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Archive for the ‘Crônica’ Category

Um dia todo nublado, quase cinza. Úmido, grudento, suado. Tentando vencer as horas, as tarefas, o cansaço acumulado da semana.

A praia logo ali, do outro lado dos arbustos. Mas e as compras ainda por fazer? A lista das coisas esquecidas, barraca pra montar antes que escureça, amigos que esperam cordialidades, o hamburguer, a salada, o catchup.

A praia, essa terá que esperar…

A tarde cai rápida e o dia as vezes anuncia um balanço negativo nas contas que inutilmente fazemos entre viver desejos e aceitar aquilo que temos pra hoje. It is what it is.

Mas então, quase que na virada do dia, no lusco-fusco que anuncia desistências, um entardecer laranja-rosa rasgou aquela monotonia e explodiu céu e mar em cores dificilmente catalogadas.

Eu, que estava prestes a tomar uma ducha gelada e desmaiar em cima do colchão inflável fui revigorado por esse firmamento de um degradê assustador.

Minha câmera! Pensei enquanto via acampantes correrem para a praia com seus celulares em punho na ansia de registrar aquele espetáculo. Eu me apressava para encontrar minha tão bem vinda máquina fotográfica e me regozijava pelo fato de que dessa vez eu capturaria um por-do-sol nível superior. Seria uma preciosidade para minha coleção de crepúsculos. Já conseguia até visualizar os comentários entusiasmados dos meus amigos mais chegados a uma poesia visual. Quantos likes? Instagram seria iluminado com tal aquisição.

Mas ao (re)conhecer a luz que cobria aquele campo, os vultos ao redor, os carros e as árvores, tive a sensação de que o mundo, tal qual o conhecia, desaparecia. Algo novo estava surgindo diante de mim. Como uma segunda camada. Tão irreal e vivo. Distinto. Sagrado.

Me senti constrangido, quase que envergonhado por tentar capturar tamanha imensidão e enquadrá-la em minha página do facebook entre selfies e comentários alheios.

Tive quase que uma convicção, um chamado. Aquele momento ofertava uma oportunidade rara de celebração, de receber o mistério com reverência. Caminhei solenemente até a beira daquela pequena baía. Os turistas e seus celulares gargalhavam e festejavam. Eu resolvi carregar meu cansaço, minhas frustrações, minha alegria e esperanças silenciosamente para dentro do mar e nadei até onde os gritos e risadas se calaram.

Ali era apenas o laranja rosado refletindo em mil pontos luminosos na superfície das ondas miúdas enquanto o horizonte se desnudava sereno, imenso e belo. Meu corpo flutuando parecia se dissolver e se misturar com tudo aquilo que se distinguia da rotina, da semana, dos dias. Eu recebia ao invés de consumir e guardar. Eu aprendia ao invés de demonstrar. Eu digeria o momento para que aquela beleza pudesse também habitar em meu corpo molhado. Podia finalmente esquecer meu nome e aquilo que rouba minha paz.

No retorno pensava o porque quero tanto capturar retratos e expô-los. Talvez seja uma necessidade de provar aos outros que tenho realmente vivido. Tenho feito algo grande e digno de ser notado. De que não serei esquecido. E por isso coleciono imagens. Para que comprovem isso aos demais.

Mas algo se revelou enquanto nadava em direção ao grupo que ainda fazia suas algazarras. Ficou claro que foto alguma poderá nos salvar do destino a qual estamos todos setenciados: desapareceremos.

O album de casamento. O banho do primeiro filho e a viagem para Cancún. Tudo será um dia deletado. Envelhecerão amarelados ou serão arquivados naquele armário usado que será vendido no brechó da esquina. E o tempo se encarregará de sumir com tudo que um dia orgulhosos seguramos em nossos braços e publicamos nas redes sociais. A prova de que tivemos vidas sensacionais esvaecerão.

Ainda anseio por fotografar crepúsculos e compartilhá-los com meus companheiros de jornada. Não pretendo aposentar minha câmera tão cedo. Mas quando surgirem a luz e a aurora, o vento ou aquele sorriso dado quase por graça, acho mesmo que vou fazer silêncio e com olhar atento captar o momento. Digeri-lo como quem saboreia uma última refeição. Sabendo que acaba-se, finda-se em instantes e nos resta tão somente aquilo que guardamos em nossas almas. Para que permaneça eterno em algum outro lugar que ainda não nos foi revelado.

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Aqueles que não se contentam em falhar apenas uma vez…

Esse texto não é para aqueles seres talentosos e mal acostumados com o sucesso. Nem para os gênios acadêmicos ou empreendedores que sabem fazer dinheiro mesmo em nosso país verde e amarelo. Não, esse texto não é para gente bem sucedida e resolvida.

Escrevo para fracassados. Pois eu como ninguém entendo suas dores e lutas.

A eles quero enviar minha simpatia, meu ombro amigo, um colo e um cheiro.

Pois de sucesso em sucesso, aprendi que um dia, dadas as circunstâncias, você se torna um fracassado recorrente e enfrenta a amarga missão de espremer o seu ego – que antes estava pra lá de inchado – numa caixinha claustrofóbica chamada resultados e fatos.

Como aceitar que nunca fui lá tudo isso? Depois de tantos anos piamente acreditando que eu, um gênio artístico, um profissional versátil e competente, um comunicador nato e um motorista excepcional, terei que engolir a verdade de que, basta mudar o cenário e me torno um colecionador de fracassos e perdas.

Dói bastante. Ficamos tentando amenizar nossa incompetência com desculpas e explicações que fazem o remendo pior que o rasgo.

E você pode ser tentado a me consolar, na ânsia de recusar ter que se considerar um fracassado também. Mas lhe digo, contra fatos não há argumentos e tenho atingido altos índices de perdas e danos. Comprovo pois.

Anos atrás, na tentativa de expandir minhas habilidades profissionais fui trabalhar em um evento como garçom. Evento esse banhado de taças de vinho e garrafas de cerveja a serem servidos por qualquer ser humano com certo equilíbrio (físico e emocional). Eu estava ciente da minha canhotice e como era carinhosamente chamado de ‘desastrado ‘ desde minha mais tenra infância. Mas eu, organizador de projetos e eventos de proporções gigantescas, certamente saberia lidar com algumas bandejas e clientes seletos.

Não foi só uma, mas três destas derrubadas em cima dos convidados. Cheiro de cerveja e cacos de vidro nas roupas finas dos que agora me olhavam com certo ódio em suas feições nada amigáveis.

A primeira bandeja derrubada te faz perder o chão. Mas depois da terceira nem se sabe direito onde se está e qual é seu nome. Dignidade, por onde anda?

Outro episódio. Anos de experiência com teatro, crianças, gramática, leitura de três a cinco livros por mês, palestras, treinamentos, técnicas de comunicação e afins, tive que engolir a seco o feedback despretensioso e crú de que poucos entendem o que eu falo em minhas apresentações. Aquele restinho de dignidade que guardei depois do episódio das bandejas quebrou na calçada dura da realidade.

Ainda insistente, acreditando em mim mesmo e pensando que tudo não passa de uma fase maluca que servirá apenas para aprimorar o ouro escondido, continuei firme na missão de viver como o vencedor que sou. Pois já nasci assim, claro!

Um golpe final no meu ego que coitado, andava desnutrido.

Querem ouvir mais uma? Processo de transferência da minha carteira de motorista, assim poderia dirigir livremente – e definitivamente – pelas estradas sinuosas da Nova Zelândia.

Teste teórico, passo direto devido claro minha genialidade nata. Agendo teste prático e nem me dou ao luxo de estudar o manual. Afinal, motorista de anos, oriundo da cidade com um dos trânsitos mais difíceis do mundo, e sem nenhum acidente no currículo – não revelarei aqui a capotagem hollywoodiana que sofri (ou provoquei) meses atrás e que resultou no carro completamente destruído no meio do pasto.

Enfim, voltando ao teste prático.

Certo de que passaria de primeira, fiquei estarrecido com o feedback final de que colecionei erros básicos, como usar setas, checar espelhos e pontos cegos. Quanta injustiça!

Segundo teste. Reprovado. De novo. Terceiro. Nem chego a terminar, pois cometo um erro gravíssimo e o mesmo é interrompido. Sou portanto considerado um risco para o trânsito internacional.

Marco o quarto teste. Prometo para mim mesmo, esse será o último. Errar é humano. Já usei minha cota e meus últimos dólares. Sei que heróis como eu passam por dificuldades e cometem erros apenas para ressurgirem mais fortes. Estudo, me preparo, respiro fundo e vou. O instrutor, percebendo que eu já sabia tudo sobre o teste, se sentiu relaxado o suficiente para iniciar uma conversa amigável. Entre responder sobre curiosidades do Brasil e as distintas formas de direção, tudo parecia sob controle e certamente dessa vez eu passaria.

Mas bastou uma indecisão e uma decisão errada – não são elas a mesma coisa? – para ele, frustrado demais, anunciar que eu tinha reprovado. Pânico. Decepção aguda. Frustração. Experimentei o gosto amargo da derrota final.

Há no fracasso algum sentido escondido, algum propósito? O fracasso indica que precisamos melhorar ou apenas ressalta nossos limites? Se fracasso tanto, como ainda posso achar que realizarei algo decente em vida?

Esse foi o debate mental que travei na volta para casa. Atropelei um passarinho e não me arrependi. Minha face cruel estava exposta. Eu também tinha sido atropelado pelo caminhão realidade. Quem se importa com um pardal. Eu me importaria não fosse o estado lastimável de auto-decepção.

Sentia os ossos do meu ego esmagados e partes deles espalhados na pista. Meu nome, minhas habilidades, minhas crenças foram expostas e ridicularizadas. Dessa vez nenhum comentário amigável no facebook poderia me salvar da angústia de falhar. De não ser suficiente. De não atingir sequer a média. Sonhos de grandeza? Ser medíocre já tem sido um alvo duro de atingir.

O que fazer então quando a realidade crava suas unhas em sua carne. Sentar e lamentar ou seguir lutando como se pode?

Marquei o quinto teste, mas agora ciente de que este talvez não fosse o último como acreditei firmemente das outras vezes. Falhar era a opcão mais provável.

Não encontrei propósito, nem sentido, nem descobri a moral da história e o aprendizado único nisso tudo. Mas algumas marcas que me formam se tornaram evidentes a olho nú. Expostas como feridas abertas.

Não me basto. Nem nas coisas mais básicas como um teste de direção ou carregar bandejas. Sou em tudo dependente. De estudo, de prática, de família, de amigos e tantas vezes de desconhecidos que surgem do nada para mudar o resultado das coisas.

Sou mais limite que possibilidade. Mais dores que privilégios. Mais insuficiências que habilidades. Entre tudo isso a diferença se faz com muito esforço e não ter vergonha de tentar novamente. No meu caso mais quatro ou cinco vezes…

Os gênios existem. Os que fazem história também. Eu não sou um deles. Se um dia for considerado parte desse grupo, será por puro acidente ou acaso.

Existe uma força que não está em mim, que rege as coisas de forma misteriosa. Eu a chamo de Deus. Você talvez chame de outra coisa. Mas nas horas que o impossível nos ameaça, somente ela é quem muda percursos, fatos e distorce a realidade como quem brinca de modelar. Nesse Deus eu coloco minha confiança sabendo que não posso confiar em mim mesmo.

Você pode dizer que coleciona fracassos maiores e mais dramáticos que esses. Eu também, só não tive coragem de expo-los aqui.

Fracassado? Sim, muitas vezes. Derrotado? Também, algumas. Infeliz e amargurado? Não, jamais. Pois a partir do momento que reconheço-me pequeno e insuficiente, me mantenho curioso, menino, carente de aprender, atento a essa possibilidade de enfrentar a vida e colecionar histórias. E elas são o combustível que me levam muito mais além do que meu escasso estoque de habilidades jamais poderia.

Ps. Se você ficou curioso sobre meu quinto teste de direção, talvez te conte em um outro texto. Ele por si só daria um livro. Viver é bom, até para fracassados como eu.

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O termo ‘especial’ ou ‘deficiente’ vem sendo evitado devido nossa tentativa de ser politicamente correto. Hoje a definição mais aceita é pessoas portadoras de deficiência. Caso esteja desatualizado, por favor me corrijam.

Há alguns meses comecei a trabalhar em um centro de transição de jovens portadores de deficiência intelectual.  Autismo e atraso mental são os casos mais comuns. Tive o privilégio de passar a semana toda com eles em um acampamento de fim de ano. Nada fácil, mas gratificante.

Gastaria horas descrevendo todos os insights, traços de genialidade, criatividade, afetividade e brilhantismo que esses jovens possuem e esbanjam. Parecem personalizar aquilo que o apóstolo Paulo da bíblia chamava de tesouros em vasos de barro. Eles são de uma preciosidade única. Difícil de descrever suas peculiaridades mas tão palpável que em apenas um dia você percebe que ao conviver com eles está na verdade pisando em terreno sagrado.

Quando estou com eles sou desafiado e confrontado em minhas ‘idéias que já não correspondem aos fatos’. Me sinto um ser antiquado, quadrado, pobre e despreparado para enfrentar a beleza da diferença, da diversidade e do olhar inocente de quem está livre da ditadura de algumas normas sociais castradoras.

Alguns fatos porém provocam rupturas abruptas nessa minha mentalidade arcaica. Parecem talhar o solo duro de minhas convicções e finalmente esculpir algo mais belo e profundo nelas. Algo verdadeiro.

Dia desses eles foram convocados a preparar uma apresentação musical. Eu, que já trabalhei como ator, director, corista e dançarino em musicais, lamentava os gestos lentos e imprecisos deles e a dificuldade que os professores apresentavam em conduzir uma apresentação de qualidade. Mas então aconteceu. Olhando para uma garota em seus 15 anos tentei imaginar como seria seu rosto se ela fosse ‘normal’. Por um instante tentei ‘converter’ mentalmente as linhas esquisitas de sua feição em um rosto comum de uma garota adolescente. ‘Como ela seria linda se fosse normal!’ – pensei.

Mas esse momento me revelou algo surpreendente. Sou eu o maior portador de deficiências ao não enxergar beleza naquele rosto que foi formado à imagem do Criador. Eu que sou deficiente por manter um padrão medíocre e limitado de beleza e perfeição. Sou eu que não sou capaz de ver o divino naquele rosto que é certamente mais belo que qualquer face angelical.

Em um outro momento, no meio de uma aula de dança, eu estava focado em ajudar uma aluna que sofre de paralisia progressiva (doença que lentamente atinge a massa muscular até que a pessoa não consiga mais andar, se mover ou respirar) a mover seus braços e ombros ao som da música Despacito. Todos estavam admirados com sua empolgação e como ela se movia de forma constante. Sua alegria contagiou a sala e fomos presenteados com uma epifania. A fisioterapeuta impressionada com o fato me pediu que trabalhasse com a aluna diariamente.

Sai da aula em um misto de empolgação eufórica e desesperança. Pensei que por mais que eu planejasse aulas e estímulos, aprendesse técnicas terapêuticas e fosse capaz de motivar a aluna a não desistir de lutar contra sua condição, ela estará sempre destinada a morrer jovem e nenhum esforço fará muita diferença. É apenas questão de tempo. Por que mesmo investir energia tentando convencê-la do contrário?

Então mais uma talhada cavou fundo na minha alma árida. Lembrei que se a morte definisse a forma que vivemos, ninguém nesse mundo teria motivação para levantar de cama pela manhã. O que temos é o hoje. Todos nós. E dançar com minha aluna é transformar esse momento efêmero que nos foi dado em algo eterno. Algo que exercitará seus músculos e quem sabe esticará um pouco mais as bordas da minha alma demente.

Eles, eu e você temos apenas esse momento. Somos todos portadores de deficiências, sejam elas mentais, físicas, emocionais ou espirituais. Estamos todos destinados a uma paralisia que atinge nossos corpos e sonhos e que se não nos entregarmos ao som de ‘Despacito’ agora, iremos perder aquilo que nos define como seres humanos: transcender tudo aquilo que nos limita e castra. Celebrar a forma tão milagrosa com que fomos criados: únicos e perfeitos em nossas diferenças.

E se pudessemos entender essa nossa condição? Creio que julgaríamos menos e aceitaríamos mais as pessoas como elas são. Provavelmente largaríamos essa mania de tentar mudar o outro para que caibam dentro do nosso mundinho estreito e passaríamos a admirar suas qualidades únicas. Aquilo que nos define como indivíduos e que trazemos ao mundo para contribuir de alguma forma.

Dançaríamos mais e melhor com gente de pele escura, amarela, vermelha ou azul. Abraçaríamos nossos colegas de classe ao invés de massacrá-los por serem frágeis demais, gordos demais, efeminados demais, esquisitos ou quietos demais. Esqueceríamos essa ânsia em ser ‘normal’ ou seguir o padrão estabelecido e trabalharíamos para superar tão somente aquilo que nos impede de viver a potencialidade que já nos foi dada.

Ainda há pouco espaço em nossas salas de estar para aqueles que são diferentes. Eles aindam incomodam pois revelam a verdade que muitos – incluindo eu – não querem lidar: só existe um ser humano defeituoso ou doente, aquele que não aceita o outro como irmão, do jeito que ele é.

Minha esperança é que, ao conviver com esses alunos mais que especiais, eu possa ser, a despeito dessa minha deficiência e limitação, capaz de reconhecer neles o divino, sem expectativas de que sejam algo além do que foram criados para ser: um ser humano inigualável e portanto perfeito.

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Enfim 40…enfim desisto…
Os quarenta finalmente chegaram e acreditem, passa rápido mesmo. Outros quarenta só por sorte ou benevolência dos céus. Portanto, ao que as estatísticas indicam, já passei faz tempo da metade do trajeto. Então sejamos francos e encaremos os fatos: está na hora de uma reavaliação urgente. Reunião de emergência a portas fechadas.

Se bateu a crise dos quarenta? Sim, mais isso quando eu estava nos trinta. Sempre sofri por antecipação. Agora constato num misto de resignação e alívio: chegou a hora de desistir.

Não se trata de desistir da vida. Desta desisto todas as manhãs quando sou forçado a acordar antes das sete. Mas ao meio dia já estou cheio de planos e idéias novamente.

Trata-se de desistir dos sonhos que nunca foram meus, de ilusões e expectativas alheias. Trata-se de enxergar os fatos com coragem, esvaziar a mochila dispensando os cacarecos que não usarei mesmo e seguir em frente mais leve, ciente que não se deve importar com o que nunca importou.

Antes de tudo, desisto de ser adulto. Juro para vocês que tentei. Me formei naqueles cursos que garantem emprego e carro zero. Tive emprego de gente grande e sim, um carro zero. Trabalhei com carteira assinada e namorava direitinho, com a meta de chegar ao altar como manda o figurino. Mas o que posso fazer se não tenho competência suficiente para exercer a vida adulta? Acusem-me de irresponsável e libertino. Logo eu que já nasci velho, carregado de memórias e saudades, agora aos quarenta o menino surge do nada, grita por espaço e não admite gaiolas nem terno e gravata. Segue correndo atrás das pipas e bolhas de sabão. 

Desisto portanto de ser bem sucedido. Isso não me pertence e dá muito trabalho. Aos quarenta, nem que quisesse. Já não tenho mais fôlego – lê-se saco – para carreiras e planos de negócio, e o mercado de trabalho é impetuoso com semi-idosos. Deixo para os ambiciosos que negociam suas almas em troca de troféus e jantares caros. Vou seguindo leve com pouco no bolso. Assim posso ir longe mesmo com a idade pesando em minhas costas. Há tanto ainda por conhecer. Tantas trilhas a serem exploradas. Tantos rostos, histórias e lugares a serem degustados que a idéia de gastar dias e meses entre as mesmas paredes chega me dar urtiga. Fiquei alérgico a estabilidade, salário fixo e salas sem rota de fuga. 

Desisto também dessa caça incessante pelo propósito maior da vida. Acho mesmo que imaginei coisas quando acreditei que fui criado para um destino singular que mudaria a face do mundo. Hoje estou ciente, não mudo nem mesmo essa mania de limpeza que beira a neurose crônica ou esse hábito irritante de escovar os dentes a cada meia hora. Ainda bem que minha irmã é pior que eu…fico mais tranquilo. Como diria a Roseli – aquela que também esqueceu de atingir a adultice – ‘é tudo fruto do meio’.

Desisto inclusive de encontrar o grande amor da minha vida. Soa triste, eu sei. Mas já superei. Nunca consegui lidar com expectativas e frustrações. Sou exagerado demais, não faço julgamentos sensatos. Acabo amando completamente e sem freios para dizer adeus em seguida. Correr atrás, nunca mais. Minhas pernas até que ainda são ligeiras mas estão apaixonadas por outros rumos. Se existe alguma grande história de amor reservada para mim, ela que venha atrás. Que saia à minha caça até me capturar. E eu não pretendo dar mole. Agora que sou um quarentão charmoso, vai ter que ralar para me conquistar. Aviso logo que não sou fácil.

E finalmente desisto de atender as expectativas, sonhos, desejos, intenções e decisões dos outros. Se tenho rugas, alguns raros cabelos brancos, bico de papagaio e dermatite atópica, tirando o desgaste resultante dos anos de uso, o resto é fruto dessa minha mania de agradar a galera. Era, já não é mais. Aos quarenta me dei carta de alforria. Não faço por má vontade nem para causar polêmica. Espero que me entendam. Só agora compreendi que a vida é uma só, décadas passam como se fossem meses e agradar as pessoas – vizinhos, amigos e inimigos – é correr atrás do vento e não chegar em lugar algum. Aos que me amam de verdade, e usam a desculpa de que ‘só querem o meu bem’, não me levem a mal. Erros e acertos fazem parte da jornada e eles serão meus. Sofram ou se alegrem, mas não esperem encontrar em mim um filhote domesticado. Sou quase um idoso e me dou ao direito, hoje e daqui para frente, de decidir por mim mesmo e escrever uma história com minhas próprias mãos. Não quero, ao final dos dias, culpá-los pela frustração de não ter sido o que sou, caminhado com minhas pernas e perseguido os sonhos que me pertencem. Ficamos melhor assim?

Enfim os quarenta chegaram. Mentir não vou, fácil não é digerir isso. Mas tudo pode ser ainda melhor nesse segundo tempo. Isso se eu tiver mesmo coragem de desistir desse padrão de super man maduro, estável, gordo e feliz pelos feitos realizados até aqui. Nunca estive tão vulnerável, inquieto e ansioso pelo que ainda está por vir. Experimento o assombro ao viver a vida em toda sua brutalidade e beleza. Sei que deveria conter-me no corpo rígido de um adulto em fase de estacionamento, mas minha alma ainda é leve e não consegue se manter no chão. 

Finalmente quarenta. Recebo-o com sorriso largo e cabeça cheia de sonhos. Eu que nasci velho vou me tornando menino. Minha sede é do que ainda não tem nome. É de vazios e esperanças que meu corpo está cheio, desejando loucamente pelo que ainda virá, como anseiam as crianças e os poetas por mais um dia, nascido de novo e carregado de possibilidades e lacunas a serem preenchidas com essa nossa insistência pela vida.

  

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Dois anos em terras estrangeiras, volto pro Brasil mais alto e com cheiro de gringo segundo relato de alguns amigos. O orgulho entorpece nossa razão e faz a gente acreditar em coisas assim. Me fez crer também que não pertenço mais a esse país que só nos dá desgosto.
Eu que sempre militei contra a babação de ovo em cima do ‘american way of life’ e todo discurso burguês que denegria nossa pátria varonil, comecei a ceder. Dei lugar para expressões em inglês com sotaque britânico e espalhei olhares de reprovação e superioridade a todo sinal de não civilização. São Paulo tem desses aos montes.
Foi por bem pouco que quase rasgo minha cidadania e atiro tudo no lixo como prova de minha superioridade. Por bem pouco comecei a acreditar que o fato de falar outra língua, ter subido a Torre Eiffel, estudar política internacional e ser confundido com alemão uma ou duas vezes me elevaram definitivamente ao andar superior dos que romperam com suas raízes rústicas e mal cheirosas.
Por bem pouco acreditei que ouvir em silêncio os argumentos de gente desinformada, fruto de uma mente estreita e preconceituosa, era a melhor maneira de lhes mostrar o quanto sou iluminado e sábio. O quanto atingi o Nirvana social ao aprender com gente esclarecida e alva. Deixei de ser colônia, me tornei filho do império.
Por um triz não vesti o capuz da vergonha por ser brasileiro, de ter origens no terceiro ou quarto mundo, de ter nascido da união de nordestinos migrantes, de ter me formado em escola pública com merenda servida em prato de plástico azul e copo de leite fedido a azedo.
Foi por esse pouco que não acreditei na ideia de que nasci em solos brasileiros por acaso. Que estava mesmo destinado a viver em sociedades evoluídas, estilosas e de uma austeridade poética. Beleza, elegância e classe que me caem muito bem, obrigado.
Por muito, mas muito pouco mesmo não dou CURTIR em tudo que é artigo da rede defendendo como solução para gente nobre como eu uma saída a francesa, com títulos como: ‘porque não quero morar mais no Brasil’, ‘porque amo o Brasil mas odeio os brasileiros’ ou ainda ‘O Brasil não me merece mais’.
Por bem pouco comecei a acreditar que o fato de ter tido o privilégio de sair da caverna verde amarela e enxergar um pouco do mundo lá fora me faria voltar especial, selecionado para destinos grandiosos, cheio de luz e realeza que nunca mais me permitiria ser como os pobres mortais que outrora chamei de compatriotas.
Essa foi por pouco.
Motivos até que não me faltariam para pensar assim. Tenho ao meu favor o circo de impunidade, corrupção e ausência total de caráter do qual o PT, PSDB, PMDB e toda a corja de políticos bandidos e assassinos construíram na política nacional. Assisti-los em seus atos vergonhosos é motivo mais do que suficiente para declarar com toda razão: não há porque amar esse país.
Tenho também as frases e imagens de ódio e repudio divulgadas nas redes sociais, evangélicos contra gays, direitistas contra pequenos delinquentes, moralistas inseguros contra as novelas globais, LGBT’s contra a família tradicional. E todos contra a Dilma. Tarefa fácil declarar: quero mesmo é dar o fora dessa Zorra!
A despeito de todos os motivos válidos, da minha aura globalizada e transcendente e desse desejo de salvar a própria pele, ainda carrego uma convicção que me traz lucidez mesmo que tardia: nada é mais pobre e miserável em nossa cultura que essa idéia de que somos melhores que nossos irmãos. Que o país não nos merece. Que desistir é o único caminho razoável para o progresso pessoal e merecido.
A verdade é uma só: é nossa pátria varonil que não merece gente como eu que acredita ser melhor pelo fato de ter dólar na carteira que mal paga o café da manhã no Burger King. Gente que como eu vai pra Disney e se pergunta porque São Paulo não poderia ser assim.
Gente que como eu nunca moveu uma palha para mudar a nossa situação de desigualdade extrema mas se altera aos gritos a favor da diminuição da maioridade penal.
Gente que como eu, de tanto se achar melhor e mais cheirosa, nunca será capaz de ofertar a si mesmo para que algo belo possa ser produzido em nossos solos gentis.
É de gente como eu que nosso país deveria declarar: tenha a gentileza de sair pelo portão de vôos internacionais, você não merece ser brasileiro.
Ufa, ainda bem que foi por pouco.
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Dizem as estatísticas recentes que suicídio é a segunda principal causa dos óbitos entre jovens no mundo, perdendo apenas para acidentes de trânsito. No Brasil é a terceira causa de mortandade entre jovens. Difícil de acreditar que esses números são reais. Parece-me uma grande tragédia tanta gente desistir da vida, geralmente na fase em que ela está só começando.
Eu mesmo já pensei algumas vezes nessa possibilidade. Pode parecer uma disfuncional e depressiva reflexão, mas para mim foi uma das melhores coisas que já fiz. ‘Morrer é possível’ foi a frase que emprestei de um filme e que ficou ecoando em minha mente, cavando espaço em minhas meditações diárias.
Papo mórbido que assusta muita gente. Mas uma coisa é certa…quem evita o sofrimento, a dor e a morte a todo custo acaba por evitar a vida, a alegria e a liberdade de escolhas tudo no mesmo pacote. ‘Não se pode ter paz negando a vida’…outra frase que peguei emprestada do filme ‘As horas’ do diretor Stephen Daldry e que me serve de mantra quando se faz necessário tomar decisões e rumos.
Suicídio intriga e assusta.  Depressão, mal do século, é apontada como um dos grandes vilões desse crime sem rosto. A comoção é geral e amigos e familiares ficam atônitos diante dessa decisão que normalmente é tomada em silêncio, na angústia de momentos solitários. Na falta de sentido para continuar a caminhada.
Pois eu não tenho nenhuma vocação para identificar suicidas em potenciais. Quisera eu ter, pelo menos poderia tentar evitar esses gestos últimos de desespero. Mas me foi dado um outro dom, parecido, o de identificar mortos-vivos. Esses se revelam para mim o tempo todo.
No filme ‘O sexto sentido’ do diretor M. Night Shyamalan, o personagem Cole, um garoto de 11 anos, era assombrado por ter um dom especial, a capacidade de ver e interagir com os mortos. A frase ‘I see dead people’ ficou famosa e até virou motivo de chacota nas redes sociais.
A pergunta que faço para o pobre garoto perseguido por defuntos é…e dai Cole que você vê gente morta? Eu vejo gente viva que já morreu o tempo todo e nem por isso fico chorando debaixo das cobertas.
Pois apesar dessas estatísticas alarmantes sobre suicídio defendo veementemente a idéia de que mais trágico e lamentável que o suicídio de fato é o suicídio da alma cometido por milhares de pessoas que se permitiram morrer em algum momento de suas vidas, mas esqueceram de se enterrar. E esses mortos-vivos estão em toda parte. São porteiros de prédio, tias viúvas, chefes de repartição pública ou mesmo alunos do ensino médio.
Mas como saber que alguém que anda e respira na verdade já morreu? Para mim é fácil…já lhe disse que tenho esse dom. Basta passar um tempo – alguns minutos são suficientes – e ficará clara a certidão de óbito previamente assimilada. Mortos vivos costumam falar do passado, as vezes décadas atrás, como se ainda fosse o presente. Citam pessoas e lugares que viveram em idos tempos como se isso tivesse acontecido ontem. Amarguras e conquistas de anos atrás são ainda os motivos de orgulho ou frustração que os fazem rastejar pelos dias afora. O momento presente não os comove mais. Agarram-se como podem ao que viveram um dia.
Mortos vivos repetem a frase ‘não tenho mais nada que esperar da vida’ e suas variações como um lema que os protege de ainda enfrentar as horas. Escapam da angústia de existir enterrando-se com a terra de suas desistências e medos.
Mortos vivos fogem de romances e relacionamentos como o diabo foge da cruz. Não suportam o pavor de serem vulneráveis, de ficarem atônitos diante do abismo assustador que é se entregar a uma história de amor. Preferem nunca experimentarem a beleza de se doarem a outro ser com medo da rejeição e do abandono.
Mortos vivos não sonham mais. Não olham para o futuro com lágrimas nos olhos. Não crêem mais que a esperança pode produzir milagres em suas almas já em estado de putrefação. Acham que os sonhadores são idiotas desajustados que precisam acordar (lê-se: virar zumbis como eles). Que aqueles que protestam contra as injustiças deveriam enxergar a realidade e voltar aos seus pijamas estampados de conformismo e negligência. Odeiam aqueles que decidem escrever suas próprias histórias acusando-os de serem egoístas patológicos que perturbam a ordem natural das coisas…que é morrer precocemente com medo de viver a vida.
Vejo-os o tempo todo em toda parte. São tantos que se fosse feita um pesquisa constatariam que essa causa mortis é a mais cruel e abrangente do que todas as demais juntas. Muito mais perigosa que dengue hemorrágica brasileira ou terremoto japonês.
Pois falo do perigo que é se tornar um morto vivo com propriedade de causa. Pois eu mesmo vivi anos arrastando meu cadáver nas costas para em troca receber conforto, aceitação e segurança de pertencer ao mundo dos mortos vivos. Ainda vivo sob essa ameaça do jeitinho que é retratado no seriado norte-americano ‘The Walking Dead’. Todas as vezes que a vida se levanta assustadora, com seus dentes agudos e suas garras sedentas por mais uma vítima, me encolho e penso se não seria melhor fugir dela ao invés de ficar enfrentando-a assim, de peito aberto e olhar inocente.
Mas a idéia de que serei mais um morto vivo a engrossar as fileiras de cadáveres ambulantes me perturba por demais. Me parece mais trágico viver assim que o próprio suicídio, esse pelo menos deixa as coisas mais definidas. Preto no branco.
Vou seguindo na ânsia de existir de fato, não apenas na teoria. Luto pela vida, não porque respiro mas por saber que viver de verdade vai além de ter seu corpo ainda quente e a capacidade de se mover pela casa. Viver exige de nós entrar em uma luta sangrenta, dia após dia, de quem encontrou sentido na caminhada e não irá arredar o pé da trilha até o momento que o corpo, esse objeto fadado ao fracasso, não aguentar mais seguir o espírito, esse sim precisa estar sempre vivo e saudável para ainda enfrentar a eternidade. A coisa vai longe gente.
Pois me parece que viver é privilégio daqueles que erguem-se a despeito do seu medo e enfrentam a vida com o desejo insano de conquistá-la para si. São aqueles que aceitam a dor e a alegria como faces da mesma moeda e vivem-nas intensamente pois descobriram o segredo que fazem seu coração pulsar de verdade: ‘não se pode ter paz negando a vida!’.
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Após algumas boas horas de um vôo interminável, quando só restava um trecho curto entre Santiago e São Paulo a ansiedade começou a gemer e dar trabalho. Não fosse o cansaço me nocautear estaria eu em constante estado de arritmia resultante da pergunta que não se cala: como será o retorno?
Pois os retornos em si mesmos são fáceis de executar. Para isso basta decidir voltar para o ponto de partida. Difícil mesmo é readaptar nosso ser, já de tamanhos e cores das mais distintas, à mesma caixa da qual saímos tempos atrás. E se fosse exatamente a mesma caixa, vai lá. Pelo menos saberíamos em que espaço devemos nos enfiar novamente. Mas não. Nos deparamos com caixas parecidas, mas sutilmente diferentes. Sutilezas que alteram e dificultam zerar a conta.
Inicia-se o processo árduo de conciliar o que sobrou de nós e que tamanho e forma tem esse lugar, essas pessoas, essa cidade que antes era tão familiar. A lembrança dos objetos, dos móveis da casa, agora mais gastos ou substituídos. O rosto dos nossos amigos e familiares que apresentam um pouco mais de cansaço, um pouco mais de tristeza, a algumas alegrias diferentes. Aqueles que partiram e que deixaram lacunas impossíveis de serem preenchidas. As ruas e casas tão acumuladas parecem disputar espaço entre si. A cidade, antes uma quarentona conservada, deixou de tingir seus cabelos grisalhos, está num desanimo só. Parece que desistiu da vida.
Eu tremo só de pensar que, na árdua tarefa de reconciliar espaços, sonhos e percepções, terei que dar conta de explicar aquilo que não entendo ainda: o porque mesmo regressando estamos sempre vivendo um novo momento, um novo lugar, novas as pessoas também. Sei que seria ótimo retomar a vida, conhecida e segura. Trazer eu, eu mesmo de volta, do jeitinho que parti. Mas se entendi algo ao caminhar fora das fronteiras que me protegeram por tanto tempo foi: quando se inicia uma jornada, os caminhos nunca mais serão os mesmos.
No terceiro dia de regresso, depois de anos de imunidade, pego uma virose. Febre vai e vem oscilando com meus pensamentos que outrora foram um pouco mais regulares. Não mais. Vou tentando administrar meu corpo, antes gasto e preparado para enfrentar leões e gigantes, agora confinado em um quarto confortável, envolto em segurança e parcialmente debilitado por um vírus de boas vindas. Quão difícil me parece viver as trivialidades quando se aprende a arte de se equilibrar sob abismos. Quão difícil é vestir dias normais quando se experimenta o assombro das tormentas inesperadas.
O que nos salva dessa interminável inadequação é o alívio de poder reviver as memórias, que antes eram bálsamo para dias difíceis, agora são oferecidas a cada momento. Gratuitas, disponíveis, quase passam despercebidas não fosse esse olhar já calejado de ausências. O café da tarde com bolo de fuba. As histórias do sobrinho em sua pré-adolescência. Os relatos de tios e primos. A conversa que nunca termina. A temperatura sempre aquecida dos pequenos cômodos do apartamento que revelam, este é o melhor lugar do mundo. Este é o nosso lar.
Poucas coisas restaram intactas desde a partida. O retorno nos revela algo que pode ser assustador. Não existe retorno, apenas uma nova etapa de nossa jornada. A estrada nos aguarda, aqui, acolá ou além. Não há como voltar ao ponto onde partimos. Ele não existe mais. Só nos resta seguirmos em frente, carregando os momentos vividos com aqueles que amamos, os únicos que ainda nos oferecem algo que jamais mudará ou desaparecerá, um lar onde poderemos sempre descansar dessa longa caminhada.
bike Kaio

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