Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Crônica’ Category

O termo ‘especial’ ou ‘deficiente’ vem sendo evitado devido nossa tentativa de ser politicamente correto. Hoje a definição mais aceita é pessoas portadoras de deficiência. Caso esteja desatualizado, por favor me corrijam.

Há alguns meses comecei a trabalhar em um centro de transição de jovens portadores de deficiência intelectual.  Autismo e atraso mental são os casos mais comuns. Tive o privilégio de passar a semana toda com eles em um acampamento de fim de ano. Nada fácil, mas gratificante.

Gastaria horas descrevendo todos os insights, traços de genialidade, criatividade, afetividade e brilhantismo que esses jovens possuem e esbanjam. Parecem personalizar aquilo que o apóstolo Paulo da bíblia chamava de tesouros em vasos de barro. Eles são de uma preciosidade única. Difícil de descrever suas peculiaridades mas tão palpável que em apenas um dia você percebe que ao conviver com eles está na verdade pisando em terreno sagrado.

Quando estou com eles sou desafiado e confrontado em minhas ‘idéias que já não correspondem aos fatos’. Me sinto um ser antiquado, quadrado, pobre e despreparado para enfrentar a beleza da diferença, da diversidade e do olhar inocente de quem está livre da ditadura de algumas normas sociais castradoras.

Alguns fatos porém provocam rupturas abruptas nessa minha mentalidade arcaica. Parecem talhar o solo duro de minhas convicções e finalmente esculpir algo mais belo e profundo nelas. Algo verdadeiro.

Dia desses eles foram convocados a preparar uma apresentação musical. Eu, que já trabalhei como ator, director, corista e dançarino em musicais, lamentava os gestos lentos e imprecisos deles e a dificuldade que os professores apresentavam em conduzir uma apresentação de qualidade. Mas então aconteceu. Olhando para uma garota em seus 15 anos tentei imaginar como seria seu rosto se ela fosse ‘normal’. Por um instante tentei ‘converter’ mentalmente as linhas esquisitas de sua feição em um rosto comum de uma garota adolescente. ‘Como ela seria linda se fosse normal!’ – pensei.

Mas esse momento me revelou algo surpreendente. Sou eu o maior portador de deficiências ao não enxergar beleza naquele rosto que foi formado à imagem do Criador. Eu que sou deficiente por manter um padrão medíocre e limitado de beleza e perfeição. Sou eu que não sou capaz de ver o divino naquele rosto que é certamente mais belo que qualquer face angelical.

Em um outro momento, no meio de uma aula de dança, eu estava focado em ajudar uma aluna que sofre de paralisia progressiva (doença que lentamente atinge a massa muscular até que a pessoa não consiga mais andar, se mover ou respirar) a mover seus braços e ombros ao som da música Despacito. Todos estavam admirados com sua empolgação e como ela se movia de forma constante. Sua alegria contagiou a sala e fomos presenteados com uma epifania. A fisioterapeuta impressionada com o fato me pediu que trabalhasse com a aluna diariamente.

Sai da aula em um misto de empolgação eufórica e desesperança. Pensei que por mais que eu planejasse aulas e estímulos, aprendesse técnicas terapêuticas e fosse capaz de motivar a aluna a não desistir de lutar contra sua condição, ela estará sempre destinada a morrer jovem e nenhum esforço fará muita diferença. É apenas questão de tempo. Por que mesmo investir energia tentando convencê-la do contrário?

Então mais uma talhada cavou fundo na minha alma árida. Lembrei que se a morte definisse a forma que vivemos, ninguém nesse mundo teria motivação para levantar de cama pela manhã. O que temos é o hoje. Todos nós. E dançar com minha aluna é transformar esse momento efêmero que nos foi dado em algo eterno. Algo que exercitará seus músculos e quem sabe esticará um pouco mais as bordas da minha alma demente.

Eles, eu e você temos apenas esse momento. Somos todos portadores de deficiências, sejam elas mentais, físicas, emocionais ou espirituais. Estamos todos destinados a uma paralisia que atinge nossos corpos e sonhos e que se não nos entregarmos ao som de ‘Despacito’ agora, iremos perder aquilo que nos define como seres humanos: transcender tudo aquilo que nos limita e castra. Celebrar a forma tão milagrosa com que fomos criados: únicos e perfeitos em nossas diferenças.

E se pudessemos entender essa nossa condição? Creio que julgaríamos menos e aceitaríamos mais as pessoas como elas são. Provavelmente largaríamos essa mania de tentar mudar o outro para que caibam dentro do nosso mundinho estreito e passaríamos a admirar suas qualidades únicas. Aquilo que nos define como indivíduos e que trazemos ao mundo para contribuir de alguma forma.

Dançaríamos mais e melhor com gente de pele escura, amarela, vermelha ou azul. Abraçaríamos nossos colegas de classe ao invés de massacrá-los por serem frágeis demais, gordos demais, efeminados demais, esquisitos ou quietos demais. Esqueceríamos essa ânsia em ser ‘normal’ ou seguir o padrão estabelecido e trabalharíamos para superar tão somente aquilo que nos impede de viver a potencialidade que já nos foi dada.

Ainda há pouco espaço em nossas salas de estar para aqueles que são diferentes. Eles aindam incomodam pois revelam a verdade que muitos – incluindo eu – não querem lidar: só existe um ser humano defeituoso ou doente, aquele que não aceita o outro como irmão, do jeito que ele é.

Minha esperança é que, ao conviver com esses alunos mais que especiais, eu possa ser, a despeito dessa minha deficiência e limitação, capaz de reconhecer neles o divino, sem expectativas de que sejam algo além do que foram criados para ser: um ser humano inigualável e portanto perfeito.

students camp

Anúncios

Read Full Post »

Enfim 40…enfim desisto…
Os quarenta finalmente chegaram e acreditem, passa rápido mesmo. Outros quarenta só por sorte ou benevolência dos céus. Portanto, ao que as estatísticas indicam, já passei faz tempo da metade do trajeto. Então sejamos francos e encaremos os fatos: está na hora de uma reavaliação urgente. Reunião de emergência a portas fechadas.

Se bateu a crise dos quarenta? Sim, mais isso quando eu estava nos trinta. Sempre sofri por antecipação. Agora constato num misto de resignação e alívio: chegou a hora de desistir.

Não se trata de desistir da vida. Desta desisto todas as manhãs quando sou forçado a acordar antes das sete. Mas ao meio dia já estou cheio de planos e idéias novamente.

Trata-se de desistir dos sonhos que nunca foram meus, de ilusões e expectativas alheias. Trata-se de enxergar os fatos com coragem, esvaziar a mochila dispensando os cacarecos que não usarei mesmo e seguir em frente mais leve, ciente que não se deve importar com o que nunca importou.

Antes de tudo, desisto de ser adulto. Juro para vocês que tentei. Me formei naqueles cursos que garantem emprego e carro zero. Tive emprego de gente grande e sim, um carro zero. Trabalhei com carteira assinada e namorava direitinho, com a meta de chegar ao altar como manda o figurino. Mas o que posso fazer se não tenho competência suficiente para exercer a vida adulta? Acusem-me de irresponsável e libertino. Logo eu que já nasci velho, carregado de memórias e saudades, agora aos quarenta o menino surge do nada, grita por espaço e não admite gaiolas nem terno e gravata. Segue correndo atrás das pipas e bolhas de sabão. 

Desisto portanto de ser bem sucedido. Isso não me pertence e dá muito trabalho. Aos quarenta, nem que quisesse. Já não tenho mais fôlego – lê-se saco – para carreiras e planos de negócio, e o mercado de trabalho é impetuoso com semi-idosos. Deixo para os ambiciosos que negociam suas almas em troca de troféus e jantares caros. Vou seguindo leve com pouco no bolso. Assim posso ir longe mesmo com a idade pesando em minhas costas. Há tanto ainda por conhecer. Tantas trilhas a serem exploradas. Tantos rostos, histórias e lugares a serem degustados que a idéia de gastar dias e meses entre as mesmas paredes chega me dar urtiga. Fiquei alérgico a estabilidade, salário fixo e salas sem rota de fuga. 

Desisto também dessa caça incessante pelo propósito maior da vida. Acho mesmo que imaginei coisas quando acreditei que fui criado para um destino singular que mudaria a face do mundo. Hoje estou ciente, não mudo nem mesmo essa mania de limpeza que beira a neurose crônica ou esse hábito irritante de escovar os dentes a cada meia hora. Ainda bem que minha irmã é pior que eu…fico mais tranquilo. Como diria a Roseli – aquela que também esqueceu de atingir a adultice – ‘é tudo fruto do meio’.

Desisto inclusive de encontrar o grande amor da minha vida. Soa triste, eu sei. Mas já superei. Nunca consegui lidar com expectativas e frustrações. Sou exagerado demais, não faço julgamentos sensatos. Acabo amando completamente e sem freios para dizer adeus em seguida. Correr atrás, nunca mais. Minhas pernas até que ainda são ligeiras mas estão apaixonadas por outros rumos. Se existe alguma grande história de amor reservada para mim, ela que venha atrás. Que saia à minha caça até me capturar. E eu não pretendo dar mole. Agora que sou um quarentão charmoso, vai ter que ralar para me conquistar. Aviso logo que não sou fácil.

E finalmente desisto de atender as expectativas, sonhos, desejos, intenções e decisões dos outros. Se tenho rugas, alguns raros cabelos brancos, bico de papagaio e dermatite atópica, tirando o desgaste resultante dos anos de uso, o resto é fruto dessa minha mania de agradar a galera. Era, já não é mais. Aos quarenta me dei carta de alforria. Não faço por má vontade nem para causar polêmica. Espero que me entendam. Só agora compreendi que a vida é uma só, décadas passam como se fossem meses e agradar as pessoas – vizinhos, amigos e inimigos – é correr atrás do vento e não chegar em lugar algum. Aos que me amam de verdade, e usam a desculpa de que ‘só querem o meu bem’, não me levem a mal. Erros e acertos fazem parte da jornada e eles serão meus. Sofram ou se alegrem, mas não esperem encontrar em mim um filhote domesticado. Sou quase um idoso e me dou ao direito, hoje e daqui para frente, de decidir por mim mesmo e escrever uma história com minhas próprias mãos. Não quero, ao final dos dias, culpá-los pela frustração de não ter sido o que sou, caminhado com minhas pernas e perseguido os sonhos que me pertencem. Ficamos melhor assim?

Enfim os quarenta chegaram. Mentir não vou, fácil não é digerir isso. Mas tudo pode ser ainda melhor nesse segundo tempo. Isso se eu tiver mesmo coragem de desistir desse padrão de super man maduro, estável, gordo e feliz pelos feitos realizados até aqui. Nunca estive tão vulnerável, inquieto e ansioso pelo que ainda está por vir. Experimento o assombro ao viver a vida em toda sua brutalidade e beleza. Sei que deveria conter-me no corpo rígido de um adulto em fase de estacionamento, mas minha alma ainda é leve e não consegue se manter no chão. 

Finalmente quarenta. Recebo-o com sorriso largo e cabeça cheia de sonhos. Eu que nasci velho vou me tornando menino. Minha sede é do que ainda não tem nome. É de vazios e esperanças que meu corpo está cheio, desejando loucamente pelo que ainda virá, como anseiam as crianças e os poetas por mais um dia, nascido de novo e carregado de possibilidades e lacunas a serem preenchidas com essa nossa insistência pela vida.

  

Read Full Post »

Dois anos em terras estrangeiras, volto pro Brasil mais alto e com cheiro de gringo segundo relato de alguns amigos. O orgulho entorpece nossa razão e faz a gente acreditar em coisas assim. Me fez crer também que não pertenço mais a esse país que só nos dá desgosto.
Eu que sempre militei contra a babação de ovo em cima do ‘american way of life’ e todo discurso burguês que denegria nossa pátria varonil, comecei a ceder. Dei lugar para expressões em inglês com sotaque britânico e espalhei olhares de reprovação e superioridade a todo sinal de não civilização. São Paulo tem desses aos montes.
Foi por bem pouco que quase rasgo minha cidadania e atiro tudo no lixo como prova de minha superioridade. Por bem pouco comecei a acreditar que o fato de falar outra língua, ter subido a Torre Eiffel, estudar política internacional e ser confundido com alemão uma ou duas vezes me elevaram definitivamente ao andar superior dos que romperam com suas raízes rústicas e mal cheirosas.
Por bem pouco acreditei que ouvir em silêncio os argumentos de gente desinformada, fruto de uma mente estreita e preconceituosa, era a melhor maneira de lhes mostrar o quanto sou iluminado e sábio. O quanto atingi o Nirvana social ao aprender com gente esclarecida e alva. Deixei de ser colônia, me tornei filho do império.
Por um triz não vesti o capuz da vergonha por ser brasileiro, de ter origens no terceiro ou quarto mundo, de ter nascido da união de nordestinos migrantes, de ter me formado em escola pública com merenda servida em prato de plástico azul e copo de leite fedido a azedo.
Foi por esse pouco que não acreditei na ideia de que nasci em solos brasileiros por acaso. Que estava mesmo destinado a viver em sociedades evoluídas, estilosas e de uma austeridade poética. Beleza, elegância e classe que me caem muito bem, obrigado.
Por muito, mas muito pouco mesmo não dou CURTIR em tudo que é artigo da rede defendendo como solução para gente nobre como eu uma saída a francesa, com títulos como: ‘porque não quero morar mais no Brasil’, ‘porque amo o Brasil mas odeio os brasileiros’ ou ainda ‘O Brasil não me merece mais’.
Por bem pouco comecei a acreditar que o fato de ter tido o privilégio de sair da caverna verde amarela e enxergar um pouco do mundo lá fora me faria voltar especial, selecionado para destinos grandiosos, cheio de luz e realeza que nunca mais me permitiria ser como os pobres mortais que outrora chamei de compatriotas.
Essa foi por pouco.
Motivos até que não me faltariam para pensar assim. Tenho ao meu favor o circo de impunidade, corrupção e ausência total de caráter do qual o PT, PSDB, PMDB e toda a corja de políticos bandidos e assassinos construíram na política nacional. Assisti-los em seus atos vergonhosos é motivo mais do que suficiente para declarar com toda razão: não há porque amar esse país.
Tenho também as frases e imagens de ódio e repudio divulgadas nas redes sociais, evangélicos contra gays, direitistas contra pequenos delinquentes, moralistas inseguros contra as novelas globais, LGBT’s contra a família tradicional. E todos contra a Dilma. Tarefa fácil declarar: quero mesmo é dar o fora dessa Zorra!
A despeito de todos os motivos válidos, da minha aura globalizada e transcendente e desse desejo de salvar a própria pele, ainda carrego uma convicção que me traz lucidez mesmo que tardia: nada é mais pobre e miserável em nossa cultura que essa idéia de que somos melhores que nossos irmãos. Que o país não nos merece. Que desistir é o único caminho razoável para o progresso pessoal e merecido.
A verdade é uma só: é nossa pátria varonil que não merece gente como eu que acredita ser melhor pelo fato de ter dólar na carteira que mal paga o café da manhã no Burger King. Gente que como eu vai pra Disney e se pergunta porque São Paulo não poderia ser assim.
Gente que como eu nunca moveu uma palha para mudar a nossa situação de desigualdade extrema mas se altera aos gritos a favor da diminuição da maioridade penal.
Gente que como eu, de tanto se achar melhor e mais cheirosa, nunca será capaz de ofertar a si mesmo para que algo belo possa ser produzido em nossos solos gentis.
É de gente como eu que nosso país deveria declarar: tenha a gentileza de sair pelo portão de vôos internacionais, você não merece ser brasileiro.
Ufa, ainda bem que foi por pouco.
image

Read Full Post »

Dizem as estatísticas recentes que suicídio é a segunda principal causa dos óbitos entre jovens no mundo, perdendo apenas para acidentes de trânsito. No Brasil é a terceira causa de mortandade entre jovens. Difícil de acreditar que esses números são reais. Parece-me uma grande tragédia tanta gente desistir da vida, geralmente na fase em que ela está só começando.
Eu mesmo já pensei algumas vezes nessa possibilidade. Pode parecer uma disfuncional e depressiva reflexão, mas para mim foi uma das melhores coisas que já fiz. ‘Morrer é possível’ foi a frase que emprestei de um filme e que ficou ecoando em minha mente, cavando espaço em minhas meditações diárias.
Papo mórbido que assusta muita gente. Mas uma coisa é certa…quem evita o sofrimento, a dor e a morte a todo custo acaba por evitar a vida, a alegria e a liberdade de escolhas tudo no mesmo pacote. ‘Não se pode ter paz negando a vida’…outra frase que peguei emprestada do filme ‘As horas’ do diretor Stephen Daldry e que me serve de mantra quando se faz necessário tomar decisões e rumos.
Suicídio intriga e assusta.  Depressão, mal do século, é apontada como um dos grandes vilões desse crime sem rosto. A comoção é geral e amigos e familiares ficam atônitos diante dessa decisão que normalmente é tomada em silêncio, na angústia de momentos solitários. Na falta de sentido para continuar a caminhada.
Pois eu não tenho nenhuma vocação para identificar suicidas em potenciais. Quisera eu ter, pelo menos poderia tentar evitar esses gestos últimos de desespero. Mas me foi dado um outro dom, parecido, o de identificar mortos-vivos. Esses se revelam para mim o tempo todo.
No filme ‘O sexto sentido’ do diretor M. Night Shyamalan, o personagem Cole, um garoto de 11 anos, era assombrado por ter um dom especial, a capacidade de ver e interagir com os mortos. A frase ‘I see dead people’ ficou famosa e até virou motivo de chacota nas redes sociais.
A pergunta que faço para o pobre garoto perseguido por defuntos é…e dai Cole que você vê gente morta? Eu vejo gente viva que já morreu o tempo todo e nem por isso fico chorando debaixo das cobertas.
Pois apesar dessas estatísticas alarmantes sobre suicídio defendo veementemente a idéia de que mais trágico e lamentável que o suicídio de fato é o suicídio da alma cometido por milhares de pessoas que se permitiram morrer em algum momento de suas vidas, mas esqueceram de se enterrar. E esses mortos-vivos estão em toda parte. São porteiros de prédio, tias viúvas, chefes de repartição pública ou mesmo alunos do ensino médio.
Mas como saber que alguém que anda e respira na verdade já morreu? Para mim é fácil…já lhe disse que tenho esse dom. Basta passar um tempo – alguns minutos são suficientes – e ficará clara a certidão de óbito previamente assimilada. Mortos vivos costumam falar do passado, as vezes décadas atrás, como se ainda fosse o presente. Citam pessoas e lugares que viveram em idos tempos como se isso tivesse acontecido ontem. Amarguras e conquistas de anos atrás são ainda os motivos de orgulho ou frustração que os fazem rastejar pelos dias afora. O momento presente não os comove mais. Agarram-se como podem ao que viveram um dia.
Mortos vivos repetem a frase ‘não tenho mais nada que esperar da vida’ e suas variações como um lema que os protege de ainda enfrentar as horas. Escapam da angústia de existir enterrando-se com a terra de suas desistências e medos.
Mortos vivos fogem de romances e relacionamentos como o diabo foge da cruz. Não suportam o pavor de serem vulneráveis, de ficarem atônitos diante do abismo assustador que é se entregar a uma história de amor. Preferem nunca experimentarem a beleza de se doarem a outro ser com medo da rejeição e do abandono.
Mortos vivos não sonham mais. Não olham para o futuro com lágrimas nos olhos. Não crêem mais que a esperança pode produzir milagres em suas almas já em estado de putrefação. Acham que os sonhadores são idiotas desajustados que precisam acordar (lê-se: virar zumbis como eles). Que aqueles que protestam contra as injustiças deveriam enxergar a realidade e voltar aos seus pijamas estampados de conformismo e negligência. Odeiam aqueles que decidem escrever suas próprias histórias acusando-os de serem egoístas patológicos que perturbam a ordem natural das coisas…que é morrer precocemente com medo de viver a vida.
Vejo-os o tempo todo em toda parte. São tantos que se fosse feita um pesquisa constatariam que essa causa mortis é a mais cruel e abrangente do que todas as demais juntas. Muito mais perigosa que dengue hemorrágica brasileira ou terremoto japonês.
Pois falo do perigo que é se tornar um morto vivo com propriedade de causa. Pois eu mesmo vivi anos arrastando meu cadáver nas costas para em troca receber conforto, aceitação e segurança de pertencer ao mundo dos mortos vivos. Ainda vivo sob essa ameaça do jeitinho que é retratado no seriado norte-americano ‘The Walking Dead’. Todas as vezes que a vida se levanta assustadora, com seus dentes agudos e suas garras sedentas por mais uma vítima, me encolho e penso se não seria melhor fugir dela ao invés de ficar enfrentando-a assim, de peito aberto e olhar inocente.
Mas a idéia de que serei mais um morto vivo a engrossar as fileiras de cadáveres ambulantes me perturba por demais. Me parece mais trágico viver assim que o próprio suicídio, esse pelo menos deixa as coisas mais definidas. Preto no branco.
Vou seguindo na ânsia de existir de fato, não apenas na teoria. Luto pela vida, não porque respiro mas por saber que viver de verdade vai além de ter seu corpo ainda quente e a capacidade de se mover pela casa. Viver exige de nós entrar em uma luta sangrenta, dia após dia, de quem encontrou sentido na caminhada e não irá arredar o pé da trilha até o momento que o corpo, esse objeto fadado ao fracasso, não aguentar mais seguir o espírito, esse sim precisa estar sempre vivo e saudável para ainda enfrentar a eternidade. A coisa vai longe gente.
Pois me parece que viver é privilégio daqueles que erguem-se a despeito do seu medo e enfrentam a vida com o desejo insano de conquistá-la para si. São aqueles que aceitam a dor e a alegria como faces da mesma moeda e vivem-nas intensamente pois descobriram o segredo que fazem seu coração pulsar de verdade: ‘não se pode ter paz negando a vida!’.
IMG_5547

Read Full Post »

Após algumas boas horas de um vôo interminável, quando só restava um trecho curto entre Santiago e São Paulo a ansiedade começou a gemer e dar trabalho. Não fosse o cansaço me nocautear estaria eu em constante estado de arritmia resultante da pergunta que não se cala: como será o retorno?
Pois os retornos em si mesmos são fáceis de executar. Para isso basta decidir voltar para o ponto de partida. Difícil mesmo é readaptar nosso ser, já de tamanhos e cores das mais distintas, à mesma caixa da qual saímos tempos atrás. E se fosse exatamente a mesma caixa, vai lá. Pelo menos saberíamos em que espaço devemos nos enfiar novamente. Mas não. Nos deparamos com caixas parecidas, mas sutilmente diferentes. Sutilezas que alteram e dificultam zerar a conta.
Inicia-se o processo árduo de conciliar o que sobrou de nós e que tamanho e forma tem esse lugar, essas pessoas, essa cidade que antes era tão familiar. A lembrança dos objetos, dos móveis da casa, agora mais gastos ou substituídos. O rosto dos nossos amigos e familiares que apresentam um pouco mais de cansaço, um pouco mais de tristeza, a algumas alegrias diferentes. Aqueles que partiram e que deixaram lacunas impossíveis de serem preenchidas. As ruas e casas tão acumuladas parecem disputar espaço entre si. A cidade, antes uma quarentona conservada, deixou de tingir seus cabelos grisalhos, está num desanimo só. Parece que desistiu da vida.
Eu tremo só de pensar que, na árdua tarefa de reconciliar espaços, sonhos e percepções, terei que dar conta de explicar aquilo que não entendo ainda: o porque mesmo regressando estamos sempre vivendo um novo momento, um novo lugar, novas as pessoas também. Sei que seria ótimo retomar a vida, conhecida e segura. Trazer eu, eu mesmo de volta, do jeitinho que parti. Mas se entendi algo ao caminhar fora das fronteiras que me protegeram por tanto tempo foi: quando se inicia uma jornada, os caminhos nunca mais serão os mesmos.
No terceiro dia de regresso, depois de anos de imunidade, pego uma virose. Febre vai e vem oscilando com meus pensamentos que outrora foram um pouco mais regulares. Não mais. Vou tentando administrar meu corpo, antes gasto e preparado para enfrentar leões e gigantes, agora confinado em um quarto confortável, envolto em segurança e parcialmente debilitado por um vírus de boas vindas. Quão difícil me parece viver as trivialidades quando se aprende a arte de se equilibrar sob abismos. Quão difícil é vestir dias normais quando se experimenta o assombro das tormentas inesperadas.
O que nos salva dessa interminável inadequação é o alívio de poder reviver as memórias, que antes eram bálsamo para dias difíceis, agora são oferecidas a cada momento. Gratuitas, disponíveis, quase passam despercebidas não fosse esse olhar já calejado de ausências. O café da tarde com bolo de fuba. As histórias do sobrinho em sua pré-adolescência. Os relatos de tios e primos. A conversa que nunca termina. A temperatura sempre aquecida dos pequenos cômodos do apartamento que revelam, este é o melhor lugar do mundo. Este é o nosso lar.
Poucas coisas restaram intactas desde a partida. O retorno nos revela algo que pode ser assustador. Não existe retorno, apenas uma nova etapa de nossa jornada. A estrada nos aguarda, aqui, acolá ou além. Não há como voltar ao ponto onde partimos. Ele não existe mais. Só nos resta seguirmos em frente, carregando os momentos vividos com aqueles que amamos, os únicos que ainda nos oferecem algo que jamais mudará ou desaparecerá, um lar onde poderemos sempre descansar dessa longa caminhada.
bike Kaio

Read Full Post »

Não me considero um viajante profissional, desses que fazem de sua vida uma eterna despedida. Tem como profissão desbravar lugares novos e exóticos e enchem de inveja os pobres coitados que acompanham suas andanças pelas fotos publicadas em redes sociais. Não, não sou desse tipo. Mas tenho arrumado e desarrumado minha mala um número suficiente de vezes para poder dizer…que falta uma estabilidade nos faz!
Veja bem companheiros, não estou reclamando…só compartilhando o quanto carregar sua vida toda em duas malas e não saber exatamente o próxima parada pode ser desconfortável e assustador, mesmo se você é um desses europeus backpackers. Que dirá para um brasileiro nascido em família tradicional com os dois pés no chão.
Me perguntarão…’Mas então tá nessa vida por que?’ Eis aí uma ótima questão que me faço de vez em vez, mais frequentemente quando o calo aperta. E para ser bastante honesto, não sei ao certo a resposta. Deveria, mas não sei ainda. Se você tiver algum palpite é mais do que bem vindo para me enviar.
Não sei, mas tenha lá minhas suposições… uma delas é… só assim tenho condições de entender certas coisas. Admiro aqueles que aprendem, crescem, são surpreendidos e vivem uma vida cheia de aventuras dentro de sua zona de conforto particular. Sendo embalados por dias mansos e ninados no colo confortável do planejamento prévio. Eu não… sou lento e teimoso demais para aprender desse jeito. Abismos metafóricos não me dão frio na barriga e aprender outra língua na segurança de uma classe de aula nunca funcionou pra mim. Eu preciso do solavanco abrupto da vida bruta para forçar-me a crescer. Só quando sobreviver é uma questão real que me ponho a lutar com garras, suor e lágrimas. 
Pois é assim que termino mais uma viagem…inteiro, pero no mucho. Corpo dolorido e a alma leve. Cabeça a mil, cheia de novos sonhos e coração aos pulos, imaginando aquilo que vem pela frente.
Foram meses que pareceram anos, anos que pareceram décadas. Fui esticado, dobrado, picado e remontado…tudo isso na base da porrada.
Pois só na base da porrada consegui conjugar corretamente o verbo To Be. Foi na base da porrada que aprendi mais três ou quatro profissões – sem contar as variações e especializações – para garantir o aluguel da próxima semana e o pão tostado de cada dia. Foi assim que deixei de lado minhas neuras por limpeza e fiquei em paz com banheiros sujos, louça suspeita e panos de prato encardidos.
Só assim compreendi minha insignificância, incompetência e o quanto posso ser bom em uma ou duas coisas…e terrivelmente incapaz de realizar todas as demais.
A muito custo fui forçado a lidar com quatro ou cinco culturas completamente diferentes em apenas uma escala de serviço. E quando a diversidade cultural já estava me dando nos nervos, tinha que dividir a cozinha com mais três flatmates vindos das mais diversas partes desse pequeno planeta.
E finalmente compreendi algo que suspeitava, mas tava relutando para aceitar…faço falta para bem pouca gente… aquelas que cabem nos dedos da mão – de uma só. Essa porrada doeu, mas depois também me deu uma paz. Dorzinha gostosa essa de se ver livre das ilusões.
Vou caminhando agora meio manco com algumas manchas roxas pelo corpo. Mas com aquela sensação de músculos preparados para novas batalhas. Corpo menos preguiçoso para enfrentar a estrada. Alma mais leve para levar na mochila.
Sei que muitas outras porradas virão. Elas sempre vêm de um jeito ou de outro. Melhor mesmo é subir logo na arena e chamar a vida para uma luta…desigual, mas o que há de se fazer?
Pois levar porrada é coisa que ninguém quer, mas na maior parte das vezes é só assim que a gente entende que a vida pode ser brava pra caramba, mas enfrentá-la de frente não só é possível como a única forma de conquistá-la.
  

Read Full Post »

E se hoje fizéssemos diferente. Só por diversão ou curiosidade.
Se hoje pudéssemos experimentar um outro jeito, mais honesto, sem firulas ou fingimentos, mais elegante?
Se hoje ao invés de conversar sobre o tempo, sobre se choveu ou trovejou, se nevou nos picos ou se tava um sol de rachar o côco, pudéssemos falar sobre as tempestades que habitam nosso peito, as tormentas que apavoram nossas manhãs quando acordamos e as brisas e raios de luz que iluminam nossas incertezas?
E se ao invés de fazer as mesmas perguntas e repetir os mesmos jargões toda vez que encontramos nossos vizinhos pudéssemos abraçá-los e perguntar qual é a temperatura interna de seus espíritos e quando fará primavera dentro de suas almas?
E se ao invés de falar do futebol a cada encontro pudéssemos, mesmo que uma única vez, mesmo que por pura provocação, conversar sobre o dia em que você perdeu o chão e tentou segurar seu coração dentro do peito? E se trocássemos a copa do mundo pela disputa para descobrir quem é o melhor entre nós para dizer sua verdade, para revelar nossos monstros lá do fundo e trazer à tona sem máscaras o verdadeiro rosto? Coragem para mostrar nossos corpos desnudos de uniformes, bandeiras e fanatismos.
E se ao invés de defender o partido político corrupto ou o opositor igualmente criminoso, pudéssemos fazer política com nossos gestos diários? Se pudéssemos cumprimentar o porteiro com a admiração e respeito devido a quem trabalha honestamente. E separássemos o lixo, e consumíssemos apenas o necessário, e cuidássemos do nosso jardim e dos nossos filhos como quem lança sementes? Se a política fosse tão enraizada em nosso lar que corrupção viraria finalmente algo exclusivo de uma minoria política e não mais de uma nação inteira.
E se, mesmo que por pura irreverência, deixássemos de lado nossa ânsia de conquistar o paraíso e nossa mania de justiça de enviar tantos para o inferno? Se ao invés de discutir quem trará a marca da besta ou se Cristo podia pecar ou casar, pudéssemos aquecer outro ser humano com nossos braços mortais e apontar os lírios do campo como forma de revelar os mistérios do reino de Deus? E alimentar nossos olhos com milagres que estão aí, entre o capim silvestre que cresce diariamente e a asa colorida da borboleta que carrega em si a beleza toda do universo.
E se pudéssemos, quase que por subversão, ao invés de nos intitularmos bispos, pastores ou mesmo filhos seletos de Deus, pudéssemos chamar nós mesmos de pecadores perdidos, loucamente carentes de amor? Que o centro de nossa busca fosse atingir toda a humanidade que um dia nos foi dada e que, por medo ou preguiça, deixamos em algum lugar pelo caminho. Essa humanidade divina, que cheira terra fresca e chuva de verão. Essa humanidade que traz o outro no coração e não sob o jugo de nossas vontades e crenças.
E se deixássemos de lado nossa necessidade de dizer o que comemos, que praia visitamos ou o diploma universitário conquistado e compartilhássemos nossa fome, nossos sonhos de ir além de nossas fronteiras e aquela chama que arde dentro e que nos sussurra o porque estamos aqui? Se apenas por provocação pudéssemos contar mais sobre nossas jornadas ao invés dessa mania de conquistar o rótulo de ser bem sucedido e feliz.
Talvez, se fizéssemos isso, apenas talvez, estaríamos mais leves. Mais comunitários, mais saudáveis, mais belos. Talvez praticássemos mais lágrimas e menos euforias e pílulas para dormir. Mais abraços e beijos e menos cocaína e divórcios. Então talvez pudéssemos ver a neve de mãos dadas ao invés dessa insistência em falar sobre o tempo como forma de evitar a comunhão tão pronta a se cumprir.
IMG_5574

Read Full Post »

Older Posts »