, mas sua voz era de certo modo confortante. ‘A dádiva de nascer humano é poder escolher seu trágico destino ou abdicar dele. Eis que venho para oferecer-te uma luta mais modesta e que trará tudo aquilo que deseja’.

O homem, exausto e inseguro, mostrou-se hesitante com o apelo do dragão. Mas ainda assim arriscou argumentar. ‘Há em mim uma chama que incendeia minha alma e me conduz para essa estrada que me arrasto a custo de suor e sangue. Como poderia eu renunciar e este chamamento misterioso?’

O estranho e familiar dragão lhe respondeu em tom de velada amizade. ‘Toda chama que deixamos arder acaba por consumir seu portador. Mas há uma possibilidade avessa e boa, esquecer os terríveis seres alados e negociar com os dragões que, se forem devidamente convencidos e satisfeitos oferecem mantimentos, posses e direito a um nome que você mesmo pode escolher como sinal de honra e realização’.

‘Mas minha jornada não terminou ainda’ – relutante mostrava sua confusão e um certo desapontamento.

‘Sua jornada é aquilo que você escolhe. O mistério é grande e sem contornos, e todos que por lá caminham, ou retornam loucos ou desaparecem’.

Pareceu-lhe bom este desvio de rota. Como estava cansado, saudoso de todos os bens e recompensas que tão penosamente deixara para trás, lentamente cedeu simpático a este novo confronto, mais seguro e previsível.

Assim envelheceu o homenzinho na toca dos amistosos dragões rastejantes, sem jamais encontrar a ave misteriosa e sem nunca descobrir seu próprio nome.

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Pródigo Exilado

Por Sérgio Dantas

I

No princípio, lançaram-me verbos…

Não pude aceitá-los nem recusá-los

Rumei sobre eles como Maria Máquina em trilhos fumegantes

levado a desfechos inóspitos e raras estações de refrigério

Forjado a ferro e fogo nessas eiras sem fim

resvalei em capim santo e aço encrespado.

Fez-se porém rumos de aparente liberdade

São as escolhas, ações e conduta que,

como certa a matemática, ditarão o destino desta viagem.

Mas como manter a sanidade diante da terrível percepção

de que não existem escolhas?

…eternamente conduzidos sobre os mesmos trilhos

Vastas paisagens pardas e ensolaradas, que se repetem

para o destino que não ouso citar nomes e pronúncias.

Haverá na bondade de Deus cercas, arames e veredictos antecipados?

Ou segue-se o destino impiedoso e cego?

E por mais que se declare corajoso que mover-se é a única possibilidade

resignando-nos ao paralelismo exato dos trilhos

Sigo deslocando-me (inutilmente?) de frangalhos em esperanças

na improvável busca de encontrar desvios e atalhos.

II

Somos todos seres exilados. Distantes de nós mesmos e dos que tão ilusoriamente nos cercam, nos abraçam. Exilados até de nossas possíveis escolhas e liberdades.

Não nos foi dado o direito de explorar o oceano, países e continentes quando lançados em uma ilha, sem barco nem remos que nos movam além.

Caminhamos vislumbrando o horizonte, seus rumos e possibilidades, mas nossos passos nos conduzem sempre para o mesmo lugar, a morada de onde partimos.

Os errantes, com seus pés descalços e calejados traçam em suas andanças um desenho confuso que, no fim dos dias, compõem o mapa de suas raízes. Os rebeldes são esmagados pelas paredes de labirintos que só oferecem uma única saída.

Terrível é, para os que percebem a escuridão que habita o peito, decidir mudar seus rumos. Tão mais terrível é saber que o cenário belo deste retorno, no horizonte utópico e frágil de nossas crenças, amarra-nos a uma única trilha.

Por vezes, convictos de nossa liberdade, seguimos na direção contrária. Outras vezes retornamos, contra desejos e inquietações. Mas sempre na mesma estrada, de pedras pisadas e solidão.

O filho que volta para casa não tem escolha, exceto à morte. Volta para os braços do pai, este abraço compassivo e determinista. Rendido está ao exílio do amor.

Todo retorno é uma espécie de sentença.

III

Deus feriu-me com sua graça imensa, tal faca penetrante de dois gumes.

Desferiu-me um golpe fatal, marcando-me com uma dor que jamais cessa.

Esmagou-me com o tamanho de sua busca e revirou-me todo.

Atirou em minha face esperanças violentas contra minhas frágeis incertezas.

O Onipotente, sem dó nem misericórdia, aprisionou-me a certezas daquilo que não posso ver nem tocar.

Encravou pecados e inversões em meu peito e sujeitou-me à um único antídoto salvador.

Deixou que feras e monstros comessem meu corpo para oferecer enxertos espirituais como única forma de sobrevivência.

Massacrou meus desejos carnais e vestiu-me com roupas que não são minhas.

Lavou-me com fogo que corroeu minha carne e derreteu minha alma.

Transformou meus quadros abstratos e confusos em cenários impressionistas e belos.

Aquele que não tem nome, chamou-me pelo nome profetizando um só destino e ofereceu a morte como única possibilidade diversa.

Quebrou meus ossos, cobriu minha pele de feridas e golpeou-me com minha própria liberdade. Esbofeteou minha face com sua outra face terrível.

Atou-me no caminho de volta ao lar.

Deus exilou-me de mim mesmo como forma arbitrária de conceder fôlego vital.

Abraçou-me suavemente, olhou-me com ternura, prendendo-me eternamente em suas moradas.

Era isso, ou a miséria dos meus próprios caminhos.

 

Escritos de um Exilado

Por Filipe Colombia  

Eu procurei entre as gavetas da prateleira por um volume de papéis rabiscados. Mas não achando, sentei-me na cadeira de palha, que rangeu suavemente. Era noite, como na maioria das vezes em que o ócio de pensar nos trás a solidão que vem com mala e cúia e se instala nos cômodos da casa mental com uma total avidez. Então tomei a decisão de escrever em outra folha de papel, uma nova folha, pra variar, somente para dissipar essa ânsia por voltar ao descontrole de outrora. A mesa em minha frente é tão velha que ela nem mais range, se não grita, reclama a qualquer rabisco. Porém tampei seu gemido com um mpb sacerdotal, mesmo já ouvindo alguns cretinos dizerem que mpb é do demônio. Depois de escrever um bocado, meu punho parou tremendo. De sobressalto decidi parar e não sei porque, olhei para os meus dedos com unhas mal-cortadas, frios como o inverno ártico. Voltei há um ano atrás, mesmo sem saber porque.

Lembro-me que eu fumava, mas não fumava tanto. Porém afogava minhas primas-mágoas na imensidão dos bares centrais, com estagiários de terceira divisão que cheiravam almoxarifado e notas de um real. Eu não ficava junto com eles na mesma mesa, ficava sozinho, mas o recinto nos unia pela fumaça, pela ilusão da eternidade em uma sexta-feira banhada de choop e misto-quente. Logo após ver o pessoal de telemarketing sair do trabalho com roupas mini mostrando as barrigas, coxas, sobrecoxas, maminha, fraldinha, parecendo mais o dia de festival de carne do que um dia de trabalho. Olhava aquela babilônia paulista com um olhar de “Maranata”. Bebia meu choop de sempre, sentava na mesma mesa de sempre, via os mesmos preços de sempre. Não havia faculdade, era perto do natal. Minhas médias eram de dar inveja, meus projetos eram mirabolantes porém, bem fundamentados na teoria da arquitetura confucionista. Enfim, na parte educativo-profissional eu estava bem. Meu emprego me pagou, tinha o vale refeição recheado e podia tirar quantas fotos eu quisesse das favelas. Tinha sido “promovido” a responsável mirim do arquivo fotográfico geral do Programa Mananciais. Pra mim era coisa boa, afinal, o pessoal parecia gostar de mim e eu, parecia gostar deles. Porém na minha área social, eu andava torto.

Torto por causa da bebida e por causa das recordações recentes. Uma fumaça que não saía da minha frente e me fazia tatear em qualquer lugar, procurando apoio, sustento. “Que se ferre o passado”, dizia. Gostei do ideal futurista que varreu o mundo no começo do século XX, dizendo que todos os museus tinham que ser destruídos e tudo deveria ser novo. Tratava meus problemas sentimentais como o nazista tratava o judeu, como o americano trata o mexicano e como o brasileiro ainda trata os bolivianos. Resolvia não tolerar-me, comecei a tratar-me mais mal que o comum, sendo juiz de mim mesmo e nem solicitando um advogado para a minha pobre alma enclausurada. Então quando chegou o natal decidi não freqüentar mais os bares centrais, decidi ficar em casa, dando desculpa para o meu corpo, dizendo que precisava dar tempo para a família.

Já viu, natal e final de ano é sinônimo de lusinhas, corais horrendos, perús, e uma programação continua que sempre sabemos que vai ser igual. O pessoal faz a ceia, sorriem, comem panettone, chocottone, moussettone… dão e recebem presentes e assistem a tv globo. Então eu decidi fazer diferente. Dei outra desculpa para minha família e disse “ficarei em casa, estou cansado pois trabalhei muito”. Eu não estava mentindo, pois minha mente trabalha até quando dorme e realmente aquela semana no trabalho tinha sido exaustiva por causa do “fechamento” do ano no escritório. Fui nas festas de comunhão empresarial, ganhei minha cesta de natal, joguei sinuca, fui cínico e bebi tudo o que eu podia, mas sempre chegava de pé em casa, mesmo fedendo a depressão. No próprio dia do natal, a casa encontrou-se vazia, não sei porque. Fiquei só com a poltrona azul e com a cesta de natal. Fiquei a vontade, vagando entre os cômodos, perturbado pelo calor insuportável e pela gritaria no prédio em frente. Liguei a tv como se aquela tela colorida me desse às respostas para as perguntas que eu nem sabia formular. Parei no canal “Brasil” dedicado somente a filmes brasileiros. Um filme passava e eu não entendia bulhufas, só sei que a Malu Mader era protagonista. Decidi abrir a cesta de natal e percebi que havia um vinho do Porto. “Uaauu”, pensei, “essa cesta sim é boa”. Peguei a única taça que tinha sobrado na casa, pois as outras três já tinham ido “pru céu”. Comecei. Não parei. Me vi dançando sentado, vendo as letrinhas do filme que acabava até que vi o nome do filme: Brasília 18%.

Fui na varanda quando a garrafa acabou. Fiquei sólido e plantado em um banquinho de plástico, recebendo a brisa da madrugada que não agregava em nada.

Não Chorei.

Não sorri.

Entreguei-me a uma indiferença penetrante que me arrastou ao poço da indignidade. “Poderia terminar assim”.

Coloco o aquecedor perto de mim e me encolho em meio à sala vazia. Estou em outro lugar, sóbrio pelo frio. A kilometragem de quantas letras já escrevi por aqui é alta. Cuido de mim mesmo, cuido principalmente de meus dedos e medos, mas tenho que cuidar dos outros. Faço carinho nas árvores, me entrego ao passado como um arqueólogo. Não me afastei do perigo, pois é ele que me persegue, mas neste exílio mental, procuro fundamentar meus propósitos e meu sentido de viver. Já me perdi o bastante, agora cabe achar-me. Mas procurando-me percebo que achei o calhamaço de folhas que procurava, estavam debaixo do álbum de retratos. 

René Magritte

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