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Desajuízados

Me aconselharam a tomar juízo. Isso me deixou em crise, me senti adoentado, instável, assustado, sei lá. Será que sofro de falta de juízo?
Onde mesmo a gente pode tomar juízo? Vem em gotas ou comprimidos? Qual é a prescrição? Quantas vezes se toma ao dia? Quantos miligramas? E para os que não tem plano ou nunca foram assegurados?
Doutores especializados são todos aqueles que receitam juízo na ânsia de ver os desajuizados recuperados, alinhados e saudáveis novamente.
Pois se não sabem falta de juízo é como falta de enzimas para o cérebro ou vitaminas para o corpo. O desajuizado sofre de fraquezas de julgamento, faz escolhas loucas. Ao invés de evitar sofrimentos, atira-se nos braços dos seus afetos sem reservas. Ao invés de colocar os pés no chão, vai caminhando pelas nuvens.
Conectar-se às demandas da vida e exigências sociais é a grande debilidade de pessoas sem juízo. Não conseguem seguir o padrão dos normais que evolui tranquilamente entre formação estável, emprego rentável, casamento invejável, casa própria, dois filhos e aposentadoria para encerrar o ciclo. Não, os desajuizados invertem a ordem, pulam etapas, parcelam realizações, incluem saídas inusitadas e vivem contrariando o que é desejado pelos familiares e amigos, que muitas vezes assistem essas decisões anormais com bastante irritação, decepção ou lamento. Afinal, qual é a dificuldade em ser normal? Não entendem que estes sofrem dessa doença séria, a falta de juízo.
Alguns especialistas são da linha que esse mal melhora com o tempo. Quando passar dos 40 ninguém vai nem dizer que o sujeito teve isso. Mas há casos, cada vez mais comuns, de desajuizados no alto de seus 60, 70 anos. E quanto mais velho o desajuizado fica, mais agudas são as crises de falta de juízo.
Alguns doutores indicam a prevenção ao sinal dos primeiros sintomas ainda na pré-adolescência. Com essa doença grave não se brinca! É preciso evitá-la o quanto antes. Cursos de administração de empresa ou direito, empregos em bancos ou no funcionalismo público e namoro com moço/garota de família ajuizada são prevenções desejáveis para não contrair esse mal.
Evite terminantemente processos prejudiciais de autoconhecimento e busca de identidade. Isso deixa as pessoas sem anticorpos e extremamente vulneráveis. Poesia e arte devem ser consumidas com muita moderação e cautela. Prefira entretenimento que não causa dano algum. Jamais ingresse no perigoso caminho das vocações ou paixões. Não questione propósitos ou significados para sua jornada. Aliás, jamais questione qualquer coisa. Questionar é um sintoma comum entre esses debilitados.
Não viaje para lugares que não estejam na rota já conhecida e amplamente comercializada em pacotes turísticos da moda e lojinha na saída. Se viajar não se demore em voltar. Há muitos casos de gente que perdeu todo o juízo após colocar uma mochila nas costas.
Nunca faça escolhas diferentes das que esperam que você faça. Se existe o padrão do bom, justo é aceitável porque mesmo você pensa que pode optar por outro caminho? Só a trilha conhecida é totalmente esterilizada e protegida contra o vírus da falta de juízo. Escolher outros caminhos vai te lançar em um mundo arriscado e instável, e aí perder o juízo será questão de tempo.
Seja religioso mas evite andar pela fé como fazem os peregrinos em busca de iluminação. É muito melhor aprender racionalmente a moral de uma religião, frequentar missas e cultos apenas aos domingos e cumprir seu dever de bom cidadão do que viver como aqueles errantes esquisitos que por afirmarem ouvir a voz divina acabaram totalmente sem juízo.
Construa sua estrada e convide as pessoas certas para participar de sua história. Isso garantirá uma vida saudável. Jamais dê brecha para conviver com gente muito livre, que pensa diferente de você, que tem cabelo azul ou vem de culturas distintas. Elas podem te infectar. Pesquisas revelam que essa doença é tanto hereditária quanto contagiosa.
Mantenha-se são e sua vida será totalmente previsível, saudável e segura.
Deixe que os desajuizados sigam entre crises e dilemas, dramas e alegrias extremas.
A doença deles evoluirá para o quadro onde não adiantará mais tomar comprimidos ou injeções de juízo. Estarão desenganados e condenados a viver a vida em toda sua crueldade e beleza.
O fim deles é perder todo e qualquer juízo terminando seus dias entre delírios e afirmações insanas de que não ter juízo nunca foi doença e sim um presente único que lhes deu o privilégio de escrever a própria história.

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Hinos natalinos fazem algo com meu corpo e minha imaginação. Me transportam, me comovem, me fazem ver coisas e ouvir sussurros.
Fico como que encantado diante da luz bruxuleante das velas.
Personagens e fatos surgem nas superfícies da minha mente. Vejo seus rostos, sinto suas angústias, ganâncias e medos.
Quem eu sou nesse emaranhando imaginativo que celebra o nascimento do menino?
Que lugar encontro minha face a contemplar o dia que o universo ficou em silêncio reverenciando o Nascimento do pequeno rei?
Seria eu como aqueles pobres cuidadores de cabras e ovelhas, cheirando mal e cansados de mais um dia de trabalho duro no campo?
Ou talvez sou como homens estudados e requintados que sempre trazem conhecimento e prata no bolso a ser ofertado para os que precisam.
Talvez ainda eu sou como aquele imperador preocupado demais com sua posição e status, mania de poder, sem entender que um rei não precisa de tronos.
Ou talvez eu seja um José que olha para seu filho e vê adiante um futuro incerto ou uma Maria que nada tem a oferecer a não ser seu olhar que acaricia calmamente o rosto do menino.
Não. Não sou nem Herodes, nem Mago, nem pastor de ovelha. Não sou Maria nem José.
Eu sou aquele abrigo úmido e malcheiroso que serviu como palácio para receber o rei do universo.
Eu sou aquela manjedoura tosca e desconfortável que sustentou o corpo do Deus eterno.
Eu sou aqueles animais sonolentos e pardos que indiferentes assistiam o milagre da vida.
Eu sou esse lugar bagunçado, indigno, perigoso e desprezado. Eu sou o lugar que jamais deveria ter sido escolhido para abrigar o mistério feito carne.
Eis a revelação que me foi dada ao som de hinos natalinos. Eis o que o Natal parece me dizer: de todos os lugares que o Rei dos reis poderia escolher como abrigo ele ainda escolhe habitar no coração de pessoas-estrebaria. Pessoas que sabem que são menos que nada mas com braços trêmulos acolhem o Pai da Eternidade em seus ventres vazios.

Turno Off

Comecei desligando o Wi-Fi e o celular
Então pausei o som que antes entertia meus ouvidos
Coloquei em hold também as vozes da minha mente
Amigos distantes que exigem contato
Família demandando satisfações
Amores que suplicam razões para estas ausências
Larguei de lado a mochila das minhas caminhadas
O peso dos objetos simples que ainda carrego
Finalmente calei minha própria voz
que me dita identidades e reascende desejos
No lugar do meu nome-prisão um espaço em branco
No lugar dos deuses, um vazio misterioso
E o silêncio
E com ele o instante dádiva
De enxergar a cor púrpura das flores angustiadas pelo primavera que se esvai
Compreender o vento gelado que movimenta mundos
O som dos pássaros em sua inutilidade de existir
Lugar onde a natureza é e nunca dependeu de mim para ser
Lugar onde brotam antigas palavras nascidas de novo
Capturadas em gaiolas feitas de letras
Antes que a internet e minha solidez feita de presunção e histórias
Me ceguem novamente

Do lado de lá

Às vésperas de atravessar o globo em um avião comercial
largo-me inútil em frente à baía de Santos
E me pergunto…porque o mar sempre me arrancou suspiros?
Memórias da infância que
desde cedo estiveram conectadas ao som das ondas.
Brisa no rosto.
O cheiro de água salgada misturada com saudades. Fim de semana e feriado. Ansiedade infantil por devorar a vida!
O fusca verde lotado e a pele dolorida de sol.
A forte presença do meu pai. Seu silêncio e ausência que nunca me abandonaram.
Ao som de Roberto e Elis.
Os primos e irmãos famintos pelo espaço aberto das areias quentes.
Acho mesmo que são todas as coisas juntas que me atraíam como ímã aos encantos do litoral.
Mas uma só me assombrava como fazem as preces sem palavras…a linha do horizonte a dividir céu e o profundo oceano. O infinito azul que meus olhos insistiam em desvendar sem sucesso.
E ficava assim…abismado com tanto mistério contido numa única linha. Portal que separava meu corpo magro de criança desajeitada e as coisas que não tem nome.
Voltava melancólico. Queria chegar lá onde as coisas se revelam. Ansiava por equilibrar-me entre os objetos palpáveis e a face do eterno.
Isso explica a razão do porque, a despeito de conselhos contrários e gente magoada, fui parar do outro lado do mundo.
Estava é mesmo perseguindo um sonho primo, o de tocar a linha do horizonte com as mãos. O de ver o avesso das coisas.
Mas ao finalmente chegar lá encontro o mesmo cheiro de mar e as crianças correndo soltas pela areia.
E a mesma melancolia de quando meus olhos avistavam o horizonte, intocável.
E do lado de lá entendo que não importa de onde e para onde miramos. Sempre estará diante de nós essa tênue linha que separa quem somos daquilo que é sem nunca ter sido.
Daquilo que ainda não nos foi revelado.
Avião ou navio algum nos servirá de consolo.
Só mesmo esse desejo infantil de um dia romper a linha que divide os mundos.

Enfim 40…enfim desisto…
Os quarenta finalmente chegaram e acreditem, passa rápido mesmo. Outros quarenta só por sorte ou benevolência dos céus. Portanto, ao que as estatísticas indicam, já passei faz tempo da metade do trajeto. Então sejamos francos e encaremos os fatos: está na hora de uma reavaliação urgente. Reunião de emergência a portas fechadas.

Se bateu a crise dos quarenta? Sim, mais isso quando eu estava nos trinta. Sempre sofri por antecipação. Agora constato num misto de resignação e alívio: chegou a hora de desistir.

Não se trata de desistir da vida. Desta desisto todas as manhãs quando sou forçado a acordar antes das sete. Mas ao meio dia já estou cheio de planos e idéias novamente.

Trata-se de desistir dos sonhos que nunca foram meus, de ilusões e expectativas alheias. Trata-se de enxergar os fatos com coragem, esvaziar a mochila dispensando os cacarecos que não usarei mesmo e seguir em frente mais leve, ciente que não se deve importar com o que nunca importou.

Antes de tudo, desisto de ser adulto. Juro para vocês que tentei. Me formei naqueles cursos que garantem emprego e carro zero. Tive emprego de gente grande e sim, um carro zero. Trabalhei com carteira assinada e namorava direitinho, com a meta de chegar ao altar como manda o figurino. Mas o que posso fazer se não tenho competência suficiente para exercer a vida adulta? Acusem-me de irresponsável e libertino. Logo eu que já nasci velho, carregado de memórias e saudades, agora aos quarenta o menino surge do nada, grita por espaço e não admite gaiolas nem terno e gravata. Segue correndo atrás das pipas e bolhas de sabão. 

Desisto portanto de ser bem sucedido. Isso não me pertence e dá muito trabalho. Aos quarenta, nem que quisesse. Já não tenho mais fôlego – lê-se saco – para carreiras e planos de negócio, e o mercado de trabalho é impetuoso com semi-idosos. Deixo para os ambiciosos que negociam suas almas em troca de troféus e jantares caros. Vou seguindo leve com pouco no bolso. Assim posso ir longe mesmo com a idade pesando em minhas costas. Há tanto ainda por conhecer. Tantas trilhas a serem exploradas. Tantos rostos, histórias e lugares a serem degustados que a idéia de gastar dias e meses entre as mesmas paredes chega me dar urtiga. Fiquei alérgico a estabilidade, salário fixo e salas sem rota de fuga. 

Desisto também dessa caça incessante pelo propósito maior da vida. Acho mesmo que imaginei coisas quando acreditei que fui criado para um destino singular que mudaria a face do mundo. Hoje estou ciente, não mudo nem mesmo essa mania de limpeza que beira a neurose crônica ou esse hábito irritante de escovar os dentes a cada meia hora. Ainda bem que minha irmã é pior que eu…fico mais tranquilo. Como diria a Roseli – aquela que também esqueceu de atingir a adultice – ‘é tudo fruto do meio’.

Desisto inclusive de encontrar o grande amor da minha vida. Soa triste, eu sei. Mas já superei. Nunca consegui lidar com expectativas e frustrações. Sou exagerado demais, não faço julgamentos sensatos. Acabo amando completamente e sem freios para dizer adeus em seguida. Correr atrás, nunca mais. Minhas pernas até que ainda são ligeiras mas estão apaixonadas por outros rumos. Se existe alguma grande história de amor reservada para mim, ela que venha atrás. Que saia à minha caça até me capturar. E eu não pretendo dar mole. Agora que sou um quarentão charmoso, vai ter que ralar para me conquistar. Aviso logo que não sou fácil.

E finalmente desisto de atender as expectativas, sonhos, desejos, intenções e decisões dos outros. Se tenho rugas, alguns raros cabelos brancos, bico de papagaio e dermatite atópica, tirando o desgaste resultante dos anos de uso, o resto é fruto dessa minha mania de agradar a galera. Era, já não é mais. Aos quarenta me dei carta de alforria. Não faço por má vontade nem para causar polêmica. Espero que me entendam. Só agora compreendi que a vida é uma só, décadas passam como se fossem meses e agradar as pessoas – vizinhos, amigos e inimigos – é correr atrás do vento e não chegar em lugar algum. Aos que me amam de verdade, e usam a desculpa de que ‘só querem o meu bem’, não me levem a mal. Erros e acertos fazem parte da jornada e eles serão meus. Sofram ou se alegrem, mas não esperem encontrar em mim um filhote domesticado. Sou quase um idoso e me dou ao direito, hoje e daqui para frente, de decidir por mim mesmo e escrever uma história com minhas próprias mãos. Não quero, ao final dos dias, culpá-los pela frustração de não ter sido o que sou, caminhado com minhas pernas e perseguido os sonhos que me pertencem. Ficamos melhor assim?

Enfim os quarenta chegaram. Mentir não vou, fácil não é digerir isso. Mas tudo pode ser ainda melhor nesse segundo tempo. Isso se eu tiver mesmo coragem de desistir desse padrão de super man maduro, estável, gordo e feliz pelos feitos realizados até aqui. Nunca estive tão vulnerável, inquieto e ansioso pelo que ainda está por vir. Experimento o assombro ao viver a vida em toda sua brutalidade e beleza. Sei que deveria conter-me no corpo rígido de um adulto em fase de estacionamento, mas minha alma ainda é leve e não consegue se manter no chão. 

Finalmente quarenta. Recebo-o com sorriso largo e cabeça cheia de sonhos. Eu que nasci velho vou me tornando menino. Minha sede é do que ainda não tem nome. É de vazios e esperanças que meu corpo está cheio, desejando loucamente pelo que ainda virá, como anseiam as crianças e os poetas por mais um dia, nascido de novo e carregado de possibilidades e lacunas a serem preenchidas com essa nossa insistência pela vida.

  

Dois anos em terras estrangeiras, volto pro Brasil mais alto e com cheiro de gringo segundo relato de alguns amigos. O orgulho entorpece nossa razão e faz a gente acreditar em coisas assim. Me fez crer também que não pertenço mais a esse país que só nos dá desgosto.
Eu que sempre militei contra a babação de ovo em cima do ‘american way of life’ e todo discurso burguês que denegria nossa pátria varonil, comecei a ceder. Dei lugar para expressões em inglês com sotaque britânico e espalhei olhares de reprovação e superioridade a todo sinal de não civilização. São Paulo tem desses aos montes.
Foi por bem pouco que quase rasgo minha cidadania e atiro tudo no lixo como prova de minha superioridade. Por bem pouco comecei a acreditar que o fato de falar outra língua, ter subido a Torre Eiffel, estudar política internacional e ser confundido com alemão uma ou duas vezes me elevaram definitivamente ao andar superior dos que romperam com suas raízes rústicas e mal cheirosas.
Por bem pouco acreditei que ouvir em silêncio os argumentos de gente desinformada, fruto de uma mente estreita e preconceituosa, era a melhor maneira de lhes mostrar o quanto sou iluminado e sábio. O quanto atingi o Nirvana social ao aprender com gente esclarecida e alva. Deixei de ser colônia, me tornei filho do império.
Por um triz não vesti o capuz da vergonha por ser brasileiro, de ter origens no terceiro ou quarto mundo, de ter nascido da união de nordestinos migrantes, de ter me formado em escola pública com merenda servida em prato de plástico azul e copo de leite fedido a azedo.
Foi por esse pouco que não acreditei na ideia de que nasci em solos brasileiros por acaso. Que estava mesmo destinado a viver em sociedades evoluídas, estilosas e de uma austeridade poética. Beleza, elegância e classe que me caem muito bem, obrigado.
Por muito, mas muito pouco mesmo não dou CURTIR em tudo que é artigo da rede defendendo como solução para gente nobre como eu uma saída a francesa, com títulos como: ‘porque não quero morar mais no Brasil’, ‘porque amo o Brasil mas odeio os brasileiros’ ou ainda ‘O Brasil não me merece mais’.
Por bem pouco comecei a acreditar que o fato de ter tido o privilégio de sair da caverna verde amarela e enxergar um pouco do mundo lá fora me faria voltar especial, selecionado para destinos grandiosos, cheio de luz e realeza que nunca mais me permitiria ser como os pobres mortais que outrora chamei de compatriotas.
Essa foi por pouco.
Motivos até que não me faltariam para pensar assim. Tenho ao meu favor o circo de impunidade, corrupção e ausência total de caráter do qual o PT, PSDB, PMDB e toda a corja de políticos bandidos e assassinos construíram na política nacional. Assisti-los em seus atos vergonhosos é motivo mais do que suficiente para declarar com toda razão: não há porque amar esse país.
Tenho também as frases e imagens de ódio e repudio divulgadas nas redes sociais, evangélicos contra gays, direitistas contra pequenos delinquentes, moralistas inseguros contra as novelas globais, LGBT’s contra a família tradicional. E todos contra a Dilma. Tarefa fácil declarar: quero mesmo é dar o fora dessa Zorra!
A despeito de todos os motivos válidos, da minha aura globalizada e transcendente e desse desejo de salvar a própria pele, ainda carrego uma convicção que me traz lucidez mesmo que tardia: nada é mais pobre e miserável em nossa cultura que essa idéia de que somos melhores que nossos irmãos. Que o país não nos merece. Que desistir é o único caminho razoável para o progresso pessoal e merecido.
A verdade é uma só: é nossa pátria varonil que não merece gente como eu que acredita ser melhor pelo fato de ter dólar na carteira que mal paga o café da manhã no Burger King. Gente que como eu vai pra Disney e se pergunta porque São Paulo não poderia ser assim.
Gente que como eu nunca moveu uma palha para mudar a nossa situação de desigualdade extrema mas se altera aos gritos a favor da diminuição da maioridade penal.
Gente que como eu, de tanto se achar melhor e mais cheirosa, nunca será capaz de ofertar a si mesmo para que algo belo possa ser produzido em nossos solos gentis.
É de gente como eu que nosso país deveria declarar: tenha a gentileza de sair pelo portão de vôos internacionais, você não merece ser brasileiro.
Ufa, ainda bem que foi por pouco.
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Dizem as estatísticas recentes que suicídio é a segunda principal causa dos óbitos entre jovens no mundo, perdendo apenas para acidentes de trânsito. No Brasil é a terceira causa de mortandade entre jovens. Difícil de acreditar que esses números são reais. Parece-me uma grande tragédia tanta gente desistir da vida, geralmente na fase em que ela está só começando.
Eu mesmo já pensei algumas vezes nessa possibilidade. Pode parecer uma disfuncional e depressiva reflexão, mas para mim foi uma das melhores coisas que já fiz. ‘Morrer é possível’ foi a frase que emprestei de um filme e que ficou ecoando em minha mente, cavando espaço em minhas meditações diárias.
Papo mórbido que assusta muita gente. Mas uma coisa é certa…quem evita o sofrimento, a dor e a morte a todo custo acaba por evitar a vida, a alegria e a liberdade de escolhas tudo no mesmo pacote. ‘Não se pode ter paz negando a vida’…outra frase que peguei emprestada do filme ‘As horas’ do diretor Stephen Daldry e que me serve de mantra quando se faz necessário tomar decisões e rumos.
Suicídio intriga e assusta.  Depressão, mal do século, é apontada como um dos grandes vilões desse crime sem rosto. A comoção é geral e amigos e familiares ficam atônitos diante dessa decisão que normalmente é tomada em silêncio, na angústia de momentos solitários. Na falta de sentido para continuar a caminhada.
Pois eu não tenho nenhuma vocação para identificar suicidas em potenciais. Quisera eu ter, pelo menos poderia tentar evitar esses gestos últimos de desespero. Mas me foi dado um outro dom, parecido, o de identificar mortos-vivos. Esses se revelam para mim o tempo todo.
No filme ‘O sexto sentido’ do diretor M. Night Shyamalan, o personagem Cole, um garoto de 11 anos, era assombrado por ter um dom especial, a capacidade de ver e interagir com os mortos. A frase ‘I see dead people’ ficou famosa e até virou motivo de chacota nas redes sociais.
A pergunta que faço para o pobre garoto perseguido por defuntos é…e dai Cole que você vê gente morta? Eu vejo gente viva que já morreu o tempo todo e nem por isso fico chorando debaixo das cobertas.
Pois apesar dessas estatísticas alarmantes sobre suicídio defendo veementemente a idéia de que mais trágico e lamentável que o suicídio de fato é o suicídio da alma cometido por milhares de pessoas que se permitiram morrer em algum momento de suas vidas, mas esqueceram de se enterrar. E esses mortos-vivos estão em toda parte. São porteiros de prédio, tias viúvas, chefes de repartição pública ou mesmo alunos do ensino médio.
Mas como saber que alguém que anda e respira na verdade já morreu? Para mim é fácil…já lhe disse que tenho esse dom. Basta passar um tempo – alguns minutos são suficientes – e ficará clara a certidão de óbito previamente assimilada. Mortos vivos costumam falar do passado, as vezes décadas atrás, como se ainda fosse o presente. Citam pessoas e lugares que viveram em idos tempos como se isso tivesse acontecido ontem. Amarguras e conquistas de anos atrás são ainda os motivos de orgulho ou frustração que os fazem rastejar pelos dias afora. O momento presente não os comove mais. Agarram-se como podem ao que viveram um dia.
Mortos vivos repetem a frase ‘não tenho mais nada que esperar da vida’ e suas variações como um lema que os protege de ainda enfrentar as horas. Escapam da angústia de existir enterrando-se com a terra de suas desistências e medos.
Mortos vivos fogem de romances e relacionamentos como o diabo foge da cruz. Não suportam o pavor de serem vulneráveis, de ficarem atônitos diante do abismo assustador que é se entregar a uma história de amor. Preferem nunca experimentarem a beleza de se doarem a outro ser com medo da rejeição e do abandono.
Mortos vivos não sonham mais. Não olham para o futuro com lágrimas nos olhos. Não crêem mais que a esperança pode produzir milagres em suas almas já em estado de putrefação. Acham que os sonhadores são idiotas desajustados que precisam acordar (lê-se: virar zumbis como eles). Que aqueles que protestam contra as injustiças deveriam enxergar a realidade e voltar aos seus pijamas estampados de conformismo e negligência. Odeiam aqueles que decidem escrever suas próprias histórias acusando-os de serem egoístas patológicos que perturbam a ordem natural das coisas…que é morrer precocemente com medo de viver a vida.
Vejo-os o tempo todo em toda parte. São tantos que se fosse feita um pesquisa constatariam que essa causa mortis é a mais cruel e abrangente do que todas as demais juntas. Muito mais perigosa que dengue hemorrágica brasileira ou terremoto japonês.
Pois falo do perigo que é se tornar um morto vivo com propriedade de causa. Pois eu mesmo vivi anos arrastando meu cadáver nas costas para em troca receber conforto, aceitação e segurança de pertencer ao mundo dos mortos vivos. Ainda vivo sob essa ameaça do jeitinho que é retratado no seriado norte-americano ‘The Walking Dead’. Todas as vezes que a vida se levanta assustadora, com seus dentes agudos e suas garras sedentas por mais uma vítima, me encolho e penso se não seria melhor fugir dela ao invés de ficar enfrentando-a assim, de peito aberto e olhar inocente.
Mas a idéia de que serei mais um morto vivo a engrossar as fileiras de cadáveres ambulantes me perturba por demais. Me parece mais trágico viver assim que o próprio suicídio, esse pelo menos deixa as coisas mais definidas. Preto no branco.
Vou seguindo na ânsia de existir de fato, não apenas na teoria. Luto pela vida, não porque respiro mas por saber que viver de verdade vai além de ter seu corpo ainda quente e a capacidade de se mover pela casa. Viver exige de nós entrar em uma luta sangrenta, dia após dia, de quem encontrou sentido na caminhada e não irá arredar o pé da trilha até o momento que o corpo, esse objeto fadado ao fracasso, não aguentar mais seguir o espírito, esse sim precisa estar sempre vivo e saudável para ainda enfrentar a eternidade. A coisa vai longe gente.
Pois me parece que viver é privilégio daqueles que erguem-se a despeito do seu medo e enfrentam a vida com o desejo insano de conquistá-la para si. São aqueles que aceitam a dor e a alegria como faces da mesma moeda e vivem-nas intensamente pois descobriram o segredo que fazem seu coração pulsar de verdade: ‘não se pode ter paz negando a vida!’.
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