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Dizem especialistas que o mal do século é a depressão.
Mas eles estão confundindo sintoma com causa.
Acho mesmo que o mal a ser curado, neste, nos séculos que foram e que virão, é a danada da solidão.
Essa doença por bem pouco não tem cura, mas tem. Basta saber a fórmula certa seguida do tratamento adequado.
Pois não é preciso ser doutor ou cientista pra saber que solidão se cura a moda antiga, do jeito que meus avós faziam lá na roça.
É só diferenciar os tipos e saber remediar.
Tem a solidão clássica, que ataca do mesmo jeito que gripe, a rodo. Essa é viral.
Muito comum nos centros urbanos, mais cedo ou mais tarde você pega uma. E ela volta com força total no inverno seco ou em momentos de ressaca, depois da farra.
Pois o vírus sorrateiro ataca na ilusão dos que, imersos em meio a multidão e barulho pensam estar imunes.
Para curar basta trocar a uso continuo de vários amigos por dois ou três de verdade. Ao invés de se alimentar de muvucas, baladas e cruzeiros, faça caminhadas ao lado de gente que você não precisa fingir ou impressionar. Convide-os para jantar e deixe que a conversa solta se aprofunde. Vai descobrir que menos é mais.
Troque horas de chat online nas redes sociais por alguns momentos de ‘face to face’, num coffee shop, entardecer ao longo da praia ou mesmo naquela estação antiga de trem.
Quando der por si, em meio ao caos urbano epidêmico, você já estará curado. Já não pega esse tipo de solidão.
Tem aquele outro tipo dos que anseiam por beijos, abraços, amassos e afins. Ai que difícil noite após noite de cama vazia e falta de afeto.
A solidão de assistir tantos e tantos conhecidos chegando sarados, lindos e saudáveis ao pé do altar e você sequer consegue dividir um cinema e pipoca com alguém.
Quanto mais os anos passam, mais difícil fica tratar esse tipo de solidão.
Ela vai apertando o peito e destruindo o sistema da auto-estima. O adoentado vai diminuindo de tamanho, fica desesperançado. Sofre de delírios de inferioridade e apresenta uma idéia fixa de que precisa urgentemente de alguém que o salve de seu isolamento. Perde sua capacidade de alegria e conexão. Consigo e com o mundo.
Os impacientes tentam curá-la com analgésicos e anti-alérgicos que prometem alívio imediato. Sexo fácil, relacionamentos casuais e envolvimento com o primeiro maluco ou doida dispostos a também se livrar desse mal indesejável. Mas ao invés de curar, esses comprimidos milagrosos aliviam momentaneamente os sintomas pra na seqüência deixar o paciente ainda mais debilitado e incapaz de ser tratado.
Esse tipo de solidão é bem perigoso e já fez muitas vítimas fatais. Mas ainda pode ser curada caso o doente escolha prevenir ao invés de remediar.
Alimentar-se de princípios, construir amizades com gente desencanada e livre e aprender que antes sofrer de solidão do que sofrer doenças muito mais graves como decepção, mágoa e rejeição. E não se fazer de rogado ou exigente demais quando encontrar alguém que vale pelo que é e não pelo que aparenta ser ou pelo que possui.
E o que antes parecia caso de gente desenganada se torna mais uma caminhada até o altar. Ou no mínimo, um caso de solterice muito bem resolvida, obrigado! É mais um felizardo curado desse tipo de solidão.
Mas não tem, em minha singela opinião, solidão pior do que aquela que enfrenta noiva, idoso, criança ou patrão. Essa aflige tudo que é ser humano e não escolhe idade, sexo, estação ou classe social.
É a solidão experimentada por ser muito difícil encontrar um doador compatível para receberem deste ouvidos e atenção. Os enfermos desse tipo sofrem sozinhos pois estão condenados a guardar para si seus sonhos mais malucos, seus desejos sublimados, suas ânsias por viver outra história, outros horizontes. Vão maquiando aquilo que realmente são.
E por fingirem, seguem sozinhos cercados de tanta gente que por vezes também sofre do mesmo tipo grave de solidão. Mas se calam.
Essa cresce silenciosa, sorrateira, desenvolve aos poucos até que o doente, para ser curado, só mesmo encontrando esse tipo de doador em extinção.
Se nosso sangue e alma fosse diferente. Se fossemos conscientes de nossa terrível condição, seria fácil terminar com essa solidão pois seu tratamento se encontra ao alcance de um abraço e um coração disposto a ouvir sem julgar, a acolher sem condenar.
Assim vão seguindo em silêncio os que sofrem desse tipo grave de solidão.
Sorrir e mentir a dor é a única opção para quem está ciente de que o trato para esse mal pode até existir, mas a fila é longa e os doadores estão cada dia mais raros de se encontrar.

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Todo mundo sabe que a primeira vez é sempre inesquecível, seja pelo assombro de experimentar algo novo, uma nova emoção ou por ter vivido uma experiência assustadora. De qualquer forma, saímos dela diferentes e por vezes transformados para sempre.
O primeiro beijo, a primeira experiência sexual, a primeira vez que vemos o mar, o primeiro diploma, o primeiro emprego, o primeiro filho. A lista é interminável.
Por isso as crianças vivem em constante estado de assombro e euforia, elas estão tendo um volume alto de primeiras vezes diariamente. Infelizmente quando atingimos a maturidade já não nos encantamos mais, uma porque as primeiras vezes vão ficando mais raras de acontecer e quando acontecem, por estarmos anestesiados demais com nossa vida rotineira e monótona, nem reconhecemos mais o assombro que a vida oferece.
Fazer intercâmbio oferece muitas vantagens competitivas de mercado: aprender uma novo cultura, um nova língua, ampliar suas perspectivas profissionais e fazer um network internacional. Mas nada se compara com algo maravilhoso que acontece quando você deixa seu país e se aventura além das fronteiras. Você vivencia, em um volume quase absurdo, muitas primeiras vezes e pode voltar a se sentir como uma criança que está conhecendo o mundo ao seu redor com olhos novos. Vou listar aqui apenas cinco ‘primeiras vezes’ que uma viagem dessas nos proporciona, mas elas são tão incontáveis que fica difícil até selecioná-las.

1 – O primeiro mico

Acredite, micos virarão rotina quando você se aventura por terras estrangeiras. Meus micos começaram antes mesmo de eu pisar no país de destino. Mas como esquecer o primeiro mico que estava mais para King Kong. Após muitas refeições a bordo e horas intermináveis de vôo, cheguei travado do intestino. Até esqueci que não tinha ido ao banheiro por dois dias, e quando o intestino resolveu ‘funcionar’, eu estava explorando o centro da cidade como um turista feliz, sem a menor ideia de onde encontraria um banheiro público (existiria isso por aqui?). Tentei voltar para a casa onde fui recebido apenas um dia antes, torcendo para aguentar o tranco até o banheiro mais próximo. Não aguentei…e pela primeira vez fiz nas calças. E claro, minha housemate estava em casa e me recebeu com um olhar de espanto. Só pude expressar com meu inglês deficiente…’That shame!’. Achei que não sobreviveria a esse primeiro e definitivo mico. Mas sobrevivi e isso me fez perceber que, se passei pelo teste do mico gigante, poderia enfrentar qualquer situação.

2 – O primeiro ônibus, trem ou ferry

Parece bobo demais, mas entender sozinho como funciona o transporte público de outro país e usá-lo pela primeira vez provoca em você reações parecidas com aquelas que você teve quando sua mãe te levou para passear de trem ou ônibus pela primeira vez. Todos ao redor com aquela cara de segunda feira e você feliz da vida, tirando fotos e esticando o pescoço na janela, como se estivesse viajando em um trem bala ou pelo leito do rio Sena. E se a cidade tem ferry boat como meio de transporte então… Segura sua empolgação. A experiência é única!

3 – O primeiro emprego

Você pode ter sido CEO de grandes empresas em seu país, professor de universidade ou como eu, ator que já havia se apresentado para muitas platéias e nos mais diversos lugares. Mas procurar emprego enquanto você está aprendendo a língua ou trabalhar com gente te dando ordens que você mal consegue entender e clientes fazendo pedidos incompreensíveis vão fazer você gelar como um pré-adolescente em seu primeiro emprego. Mas a sensação de ser elogiado ou mesmo promovido em um emprego overseas é inesquecível. Você entende que, se consegue ser um garçom, atendente de loja, cleaner ou mesmo motorista de táxi em terras estrangeiras, você está pronto para encarar o que for em seu país.

4 – A primeira discussão, apresentação ou poesia

Fazer apresentações escolares ou em reuniões de trabalho pela primeira vez já é apavorante se você está usando sua língua nativa, imagine fazer isso em uma língua onde as palavras somem quando querem e formar frases inteiras corretamente é uma proeza poucas vezes conseguida. E brigar com aquele flatmate folgado ou fazer reclamações pelo telefone. Tudo parece tão difícil que quando você consegue pela primeira vez o sentimento é de quase ter se transformado em um agente especial da CIA ou do FBI, pronto para qualquer missão Internacional. Para os poetas de plantão, escrever seus primeiros versos em outra língua, mesmo que o resultado seja inferior a qualquer aluno da pré-escola, traz um sentimento de ser capaz de produzir arte em qualquer canto do mundo.

5 – O primeiro amigo(a) ou namorado(a)

Termino a lista com relacionamentos, o que para mim me parece a mais impactante primeira vez, seja em seu país e muito mais ainda em terras estrangeiras. Quando você começa a articular bem a língua a ponto de expressar suas emoções e sentimentos para outra pessoa, você começa a se arriscar a fazer amigos ou ter namorados(as) com os backgrounds mais distintos e culturas extremamente diferentes da sua. Fiz amigos colombianos, coreanos, australianos, kiwis e atualmente gente da Índia e Sri-Lanka. Abraçá-los quando as despedidas se fazem necessárias e sentir aquele aperto no coração do mesmo jeito que você sentiu quando deixou sua família é uma emoção cruel mas ao mesmo tempo nos faz perceber que pela primeira vez entendemos algo que antes só víamos nos vídeos clipes do Michael Jackson, a amizade e o amor é aquilo que nos define e nos conecta como seres humanos. Descobrir isso pela primeira vez não tem preço.

Sky tower - Auckland city

Compartilhe aqui também as suas experiências vividas em seu intercâmbio. Será bom demais saber o que você tem vivido pela primeira vez.

Divertido e revelador. Orgulho desse meu amigo que pode exercer diversas funções, mas escritor certamente é a que revela quem ele realmente é!

Correndo atrás do vento

Sei que tenho comparecido muito pouco a esse espaço ultimamente, mas o fato é que, de uns tempos pra cá, tenho sofrido com a falta de momentos para escrever. Não é ausência de tempo o problema. Esse sempre faltou. E mesmo escasso – como imagino que é para todo mundo – nunca me impediu de colocar algumas ideias no papel de vez em quando (menos do que eu gostaria, é verdade, mas muito mais do que a minha falta de talento deveria limitar).

Também não é a inspiração que sumiu. A Manú está grávida de mais uma menininha – e quem já frequentou essas páginas sabe o que isso significa para mim em termos de prolixitude -, viajamos recentemente para um lugar maravilhoso, a Nina cresce e nos surpreende diariamente. Várias são as fontes de novas ideias que não me deixam reclamar.

O ponto, no duro, é a falta daqueles…

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Foi num lampejo que perdi o status que me elevava a ser humano especial e único.
Acenderam a luz por mim. Virei comum, fiquei normal.
Quando eu era especial tinham pessoas ao meu redor o tempo todo, me pedindo, exigindo coisas, me bajulando, esperando um pouco de atenção. E eu decidia, especial que era, quem atenderia e quem rejeitaria.
Quando eu era especial urgia salvar o mundo com a força de minhas idéias e o labor das minhas mãos. Sabia que não faria o serviço sozinho, me juntaria a outros, igualmente seletos e especiais como eu, para cumprir a missão.
Vidas seriam tocadas e transformadas pela minha bondade. Pessoas ficariam inspiradas pelo meu exemplo. Afinal ser especial tem lá suas responsabilidades.
Quando eu era especial não havia um trabalho, de administrador a artista, professor a bancário, que eu não realizava com maestria e por causa deles recebia sempre elogios e louvores. Claro, eu era especial e jamais me daria o luxo de ser medíocre.
Quando eu era especial tinha afeto e admiração até da minha família. E se minha família, que me conhece profundamente, sente admiração por mim, é porque eu realmente era especial.
Foi crescendo dentro de mim a certeza de que ser especial dispensa glacês e perfumarias. Vive só de essências os seres especiais. Pois foi então que decidi, especial que era, a seguir caminhos de sacrifício, simplicidade e beleza.
Não trabalharia para alimentar a roda da injustiça. Não dispensaria um minuto sequer da minha vida especial para ajudar empresas a ter seu lucro exagerado.
Era especial, com uma missão. Nasci para cumprir um propósito único e grandioso.
Deixei profissão e futuro promissor. Fui me embrenhando na trilha dos que são especiais e valentes, que enfrentam o sistema e cumprem seu destino de gente especial.
Troquei duas, três, sete vezes de serviço. Nenhum era tão especial para que neles eu me detivesse. A insatisfação segue a rondar o peito dos inquietos que não descansam… São especiais, não tem tempo para preguiças, medos ou comodismos.
E de tão especial que era, não suportava mais os limites culturais do meu país, dos que me cercavam. Difícil conviver com quem não é especial. Precisava viajar. Expandir fronteiras. Mudar de ares, encontrar gente diferente, sei lá, digamos mais…especiais.
Mudei de país, convivi com outra cultura, aprendi outra língua, encontrei amigos de todo o mundo. Sim, isso combinava mais com meu estilo um tanto especial.
Tinha certeza, especial que eu era em minha terra, seria especial em qualquer lugar do planeta. Bem sucedido em questão de minutos.
Mudei de país novamente, já que alguém especial como eu não sabe bem o que significa limites, barreiras ou estabilidades.
E de tanto ser especial, descobri como num lampejo de gênio, privilégio apenas daqueles que são especiais… Eu nunca fui especial. E tudo indica que nunca serei.
Só alguém comum e sem muita inteligência como eu acredita mesmo ser especial.
Gente comum como eu sonha em dia ser muito especial. Ou pensa que já nasceu assim.
Encabeça projetos malucos, desafia os padrões, tem visões grandiosas, inspira os desenformados. Tudo em nome de um chamado tolo e fútil: ser especial.
Gente que por possuir apenas dois olhos, acaba míope ou cego de vez. Enxerga o mundo pequeno demais e nele até mesmo eu posso ser especial.
Gente que acredita de pé junto que é protagonista principal de uma história épica.
Ator principal de um longa metragem que dá origem a maior série de sucesso de todos os tempos. Onde ali você é especial e o mundo acontece ao redor de seu umbigo.
Gente que vive na certeza de que seu destino foi escrito nas estrelas e por mais que sofra e precise batalhar pela vida, tudo isso são apenas capítulos da saga, que se encaminham para o grand finale… Que será demais de especial.
Gente que acredita que escrever e declarar-se comum também é uma forma de se achar especial. Enganando-se a si mesmo ao assumir-se comum na esperança de ao fazer isso, seja por assim dizer, um pouquinho especial.
Gente que corre muito para realizar grandes feitos, resignificar seu universo interior, fazer terapia para se encontrar, tudo isso por medo de aceitar de uma vez por todas: não, eu não sou especial.
Você também não é, nem o Brad Pitt ou Madonna são.
Se ainda existe nesse mundo algo especial, isso não vem de mim nem de você. Vem daquilo que acontece entre nós quando resolvemos deixar de lado nossas vidas mega especiais e olhar para o outro. E finalmente enxergarmos.
Porque especial mesmo é só aquilo que pode nascer no intervalo que existe entre eu e você.
Algo que criaremos juntos ao nos conectarmos de verdade, livres da tolice de sermos especiais.
Só então existirá condições de surgir algo que seja verdadeiramente especial.
O resto sou eu e você gastando tempo tentando ser especial.

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A Felicidade anda me rondando. Juro para você!
Ela pensa que já não percebi seus olhos gulosos pra cima de mim.
Manda mensagens, cochicha meu nome, jura-me amor eterno.
Depois desmente. Posa de indecisa e pede um tempo.
Diz que estava bêbada, que não está mais afim. Quer mesmo é me confundir.
Por vezes parece enamorada de outros, mas pelo jeito
ela está mesmo é de olho em mim.
Anda me provocando com seu corpo malhado e sorriso largo.
Sem vergonha que é faz de tudo para me seduzir.
Já lhe disse que não sou seu tipo, mas ela não se importa.
Porque seduz muitos, pensa que também serei alvo fácil.
Mas ela não me engana. Sei que nunca foi fiel a ninguém.
Prefiro mesmo outros amores. Com eles celebro a vida sem sobressaltos ou tropeços.
Me amarro na Tristeza. Não é bonita. Ninguém gosta muito dela. Pois eu não tenho uma queixa sequer. Desde minha infância somos amigos. Ao seu lado sou sereno e me enxergo como realmente sou. Nos crepúsculos e nas noites escuras é ela, conselheira fiel, que vai comigo.
Quando viajo pelas trilhas desse mundo gosto mesmo e de ter a Solidão como companhia. Quantos evitam-na a todo custo. Atravessam a rua, viram a cara. Compram programas de TV, wi-fi e pacotes turísticos. Seguem em multidões para shopping centers, praias lotadas e baladas. Agarram-se ao barulho do jeito que podem. Tudo para não encará-la. Desprezam-na desesperadamente.
Mas perdem o melhor que a Solidão gentilmente nos oferece. Descobrir o prazer de caminhar em silêncio pelas estradas desertas e nelas saber que nunca estamos sozinhos. É ela, essa companheira pra todas as horas, que me ensina a nunca desperdiçar um momento sequer de comunhão.
E tem a Alegria. Ah, a Alegria! Com essa sim eu noivaria, casaria, cozinharia e faria todas as bodas possíveis. Mas ela é demais pro meu bico. Aparece vez por vez quando eu menos espero. Estar com ela é reconhecer que temos tudo, nada mais nos falta.
Mas ela é livre e só vem quando quer. Quando se vai, deixa seu perfume para me consolar. Assim vivo sempre esperando sua próxima visita.
Tem ainda a Liberdade, mais alta que eu, me provoca calafrios só de pensar nela. Eita partidão! Tem que ser muito homem para beijá-la. Poucos tiveram coragem.
A Dúvida que me convida para cafés e conversas nas tardes frias. A Esperança que surge sempre na hora H, quando todas as alternativas se esgotaram.
Sou tão grato por todas elas. Amo-as e por elas serei sempre um fã devoto e apaixonado.
Mas o que tenho eu com essa tal Felicidade?
Que outros a persigam. Que lhe façam promessas e que trabalhem a vida toda para conquistá-la. Que gastem seus dias, suas horas e dólares para tê-la por perto.
Se ela pensa que cairei no seu papo furado, está enganada.
Que continue tentando ter minha atenção.
Se quiser podemos até ser amigos. Passearemos no parque aos domingos e assistiremos alguns filmes juntos.
Mas meu coração, nem adianta. Esse já tem dono.
E eu não sou besta de cair no seu papo furado para descobrir no fim da vida que ela nunca me amou.
Só queria mesmo é ter minha atenção.

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Status Quo

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Há tempos que meu caminho é feito de palavras e sonhos
Meu saldo bancário são as trilhas e memórias que carrego na mochila
E meu lar, refúgio essencial, é a presença invisível daqueles que me habitam
Por isso não me desespera becos sem saída nem quando a realidade me assalta
Faço as pazes com a ausência de bens, lanço fora a ânsia de ser bem sucedido
E sigo caminhando só, sem jamais experimentar solidão.

Bagagens

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Há sempre algo que carregamos conosco pela estrada. Até mesmo os mais desapegados viajantes possuem ao menos uma mochila em suas costas. Ninguém é totalmente livre. Sobram bagagens e fardos para todos.
Há aqueles que carregam casa, jóias, carros, carreira, diplomas e saldos bancários. Quanto mais cacarecos, mais difícil de carregá-los.
Há os que carregam filhos, netos, bisnetos e por vezes sobra algum espaço para levar o cônjuge também. Os mais ambiciosos carregam primos, tios e avós. Almoços de domingo, ceias de Natal, viagens em família. Esse sempre é um pacote pesadíssimo, mas que reserva momentos únicos de alegrias, dramas e fotos de tirar lágrimas dos mais insensíveis.
Há também os que carregam experiências e histórias. A escalada daquele pico nevado, a onda perfeita, a trilha realizada entre lagos de algum país remoto da Oceania ou anos gastos atravessando o mundo para trazer nas costas uma bagagem cheia de aventuras, conquistas e memórias.
Outros seguem dançando. Estes carregam só sonhos e poesia. São os moradores da rua, sem-teto por opção pois amam as estrelas. Não passam fome pois estão cheios de simplicidade e beleza em seus ventres.
Há ainda aqueles que só carregam a si mesmos e sua ânsia de que o mundo todo os carreguem nas costas. Deus ajude a me livrar dessa bagagem! Egos são cargas pesadas demais.
Pois como disse o mestre, ‘onde está o seu tesouro aí também estará seu coração.’ Eu diria: mostre-me o que carregas e eu te direi quem és.
Pois eu carrego vazios. Dirão ser uma carga fácil de se transportar. Os vazios não pesam, não tem substância, não fazem o corpo gemer.
Pois é exatamente o contrário. Carregar vazios é ter que administrar todas as bagagens e cacarecos que as pessoas costumam levar, só que ao contrário. Tudo do inverso, ao avesso.
Sobre meus ombros, o peso de todas as coisas que abdiquei. As carreiras que deixei de investir, o dinheiro que não persegui, as casas que não comprei, os cartões de credito que joguei no lixo.
Levo em meus braços, apertado ao meu peito, os filhos que nunca existirão, os pais que um dia cuidaram de mim e agora já não podem mais, os amigos e irmãos que foram ficando no caminho.
Levo na memória as pessoas raras das quais experimentei comunhão. Encontros que me fizeram compreender que a solidão não é assim tão assustadora, mas que agora deixaram esse rastro dolorido da saudade em meu peito.
Sobre minha cabeça pesa-me a carga de todas as experiências sonhadas e não vividas. Os lugares que ainda não pisei e os mares que não naveguei. Possibilidades e sonhos infinitos, quem suporta te-los em sua mochila?
Me verão caminhando sem nada e dirão: ele é livre, não tem bagagens para carregar. E deixarão de notar aquilo que só vemos com o coração: que este vazio que cala fundo em nossa alma é a carga mais difícil de se carregar.