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Posts Tagged ‘american way of life’

Dois anos em terras estrangeiras, volto pro Brasil mais alto e com cheiro de gringo segundo relato de alguns amigos. O orgulho entorpece nossa razão e faz a gente acreditar em coisas assim. Me fez crer também que não pertenço mais a esse país que só nos dá desgosto.
Eu que sempre militei contra a babação de ovo em cima do ‘american way of life’ e todo discurso burguês que denegria nossa pátria varonil, comecei a ceder. Dei lugar para expressões em inglês com sotaque britânico e espalhei olhares de reprovação e superioridade a todo sinal de não civilização. São Paulo tem desses aos montes.
Foi por bem pouco que quase rasgo minha cidadania e atiro tudo no lixo como prova de minha superioridade. Por bem pouco comecei a acreditar que o fato de falar outra língua, ter subido a Torre Eiffel, estudar política internacional e ser confundido com alemão uma ou duas vezes me elevaram definitivamente ao andar superior dos que romperam com suas raízes rústicas e mal cheirosas.
Por bem pouco acreditei que ouvir em silêncio os argumentos de gente desinformada, fruto de uma mente estreita e preconceituosa, era a melhor maneira de lhes mostrar o quanto sou iluminado e sábio. O quanto atingi o Nirvana social ao aprender com gente esclarecida e alva. Deixei de ser colônia, me tornei filho do império.
Por um triz não vesti o capuz da vergonha por ser brasileiro, de ter origens no terceiro ou quarto mundo, de ter nascido da união de nordestinos migrantes, de ter me formado em escola pública com merenda servida em prato de plástico azul e copo de leite fedido a azedo.
Foi por esse pouco que não acreditei na ideia de que nasci em solos brasileiros por acaso. Que estava mesmo destinado a viver em sociedades evoluídas, estilosas e de uma austeridade poética. Beleza, elegância e classe que me caem muito bem, obrigado.
Por muito, mas muito pouco mesmo não dou CURTIR em tudo que é artigo da rede defendendo como solução para gente nobre como eu uma saída a francesa, com títulos como: ‘porque não quero morar mais no Brasil’, ‘porque amo o Brasil mas odeio os brasileiros’ ou ainda ‘O Brasil não me merece mais’.
Por bem pouco comecei a acreditar que o fato de ter tido o privilégio de sair da caverna verde amarela e enxergar um pouco do mundo lá fora me faria voltar especial, selecionado para destinos grandiosos, cheio de luz e realeza que nunca mais me permitiria ser como os pobres mortais que outrora chamei de compatriotas.
Essa foi por pouco.
Motivos até que não me faltariam para pensar assim. Tenho ao meu favor o circo de impunidade, corrupção e ausência total de caráter do qual o PT, PSDB, PMDB e toda a corja de políticos bandidos e assassinos construíram na política nacional. Assisti-los em seus atos vergonhosos é motivo mais do que suficiente para declarar com toda razão: não há porque amar esse país.
Tenho também as frases e imagens de ódio e repudio divulgadas nas redes sociais, evangélicos contra gays, direitistas contra pequenos delinquentes, moralistas inseguros contra as novelas globais, LGBT’s contra a família tradicional. E todos contra a Dilma. Tarefa fácil declarar: quero mesmo é dar o fora dessa Zorra!
A despeito de todos os motivos válidos, da minha aura globalizada e transcendente e desse desejo de salvar a própria pele, ainda carrego uma convicção que me traz lucidez mesmo que tardia: nada é mais pobre e miserável em nossa cultura que essa idéia de que somos melhores que nossos irmãos. Que o país não nos merece. Que desistir é o único caminho razoável para o progresso pessoal e merecido.
A verdade é uma só: é nossa pátria varonil que não merece gente como eu que acredita ser melhor pelo fato de ter dólar na carteira que mal paga o café da manhã no Burger King. Gente que como eu vai pra Disney e se pergunta porque São Paulo não poderia ser assim.
Gente que como eu nunca moveu uma palha para mudar a nossa situação de desigualdade extrema mas se altera aos gritos a favor da diminuição da maioridade penal.
Gente que como eu, de tanto se achar melhor e mais cheirosa, nunca será capaz de ofertar a si mesmo para que algo belo possa ser produzido em nossos solos gentis.
É de gente como eu que nosso país deveria declarar: tenha a gentileza de sair pelo portão de vôos internacionais, você não merece ser brasileiro.
Ufa, ainda bem que foi por pouco.
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Viagem de Greg Browning por três continentes diferentes
Para o professor Greg.

É consenso geral que ser rico, cheio da grana, montado na bufunfa, dá um baita incentivo para alcançarmos a tal felicidade. Se não pra sermos plenamente realizados tão pouco se é feliz com nada. Osso duro de roer esse dos recursos escassos. Meus amigos missionários que o digam.
Que ter grana pra fazer o que bem entender é privilegio de poucos – se nem o comunismo mudou isso, desistam! – isso ninguém discute. A questão que pode desenrolar uma boa conversa é: só com grana se pode ter acesso a tão desejada realização pessoal? Acho que não. Na verdade, creio piamente – até que a mendigagem e a fila do sopão me provem o contrário – que precisamos de muito pouco para sermos ricos e esbanjarmos felicidade. Confuso e bem pouco cientifico meu argumento, assumo. Nem mesmo utilizo o desacreditado método empírico para provar minha teoria, já que mesmo me aventurando pelos caminhos ‘outside American Way of Life’ eu ainda sorrio satisfeito quando minha conta bancária apresenta algum saldo positivo de sobra. Mas deixe-me compartilhar uma história. Recentemente minha turma de inglês recebeu um professor substituto chamado Greg. Cidadão britânico, cabelos cumpridos e cavanhaque no melhor estilo KFC, a primeira impressão foi termos um teacher desconectado do mundo – suspeito usuário de maconha, teoria confirmada posteriormente – gentil e tranquilo a ponto de dar sono na classe. Mas então descobrimos que ele tem uma história por traz daquele jeito de quem tomou muito chá das 5 – que erva será que esses ingleses usam? Gregory Browning é um viajante profissional. Em 2007 ele trabalhou durante um ano, juntou a grana necessária, para finalmente realizar sua maior jornada até o momento: percorrer durante dezessete meses o caminho que vai – caminho que ele criou, que fique claro – da Inglaterra à Austrália, passando pela Europa, Ásia – o gigante deserto chinês – e cruzando a terra dos cangurus – o imenso deserto australiano – e tudo isso de bicicleta. Pessoas sensatas, segurem um pouco suas pedras. Greg planejou tudo antes, como bom britânico e já tinha viagens mais curtas em seu currículo.
Agora, você pode me perguntar, o que isso tem a ver com o dilema dinheiro e felicidade? O resultado é simples: só riqueza traz felicidade. Isso é uma certeza matemática. Mas dinheiro não é a única riqueza que se pode adquirir. Para Greg, a riqueza que ele busca é a liberdade, a magnifica experiência de conhecer o mundo passeando de bicicleta e mochila nas costas.
Os que sabem consumir, com olhos sedentos, a beleza desse mundo, abraçar com ganância aqueles que lhe são caros e poupar em sua mochila só aquilo que é essencial para uma boa jornada pela vida, serão ricos e portanto terão tudo que precisam para serem felizes.
Pois pés descalços e cabelos ao vento podem ser um investimento que nos lembra de que a vida vale muito mais do que qualquer moeda pode pagar. Quando se descobre isso, finamente se compreende que essa ausência de dinheiro, ao invés de ser um veredicto de fracasso e limitação, na verdade é um aval, uma licença prêmio para se desfrutar a liberdade. Lembre-se, uma prisão é feita de coisas materiais – previsível e sólida – enquanto pôr-do-sol, a cama feita na grama e não saber sobre o dia de amanhã é a matéria da qual é feita a liberdade.
Ter pouco no Brasil, na China ou nas ruas de Londres podem apertar o coração e causar angústia, exceto se você lembrar que aprender a carregar apenas o necessário te possibilita fôlego para ir mais longe e, quem sabe, nesses raros momentos de distração, você se descubra totalmente feliz e pleno de uma riqueza que não pode se desfazer jamais.

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