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Archive for the ‘Poesia’ Category

Andy morreu essa manhã.
Ontem à noite ele ainda murmurava estranho, grave, doido.
Não se movia, só se ouvia o gemido.
Pela manhã, luz amena, seu corpo parecia menor.
Sua cabeça largada no piso e seu pescoço torcido
parecia que o mundo é que pendia pro lado.
O dia era uma mistura de neblina e chuva grossa.
Combinação inusitada.
E calma cinza. Quase reverência. Quase que pausa.
Ele, apenas um bode que estava ficando velho demais.
Minha razão me acusava de falsário ao detectar um lamento honesto.
Como posso eu me comover com a morte de um bode?
Se tantos bois, e frangos, e porcos são abatidos
e deles faço refeição, ovo virado, feijoada e bife suculento no prato.
A razão, essa que nos acusa, também nos salva.
De sofrer a morte de bodes e passarinhos…
De prantear inutilmente o corpo de refugiados afogados…
Ou crianças famintas de um país qualquer da África.
Que morrem em números. Milhares. Diariamente.
Que tornam notícia de jornal e servem apenas como distração,
de nossa miséria herdada.
Seja eu pois racional e coerente,
com o resto do povo que vive como quem pisa em solo sagrado.
Mascando chiclete, fone de ouvido, celular grudado.
Só que hoje, estranho
tive essa sensação, quase mística
de que quando Andy suspirou pela última vez
a terra gemeu em luto.
E a chuva que caía, era na verdade lágrima
que molhava seu pelo negro para prepará-lo
solenemente,
mãos cuidadosas,
para seu funeral.
Porque todo primeiro suspiro é um milagre.
E fere o universo inteiro, quando pois cessado.
E não importa se emotivo notamos
ou seguimos anestesiados.
Árvores e vento.
Ovelhas e lagos,
fizeram silêncio para reverenciar Andy.
O bode que morreu hoje
nessa manhã de chuva grossa e neblina.

foggy day

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Ah se a vida fosse receita de bolo

equação matemática ou manual de TV

Um mais um

Meio copo de açúcar

Cabo vermelho no conector mostarda

E a coisa vem assim mesmo

do jeitinho que você esperava

Se fizer assim dará cebola

e se regar ao fim do dia, tomate e alfafa

Se para direita noventa graus

e esquerda quarenta e cinco

o resultado será batata.

Mas a receita e a fórmula

a tabela e o conselho do tia Maria

Tudo perde força e sentido

Quando a vida, astuta e imprevisível

nos surpreende, nos suspende e nos maltrata

Um filho que nunca se enquadra

no quadrado sistema escolar

e o mosquito que aparece do nada e assusta até macaco

Um surto de gripe asiática

E um tufão raro com nome de menina

Deixa a gente assim

Desabrigado de certezas

Sem teto e sem firmezas.

Mas não me disseram que se plantar feijão vai ter feijoada?

Mas quem foi que previu a geada?

Por isso mesmo

esquece aquilo tudo que um dia alimentou

seu sonho de respostas fáceis

De que pra tudo existe uma dica mágica

Para cada relacionamento uma terapia

E cada pessoa uma determinada caixa

Pratica pois

com sapatilha gasta e sombrinha

A arte de caminhar na corda que bamba

No fio da navalha afiada

Na linha tênue que separa

o que é, o que era

e o que já virou piada

E pensa que hoje é mais para esquerda

Amanhã corpo um pouquinho pro lado

E direita na sexta pra fechar o saldo

E neste balanço que seu corpo

Flexível, leve e solto faz

ao caminhar nessa trilha instável

Quem sabe um dia descubra surpreso

Que não apenas vive, luta e caminha

mas dança

belo, vivo, intenso

enquanto segue a estrada.

jumping

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Quando a coisa fica feia tudo que era grande fica miúdo
As contas a pagar
O teste de direção
A vizinha implicante
Ou a última discussão do domingo passado
Tudo perde cor e peso
Mágoas
Prazos
Medos e precauções
Resta apenas a clara percepção daquilo que ainda nos sustenta

Quando a coisa fica feia o que era firme qual rocha se esvai como poeira
Nem teologias ou certificados
Promessas ou batizados
O que era sólido evapora em segundos
Restam-nos aquelas coisas frágeis
Uma prece sem palavras
Luz de uma vela
Bolha de sabão
Brisa em dias de verão
Para manter acesa nossa última esperança

Quando a coisa fica feia os inimigos se tornam irmãos
Abraçamos o médico plantonista
E confidenciamos nosso maior segredo para o desconhecido no avião
Não há mais preto, branco, azul ou amarelo
Judeu ou grego
Gay ou hétero
Estagiário ou patrão
Todos sofremos quietos
Juntos e iguais
As razões que antes regiam nossa vontade
Desaparecem
Pois quando a coisa fica feia
Sabemos ser esse grão de areia
Essa pluma ao vento
Frágil e insignificante
E nos resta apenas
A despeito do abismo que se abre diante de nossos corpos falíveis
Enxergar o essencial
E nele quase que desvendar
Aquele mistério que rege a vida.

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Advento 1

Enquanto esperamos, esperamos assim…
Invisíveis. Quietos e cansados.
Segurando em nossas mãos rústicas uma frágil esperança…
De que essa ordem rígida que nos esmaga e despreza um dia será invertida.
De que o reino que ansiamos um dia nos pertencerá. E nos pertenceremos.
Os velhos sonharão novos sonhos.
Os últimos serão finalmente notados.
O pequeno será de todos o mais sábio.
E uma criança nos conduzirá pela mão…
Para um lugar nascido de novo,
onde não mais haverão coroas, espadas ou títulos…
…mas somente irmãos.

Advento 2

Esses muros e espinhos, se olharmos com franqueza…
Esses muros e espinhos são nossos.
Não estão fora como obstáculos a serem transpostos e esquecidos.
Nos pertencem. Nos constituem. Nos doem diariamente.
Mas vou negando suas existências com medo de expor cicatrizes.
Porém o justo viverá pela fé.
Fé de que os mesmos dramas, deficiências e incapacidades que nos afligem serão chave para nossa completa libertação.
Se com olhos valentes pudermos finalmente enxergar quem somos…lá bem fundo.
E anunciarmos nossas misérias e dores como quem convida amigos para um banquete.
Então poderemos sorrir aliviados. E celebrar!
Vulneráveis e belos como são os pássaros caídos de seus ninhos.
Fortes e calmos como envelhecem as árvores fortes.
Pois quando sou fraco, eis que então posso ser recipiente do mistério que não tem nome.

Advento 3

Aquilo que tenta nosso corpo, fugimos furiosamente ou nos entregamos. Pelos pecados da carne somos julgados e condenados. Afligidos ou realizados.
O corpo em evidência. Uma religião míope e manca.
Mas nem só de pão vive o homem a ser tentado.
Misérias maiores e silenciosas nos assolam.
Quando não enxergo o outro, somente meu rosto a se refletir em tudo que toco.
Quando sedento por atenção manipulo e ameaço.
Quando me desespero ao compreender que o destino de todos é um dia desaparecer.
Quando finalmente entrego minha alma para que, mesmo que por um momento, outros se curvem diante de mim.
Espelho e queda. Não haverá redenção aos que só amam a si mesmos.
Mas são os quebrados, esquecidos e sujos que um dia serão consolados.
Aquele que serve nas cozinhas escondidas e os que cantam hinos tristes nos porões dos séculos.
Serão esses os únicos que verão a face das coisas altíssimas.
Pois não foram cegados pela própria imagem.

Advento 4

Não mais profissões, títulos ou especializações.
Descartar a placa de doutor fixa na porta do consultório. E o cargo que me concede privilégios.
E o cartão VIP da sala de embarque.
E meu nome. Não amá-lo ou nele colocar minhas esperanças.
Mas antes a ousada caminhada de abdicar…
Das importâncias e aplausos…
Do meu rosto na capa do livro…
E do meu nome cravado na pedra.
Vamos! Esqueça-te!
E deixe-te guiar-se pelas estrelas que são infinitas.
E quem sabe uma delas te mostrará o destino.
Uma criança.
O mistério sem fim.

Advento 5

O dia comum vai exigindo atenção redobrada.
A lista do supermercado.
Roupas e lençóis a serem lavados.
Os planos a serem feitos pra semana.
Uma visita inesperada. O café com leite e torrada.
A comida do gato que insiste em destruir o sofá.
E aos poucos vamos esquecendo as luzes, as canções de outros tempos, o amigo secreto.
A euforia dos feriados cheio de amigos e cunhados se transforma em ressaca sem álcool.
A rotina nos parece até um alívio.
E de tantas fotos e comida ingerida, pouco realmente nos resta.
Pouco, muito pouco é nascido em nós.
Voltamos como chegamos.
Somos os mesmos, só um pouco mais velhos e pesados.
A luz que ilumina noites escuras… essa estrela misteriosa não nos pertence.
E os lugares esquecidos a serem descobertos repousam fora do alcance de nossos olhos cansados.
O rosto da criança.
Um bebê que traz em si o mistério sem fim,
ainda espera, perdido em algum lugar, entre casebres pardos e rotinas.

Orua bay

 

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Aconteceu no dia que, meio a contra gosto, completei mais 365 dias desse calendário ingrato.
Acordei com a sensação de que o mundo é líquido. Cama, guarda-roupa, abajur. Tudo ao redor me pareceu frágil, irreal.
Foi então que notei, passarinho na janela cantando anunciava auroras.
A revelação caiu sobre mim como água de cascata.
Pesada, certeira, cruel…mas que deixa marcas na pele.
Os dias passam rápidos, as estações dançam em roda e os anos não são nossos.
A flor que hoje captada em sua beleza, desaparecerá.
Esses homens que caminham em silêncio, assim fazem por medo de revelarem suas almas. Vestem solidão como capa para proteger de tempestades.
Os que rezam terços e curas estão tentando forjar o mundo em suas caixinhas de jóias e manuais de sobrevivência.
Apressa-te pois não há muito tempo.
Eis o machado em sua mão direita para ferir a superfície de hipocrisia e trivialidades.
Leva também contigo água fresca e pão para alimentar-se apenas de simplicidade.
E cobre tua cabeça com poesia. Quem sabe um dia enxergará o Altíssimo.
E enquanto caminha, entrega-te sem reservas. Vai os poucos doando aos suplicantes aquilo que tanto segurou em tuas mãos.
Nunca negue um abraço.
Beija como quem cumpre a única lei necessária.
Nunca preguiçoso, se permita frívolo ou companheiro da moral envelhecida.
Que a verdade seja a única luz que ilumina seus passos.
E a bondade a vela que não te deixa no escuro.
Não precisará mais de unções, galardões ou paraísos celestes.
Tua salvação virá ao se desfazer pelo caminho.

car.jpg

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Aussie scars

When I did leave Margot I thought possible take back my body, intact
I brought arms, lips, chin and foot. Everything was checked,
all perfect, all the same to keep in my baggage
Legs and belly
Fingers, ears and neck
Smile to pretend normal, untouched
Clean and ready to restart the journey
But the sunshine was hard in the last moment. Shining and spreading your beauty.
Wide places, brown, red and yellow evidencing my sadness
The edges stayed behind showing that massive line, beaches and rivers
And finally the deep dark blue beyond
I wasn’t expecting to be fragmented
My pieces fallen on the ground, my peace disappeared in seconds
Signatures and signs were everywhere
Brands, symbols and impressions in my face
Indications, dots and types printed in my soul
I couldn’t hide the cross on my head
I tried to run away
But it was late
In my heart a deep scar’s mark
In my hours the Margot’s eyes
The sound of her voice
The memories of her hands did a shelter in my curves
And registered words and dreams
in my naked chest
My days marked forever
Cause this mark will everyday to remind me
My single destiny.

20140320-010748.jpg

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Ressoa longe um triste piado do pato
que desliza sozinho pelo lago verde musgo.
Lanço sobre ele angústias humanas,
invento historias sobre sua solidão.
Desenho com meu olhar contaminado o sofrimento do pato.
Agonizante rejeição ou a tortura da fome.
Padecer necessidades sabe ele muito bem.
Mas uma ave não sabe sofrer além de suas penas.
Sofre o que sofre, apenas o momento lhe pesa.
Sem passado para aprisionar sua alma
nem futuro para paralisar seu coração.
Aos humanos foi destinado padecer por coisas inexistentes.
Sentir o vento, ver brilhos de lua no lago,
amar as árvores e odiar o calor,
Como quem molda o tempo e os eventos
com mãos de oleiro e as dramatiza para suportar as horas.
O dia em que enxergar o mundo com olhos sãos,
e finalmente ver a brutal simplicidade da existência das coisas,
Então cessará dentro de mim a poesia e serei livre.
Deixarei este corpo, verbo forjado em carne perecível,
E caminharei descalço e silencioso
Como fazem os anjos.

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