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Archive for the ‘Conto’ Category

Tem um corvo me perseguindo pelas ruas de Brisbane. Aconteceu várias vezes – in fact, apenas duas mas uso do direito de liberdade poética para agravar os fatos – e por isso resolvi denunciar essa perigosa situação.
Pois é exatamente essa minha dúvida, corro perigo de vida? (Sei que o certo é escrever perigo de morte, mas cá pra nós, não comunica. Me perdoem os revisores gramaticais).
Corvos são figuras sinistras largamente utilizadas em filmes de terror que acabo por não ter noção do que é ficção ou realidade – essa diferenciação, desde minha tenra idade, nunca fui capaz de fazer. Pois juro de pé junto que assim tem acontecido – mesmo não tendo testemunhas pra validar meu caso e um tanto desnorteado por trabalhar mais de 15 horas por dia – continuo jurando que o danado me persegue toda vez que passo por uma rua sinistra e inabitada – sim, a Austrália ainda está em um longo processo de habitação – em direção a estação de trem. Assim sucedem os fatos:
Estou eu andando tranquilamente pela calçada, fim de madrugada, alvorecer naquele momento em que a luz começa a acariciar as trevas no horizonte. Ouço o gralhar ameaçador e contundente – esse o termo correto para o barulho assustador que corvos fazem? Eis o militante que juro – sei que precisarei jurar muitas vezes neste relato para angariar alguns crédulos – é o mesmo das outras ocorrências. Como sei disso? Bem, ele é inteiramente preto – até aqui nenhuma novidade – muito maior do que o normal – considero a possibilidade disso ser uma distorção causada pelo medo – e tem uma asa levemente caída – não me pergunte qual pois canhoto que sou não consigo distinguir os lados, ainda mais em situação de risco.
Sigo, coração acelerado, mas fingindo que não é comigo, a despeito da persistência do elemento em voar baixo entre os galhos e fios pousando sempre acima da minha cabeça e gralhando ferozmente com seu bico apontando meu pescoço. E não adianta atravessar a rua, ele faz o mesmo e recomeça a perseguição. Estaria ele interessado na minha humilde mochila onde carrego dois wraps de atum e uma maçã pro almoço? Ou é o gel para cabelos rebeldes que comprei na promoção e tem cheiro de jasmim que atrai seu faro – biólogos de plantão, pássaros tem esse sentido desenvolvido?
Acho bastante improvável que ele queira petiscar minha carne – após perder 10 quilos estou um osso só, é mais fácil ser atacado por cães famintos.
Após andar rápido e bastante, assumindo o fato de que estou em perigo, ele desiste e desaparece nas sombras da qual surgiu.
Registro esse relato por segurança. Assim, se futuramente acontecer de eu sair de casa uma madrugada qualquer com meus wraps, não chegar no trabalho como esperado e ninguém tiver notícias do meu paradeiro, eis uma ótima teoria a ser investigada que explique esse desaparecimento.
Desconfio de que poucos acreditarão nessa história.
Os mais céticos, com doses de sarcasmos, poderão dizer que sumi por uma simples razão, emagreci tanto que um vento qualquer me levou para longe.
Os mais românticos acreditarão piamente que segui pela estrada que me leva à liberdade completa e agora caminho solto pelo mundo, andarilho que sou, sem lenço e nem documento.
Os conspiradores de plantão, sempre com teorias sobre bombas e alienígenas controlando o governo americano, se basearão no fato de que estou envolvido em uma denúncia trabalhista contra exploração ilegal de estudantes internacionais e afirmarão que fui raptado e silenciado de forma misteriosa.
Eu insisto que, caso eu desapareça, pensem com carinho na teoria do corvo assombrado. Contem a saga do menino sonhador que viajou para terras longínquas em busca de aventuras e esqueceu dos perigos que toda jornada traz. Sempre preferi as histórias ditas infantis que se assemelham com lendas e mitos. Pois só elas são capazes de esbarrar na verdade que não conseguimos explicar por meio dos fatos e acrescentar um significado para a nossa trajetória.

Foto - Rafa Barreto

Foto – Rafa Barreto

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Reflexos

Por Sérgio Dantas

Desde pequeno aprendeu a odiar e evitar os espelhos, esses portais misteriosos que costumam molestar nossa alma e nos ludibriar com imagens aparentemente exatas. Irritava-se com aquele rosto que para ele era forjado por essa lâmina fina e cruel, refletindo sempre aquilo que ele recusava aceitar. Não acreditava nela.

Quando atingiu a idade em que as pessoas buscam refúgio e identidade, alugou seu primeiro espaço íntimo e a primeira decisão foi eliminar daquele pequeno apartamento urbano todo e qualquer objeto que pudesse refletir imagens. O espaço era uma coleção de paredes nuas e móveis discretos.

A isso acrescentou a estranha mania de evitar lugares com espelhos, desde prédios com enormes janelas de vidro até espelhos d’água e vitrinas. Andava pelas ruas como fugitivo, que não pode ser surpreendido com mudanças, forçando-se a fazer sempre os mesmos caminhos e desvios na manutenção de sua sobrevivência.

Desapegou-se de tal forma ao reflexo de sua imagem que com o tempo, a lacuna de não saber-se foi tornando insuportável. Era preciso um substituto para lhe dar ciência de como ele era sem ceder aos tiranos espelhos da cidade.

Quanto mais estranha se tornava sua aparência, tanto mais o observavam admirados e por vezes indignados os transeuntes que cruzavam seu caminho. Aos poucos, foram esses olhares que o guiavam e o deixavam consciente de como ele estava e de quem realmente era.

Passou terminantemente a depender dos olhares dos outros, para saber quem ele se tornara. Quando assustados, sabia que não estava perfeitamente asseado, quando recebia olhares de admiração e desejo, percebia-se belo e pleno. Quando não recebia atenção, abatia-se por pensar em sua insignificância. Toda sua atitude baseava-se agora no reflexo de olhares alheios e reorganizou sua rotina, personalidade e desejos em cima disso.

Nos primeiros anos foi difícil encontrar a imagem que a todos era perfeitamente agradável, mas com o passar do tempo foi conhecendo e domesticando o pensamento e preferência comum e tornou-se fácil refletir exatamente aquilo que atraía a maioria.

Era portanto alguém democraticamente belo e isso lhe bastava.

Assim viveu aquele homem que se enxergava tão somente nos olhares dos outros.

Certo dia foi surpreendido pela percepção de que as coisas mudaram juntamente com o passar dos dias. Já com seus anos avançados e o cansaço tomando espaço cada vez mais em seu corpo, rareavam os rostos que o miravam. Este golpe o desesperou. Foi ficando tão carente a ponto de acreditar que já não pertencia mais a este mundo, era alguém invisível, inexistente. Sua situação agravava-se a cada dia, até que ninguém mais lhe doava sequer um rápido olhar, aquilo que para ele era vital como o ar.

Aos poucos, foi se desfazendo. Da rua, dos corredores escuros de seu prédio úmido e até de alguns cômodos de seu pequeno apartamento. Desaparecia diante da platéia e do mundo.

Quando não lhe restava mais lugar nem desejos, notou surpreso, não sem uma relutância inicial, que até sua aversão aos espelhos desaparecera. Ao contrário, o único desejo que conseguia reconhecer em sua alma esvaziada era de novamente, quem sabe pela última vez, postar-se diante de seu inimigo tão evitado durante seus dias. Ficou claro que este seria seu confronto final e destino.

E como desperto de uma dormência, precipitou-se rua afora em busca de algo que refletisse seu rosto. Não demorou a encontrar em uma loja de esquina toda uma parede interna espelhada. Ao parar em frente do estabelecimento, mirou um homem bastante grisalho, olhos tristes e rosto marcado por rugas estranhas. Quem seria este? Já não conseguia reconhecer-se. Ainda estava vivo, podia sentir, mas totalmente fragmentado e exilado daquele corpo que já não mais lhe pertencia.

***

Reflexão (Espelho)

Por Filipe Colômbia

A noticia não é novidade. Saca? É que nos custa escrever sobre algo tão óbvio como a imagem refletida. Não é necessário aprofundar-se no conceito físico do espelho, na propagação da imagem, nessas coisas lógicas sobre “ver a verdade”. Afinal, o espelho diz a verdade, mas ao mesmo tempo mente, pois ele recorta a realidade, nunca poderá refletir tudo, mas sim refletir parte desse tudo. Nem o mar em sua superfície aquosa e quase infinita pode refletir o mundo por completo, e mesmo que ele conseguisse, não se refletiria a si próprio. Todo espelho engana a recortar parte do fato, mas em seu recorte existe uma lealdade, uma fidelidade inegável.

Seja o meu espelho no banheiro, seja o espelho da máquina fotográfica ou do retrovisor do carro ou a placa metálica do prédio contemporâneo, seja o que for, espelho reflete e reflete com veemência. Porém as verdades ditas pelo espelho são um fato sólido, incontestável, mas eu sabendo da margem de erro ínfima, não quero acreditar no que vejo. O que vejo refletido na poça, no copo, no lago, na janela do carro, é o peso do tempo só, o eu distorcido pela curva da vida, catenária errante de tentativas. E Paulo, o grande Paulo da Bíblia (que me custa ler nestes dias nublados) disse referindo-se a Deus: “Hoje eu te vejo, como um reflexo obscuro…” Ah sim, um reflexo não mente, mas é parcial, é a ponta do plano horizontal e vertical que é infinito, da glória que se estende pelas galáxias. Todo reflexo não é verdadeiramente a “coisa”. A fotografia é um reflexo pausado e neste reflexo vejo meus instantes verdadeiros, mas a fotografia não demonstra a casualidade interior, não é o instante propriamente disso, mas sim, o reflexo, seja ele em modo fotográfico, seja ele em modo pictórico ou talhado da pedra, permite a viagem, o resgate. Nem o vídeo, o cinema, que são as variáveis do reflexo mais abrangentes em sua veracidade, conseguem trazer o momento, ou fazer a “coisa” acontecer. Pois todo reflexo é incompleto.

Como humano, quero refletir a luz do verdadeiro Homem, que é o único que brilha. Eu não brilho (só brilho quando deixo a minha pele ficar oleosa). Cabe a mim refletir (permita-se perder-se nos diferentes significados de “refletir”). Deus sabe que todo humano pode refletir e ele também sabe que nós só podemos refletir, nunca poderemos ser o que refletimos. Então, sou espelho, recorte daquele que me criou, mais precisamente: caco de espelho.

Menina no Espelho - Norman Rockwell

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Foi-lhe revelado no dia de seu nascimento, vai ser destino teu perseguir o monstro alado, desconhecido e misterioso, que pequenos homens marginais o apelidaram de Abaçaiadô.

Cresceu evitando e diluindo esse destino na ânsia de manter-se reconciliado com o trivial e os dias comuns. Mas dado o fim do sentido e na ausência de ter o direito a um nome próprio, encontrou-se com a lucidez e a insana convicção que nos é ofertada nas noites estranhas e solitárias. Sentiu arder em seu peito o desejo de partir rumo aos lugares que lhe ensinaram temer e jamais trilhá-los.

Iniciava a jornada em busca de encontrar, desvendar e aniquilar a estranha ave Abaçaiadô.

Caminhava a passos firmes, exilado das vozes que sempre o ampararam, mas plenamente sustentado por todas as coisas. Havia a beleza comum naquelas estradas desconhecidas e seus olhos famintos devoravam cada elemento numa ânsia violenta, como se disso dependesse sua vida.

Passada algumas poucas eras já estava exausto e, no entanto, sabia que apesar de todo infortúnio experimentado e solidão, as pedras que pisavam seus pés lhes pertenciam como se pertencem os amantes eternamente destinados. Estava na trilha certa e esta convicção lhe bastava.

Resistir e perseverar era sua sina e única maneira de cumprir seus dias. Foi quando intuiu chegar na toca do estranho monstro e sua taquicardia revelava que o confronto final se faria naquela arena misteriosa.

Porém o que lhe surgiu foi um pequeno dragão de cores terrosas com detalhes alaranjados e agudos.

‘Quem és tu, que carrega a insensatez dessa busca?’

‘Não sei quem sou, mas sei que meu destino é lutar e vencer a terrível ave Abaçaiadô’.

Os olhos do dragão eram como chamas, mas sua voz era de certo modo confortante. ‘A dádiva de nascer humano é poder escolher seu trágico destino ou abdicar dele. Eis que venho para oferecer-te uma luta mais modesta e que trará tudo aquilo que deseja’.

O homem, exausto e inseguro, mostrou-se hesitante com o apelo do dragão. Mas ainda assim arriscou argumentar. ‘Há em mim uma chama que incendeia minha alma e me conduz para essa estrada que me arrasto a custo de suor e sangue. Como poderia eu renunciar e este chamamento misterioso?’

O estranho e familiar dragão lhe respondeu em tom de velada amizade. ‘Toda chama que deixamos arder acaba por consumir seu portador. Mas há uma possibilidade avessa e boa, esquecer os terríveis seres alados e negociar com os dragões que, se forem devidamente convencidos e satisfeitos oferecem mantimentos, posses e direito a um nome que você mesmo pode escolher como sinal de honra e realização’.

‘Mas minha jornada não terminou ainda’ – relutante mostrava sua confusão e um certo desapontamento.

‘Sua jornada é aquilo que você escolhe. O mistério é grande e sem contornos, e todos que por lá caminham, ou retornam loucos ou desaparecem’.

Pareceu-lhe bom este desvio de rota. Como estava cansado, saudoso de todos os bens e recompensas que tão penosamente deixara para trás, lentamente cedeu simpático a este novo confronto, mais seguro e previsível.

Assim envelheceu o homenzinho na toca dos amistosos dragões rastejantes, sem jamais encontrar a ave misteriosa e sem nunca descobrir seu próprio nome.

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Luar - Foto de Filipe Colombia

Desvio lunar

Por Sérgio Dantas

Ele andava a passos largos e firmes pelo asfalto irregular. Desprezava as calçadas, preferindo as ruas vazias naquela noite quente e comum. Estava cansado e sentia-se desconfortável com o próprio suor que grudava em sua camisa gasta. A semana inteira estivera acumulando horas a mais no seu já extenso período de serviço. Algo da discussão fria do dia anterior importunava sua cabeça como um espeto metálico a furar sua carne. “Você é ausente com seus filhos e comigo” sentenciava sua esposa, que para ele tornara-se uma mulher incompreensível e estranha. Sua ausência não acontecia justamente pelo amor que sentia por sua família e todos os sacrifícios que fazia por ela? Sentia-se injustiçado.

Angustiava-se terrivelmente pelas dívidas acumuladas no cartão de crédito. Essa sombra o perseguia a todo instante. Por mais que dobrasse suas horas de trabalho, não conseguia quitá-las, adiando o desejo de ter seus deveres cumpridos. Estava realmente cansado e não tinha forças para reagir.

“Mais um passo, é só do que precisamos para continuar vivendo” consolou-se em voz alta, interferindo no único som da noite, seus passos que martelavam o chão irregular da rua.

Uma última nuvem teimosa afastou-se devagar, não sem antes lamber a lua cheia que começava a clarear a noite. Sua luz azulada e vertiginosa derramou-se lentamente pelas casas e prédios antigos daquele bairro em que passava um único homem, ao voltar de sua lida.

Ele demorou a perceber o quanto o cenário modificou-se por conta da lua que exibia-se toda, subjugando sorrateiramente a escuridão. Mas seus olhos aos poucos foram assimilando aquele novo cenário. “Que belo luar” pensou, sentindo-se um tanto mais leve.

Mas sem compreender a razão de seu gesto, foi diminuindo seus passos apressados até parar no meio da rua. Todos os dias passava por ali, mas por um momento contemplou aquele espaço que lhe pareceu tão estranho, como se vivenciasse algo irreal. A luz azulada projetava-se sobre os prédios e postes realçando sombras tão nítidas que ele teve a impressão de que nunca avistara tal coisa em sua vida. Perdeu-se naquele instante, assombrado com a possibilidade de estar no limiar entre um mundo de sonhos e a realidade.

“A lua é um corpo estranho que insiste em refletir uma luz que não lhe pertence. Mas as sombras que provém dela são ainda mais alheias e misteriosas.” Assustou-se com esta declaração feita em alta voz. De onde viera isso? Quem teria soprado em seus ouvidos tal pensamento? Nunca lhe ocorrera juntar tais palavras que resultassem numa frase tão carregada de significado. A isto justificou com seu cansaço, só poderia estar delirando.

Porém, algo novo se revelou. Naquele instante finito esquecera problemas, dívidas, frustrações e perdas. Desprendera-se inclusive de sua personalidade e manias. Era outro, em outro lugar fora do tempo. Sentia-se totalmente poderoso e ao mesmo tempo pertencente a todos os elementos que compunham aquele quadro fantasioso. “É possível criar outras possibilidades. É possível enxergar a beleza nas sombras de um luar qualquer.” Suspirou contente, como alguém que desvenda o sentido de todas as coisas.

Totalmente amparado por esta verdade, iniciou seus passos lentamente. O som abafado de seus sapatos em atrito com o chão voltou a dar ritmo à sua sina. Aos poucos, foi se dissipando aquela luz sombria da lua e junto a isso, sua convicção de que é possível enxergar o infinito.

Ocupou-se novamente de seus dilemas cotidianos e agora pensava em como reagir às agressões verbais de sua esposa.

Mas, por algum motivo, levava consigo a sensação de que alguma parte de sua alma transformara-se pelo simples fato de ter descoberto em uma rua deserta a possibilidade de testemunhar a existência de outros lugares.

– X –

Ele enxergou tão bem

Por Filipe Colombia

As botas estavam nos pés. O agasalho estava cobrindo os braços, o peito, parte do pescoço. Não precisava de luvas porque de certo modo ele sentiu um estranho desejo de passar frio nas mãos, como se fosse um jeito de tatear a brisa e sua temperatura. Por último um gorro preto, que cobria a suas orelhas com precisão, porém não obstruindo os sons carinhosos que a noite tem pra doar. Saiu. Esqueceu de trancar a casa, deixou a chave na porta e foi. Experimentou a primeira brisa, que pareceu um bafo quente e quando deu por si era o cachorro a cheirar-lhe a mão. Caminharam pelo caminho das azeitonas, o caminho que de dia era amarelo com pedras brancas pequenas e grãos pretos espalhados, pisados. Ele e o cachorro.

Era breu. O breu estava tão sólido que ele até tinha medo de dar com a cara em alguma parede ou porta escondida, e olha que a idéia da porta era até mais desejada do que um muro sem saída. Mas, ele conhecia o caminho perfeitamente bem, era só a imaginação a brilhar-lhe suposições no pensamento. Andou acompanhado pelos passos pequeninos do cão até chegar perto dos grandes pinheiros. Ali, os olhos já enxergavam galhos, algumas folhas, sabia distinguir entre céu e chão. Sorriu um sorriso escondido, que só ele viu. As folhas secas faziam aquele famoso estalido seco, ouviu-se os galhos dançando, olhou o borrado do animal passando em sua frente. Estavam agora em uma grande área aberta, e o banco o esperava. Ele sentou-se como se fosse uma obrigação, e o cão sumiu. Suas mãos já recebiam o ar gélido, que parecia possuir dedos ou espinhos, cravando nos intervalos dos dedos um abraço breve mas que parecia constante. Ele fechou os punhos tentando enrijecer o calor. Fumaça saía da sua boca, parecia um dragão, mas na verdade era um homem. Olhou para céu e viu que era o céu, o mesmo céu, somente pelo fato dele estar acima. Procurou por alguma coisa, mas não viu nada. Uma mancha branca porém quase imperceptível passava vagarosamente, como os vagões de um trem que já esta chegando ao seu destino. Então viu certo ruído, vindo dos pinheiros. Girou o pescoço silenciosamente, viu as sombras da árvore dançarem e quando deu por si viu meia dúzia de anões dançarem debaixo do maior dos pinheiros.  Depois um barco ancorado na copa de uma laranjeira, dois homens caminhando silenciosamente… Virou-se e olhou para o mesmo céu. Viu a lua que cortava a cortina de nuvens e mostrava sua face esquartejada, ceifada pelo calendário. Viu o cão achegar-se a ele dando-lhe os devidos carinhos, como se ele fosse seu único dono. Seus olhos já enxergavam tão bem que via o que não deveria ver, desde os espíritos que habitavam nos troncos, até as serpentes dos trevos. Pensou em voltar pra casa e deixar aquelas sombras de luz de lua incompleta para trás… Não, permitiu-se por hora divagar e deixar suas mãos expostas para cumprimentar o bafo frio que a lua em sorriso soltava.

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O Hóspede

Por Sérgio Dantas

Sua casa era impecável. Móveis claros, retilíneos e limpos, ambiente seguro e acolhedor. A sala ampla era um convite para conversas e risos em tardes de verão. Todos que o conheciam, guardavam uma admiração secreta e inexplicável. Ele era elegante, mas muito discreto. Passeava sozinho pelas tardes amarelas com um olhar perdido na distância, como se vivesse naquele bairro de empréstimo, por pura gentileza.

Não era belo, mas muito atraente. Talvez seu silêncio e sua serenidade provocassem nas pessoas ordinárias e ocupadas o desejo de estarem próximas, de descobrirem segredos e declarações íntimas.

Os que conviviam com ele tinham sempre uma impressão bastante similar. Os primeiros contatos eram extremamente agradáveis. Sentiam que o início de uma importante amizade estava por vir, seja pelo companheirismo e simpatia que ele despertava nos homens à possibilidade de envolvimento amoroso que as mulheres ansiavam, em seus delírios emotivos.

Mas passada algumas experiências, encontros e declarações, fazia-se nítida a distância delimitada, imposta gentilmente por ele aos que tentavam chegar mais perto.

Pois parecia impossível a qualquer um aproximar-se mais que o permitido, que o previamente estipulado. Todos que se arriscavam a interferir e adentrar seu universo eram bloqueados pelo muro intransponível feito de palavras e gestos, mostrando claramente até onde poderiam avançar. Tal rigor provocava nos que se aproximavam um desconforto crescente e inevitável, resultando em uma surpreendente apatia e rompimento.

Quem se frustrava com o fracasso, imediatamente lançava sobre ele acusações e desconfianças. Chamavam-no de solitário arrogante, egoísta convicto e problemático social. Usavam o desprezo para atingi-lo, mas isso parecia fortalecer suas convicções e atitudes. Ele permanecia cordato, discreto e atencioso. Insuportavelmente educado e inacessível.

Mas alguns, um pouco mais argutos e imaginativos, começaram a levantar teorias, sobre ele, suas particularidades e modos. Talvez fosse um espião infiltrado, quem sabe um psicopata assassino ou um maníaco sexual. Surgiam histórias e fantasias sem fim quando o assunto era sobre o vizinho misterioso e sua casa sempre limpa e organizada.

Até que um dia, alguém que não era digno de tanta credibilidade afirmou saber o segredo que envolvia aquele triste homem. Fez mistério, disse recear represálias e manteve-se quieto por semanas. Mesmo incrédulos de que a verdade pudesse ser finalmente revelada, vizinhos e parentes fizeram pressão sobre o espertalhão que acabou por liberar sua versão.

Contou que o mistério envolvia sua personalidade e sua casa.

Segundo ele, o vizinho misterioso não permite aproximações e estreitamento de laços para não descobrirem o segredo que guarda há muito tempo, como sua própria vida.

Pois ele possui, no porão de sua casa exemplar, um animal selvagem e perigoso, espécie de lobo violento e faminto que é mantido preso há anos por aquele homem.

Alguns riram, outros arregalaram os olhos, mas poucos deram crédito a loucura que acabavam de ouvir.

O mensageiro de tamanha revelação agora agitava-se enervado, buscando convencer sua platéia debochada que não tratava-se de delírio ou invenção. E, como que buscando sua última cartada, revelou ter ele mesmo escutado uivos terríveis do interior daquela casa que fez com que se aproximasse e, pela sorte ou vil destino, encontrar a porta principal aberta. Foi quando, sabe-se por qual coragem repentina, decidiu adentrar e checar que estranho som era aquele. Quando pisou no tapete da sala, viu a fera selvagem que o fitava com olhos chamejantes, terríveis. Ele paralisou. O coração acelerou e podia sentir o sangue ferver em suas veias. Estava claro que o animal o atacaria, não fosse o homem aparecer e gritar com a fera, ordenando que não se movesse. Calmamente o homem abriu a porta que deve dar para uma espécie de porão e o animal entrou por ela, sem fazer mais nenhum barulho. Desapareceu nas sombras. O homem então, como se nada tivesse acontecido, perguntou se poderia ser, de alguma forma, útil.

Parou de relatar sua aventura assombrosa e fitou a roda de curiosos ao seu redor.

Um momento de silêncio se fez, indicando que agora todos dariam crédito à sua história. Mas logo segui-se um solavanco de risadas e comentários ainda mais afiados e hostis. Sua história era absurda demais para ser real. Fez pausa e não comentou mais o assunto com ninguém.

O tempo passou e desistiram definitivamente de entender aquele estranho homem da vizinhança. Todos concordaram em ignorá-lo como forma de punição social.

Quando pessoas novas chegavam, o ciclo reiniciava e por fim, acontecia a mesma frustração seguida de rompimentos. E aquele homem continuava sua sina solitária e misteriosa.

Mas é fato indiscutível, que em algumas noites escuras e silenciosas, uivos podem ser escutados por toda vizinhança. A reação de alguns é fazer servil reverência frente ao desconhecido. Alguns paralisam com um medo ímpar e ainda outros buscam explicações plausíveis e menos assustadoras que a terrível possibilidade de que um homem cordial e educado possa manter secretamente um lobo no porão de sua casa.

– X –  

Sem tempos

Por Filipe Colombia

Nem parecia outono. A terra estava úmida por causa do orvalho, os mal-me-queres estavam descansando fechados e minha sombra estava espalhada pelo solo, comprida: o sol ainda nascia. Minhas galochas logo encheram-se de gotículas brilhantes após pisar por alguns momentos na relva. Na mão direita uma pá, praticamente nova, na mão esquerda um balde.

Eu só ia cuidar do jardim, só isso. Retirar algumas pedras que não sei por que foram aparecer no meu canteiro e depois regar as plantas e esperar com paciência, minhas cinco tulipas holandesas brotarem do chão. Mas o dia passou tão devagar. Antes do almoço eu já estava mais do que esgotado, suando por dentro da galocha, com a camisa xadrez espremida contra o peito, testa escorrendo suor e a barba coçando. O almoço foi atropelado, calado, com suco de laranja para acompanhar. A louça não foi minha, não era meu dia. Voltei para o canteiro. Continuei com o oficio, assim como um bêbado continua na sua bebedisse, mantive-me constante, erguendo pá, tirando terra, removendo as ervas, deixando a terra pronta, quando vi de longe, em uma mistura de tarde, nuvem e suor, a sombra do que eu temia. Decidi não olhar mais, a criatura ainda estava um pouco longe, porém se mexia. Em um fechar de olhos ela já estava ultrapassando a cerca. A noite já vinha.

Voltei pra casa, atirando a pá na terra, deitando as botas na entrada de casa, coçando as costas úmidas. Lavei a cara e peguei na garrafa de vinho, uma taça, e que taça. O sol caia pela janela de casa, entrando pela cozinha, iluminando panelas, copos secando na pia, focalizando meu rosto. Cheguei até a pia, coloquei o copo vazio, e olhando através a janela, vi os passos, a pelugem, o rosto e os olhos do animal. Uma pele extremamente bela, variando desde a cor marrom passando por um vermelho segregado porem pontual e terminando em um preto brilhante e firme. Fiquei observando o animal que também me observava com olhos nítidos, cinzas e amarelos e um focinho comprido que se mexia sutilmente, reconhecendo os cheiros no ar.

Virei-me. Escovei os dentes e sentei-me na minha mesa de estudo. Comecei a escrever, esperando o relógio mexer-se, aguardando as horas passarem. A porta se abriu, e a caneta pausou. Olhei o relógio, 23:59. Arrastei a cadeira para trás, forcei meu corpo a se levantar e vi o lobo, na porta. Eu pensava que ele ia grunhir, latir, mostrar os caninos, mas não. Ele sentou-se ficou a olhar-me, belo, rico, rigoroso, com a cabeça tombada para o lado esquerdo e um olhar que procurava algo em mim. Quando caminhei em direção dele aí sim, ele firmou-se nas quatro patas e avançou. Tomou meu punho direito, fazendo vergar para frente, gritei de dor. Senti o pêlo quente roçando no meu corpo, exalando um calor assassino, senti o bafo do desespero, os caninos arrancando pele, osso, veia e artéria, fiz força para trás, ele veio junto, arrastando-se pelo chão, respirei antes de gritar novamente e ganhei forças para novamente ir para trás, em uma luta violenta, em uma dança desproporcional. Ele largou-me, mas ficou em posição de caçador e eu na posição de presa. Sentei-me na cadeira, com o punho dilacerado, e em duras penas peguei novamente na caneta. Ele chegou mais perto, perto o suficiente para sentir sua respiração em meus ouvidos, procurando por algo, depois, vendo que eu escrevia e que não parava, deitou-se ao lado de minha cadeira, esquentando meus pés noite e madrugada, olhava-me, grunhia e às vezes me mordia os calcanhares e pulso. Quando meu punho já gasto e morto decidiu parar de escrever, ele foi e o lambeu, com aquela língua vermelho carmim, senti o conforto. Sem forças para ir para a cama ele me carregou em suas costas e me deitou, depois me cobriu com seu próprio corpo, não deixando meu corpo sentir frio ou brisa cortante.

Quando amanheceu e eu acordei atordoado pela luz do sol, ele estava deitado ao meu lado, refletindo em seus pelos um pouco da luz matutina, dando-me ânimo. Fiz o que tinha que fazer. Desde tomar meu banho, até o café, depois coloquei minhas botas e voltei para o canteiro. Ele veio junto. Vigiava meu trabalho, fazia sombra quando sol estava ardente, e quando alguma erva era muito difícil de retirar do solo, ele mesmo a arrancava com suas mandíbulas. Os dias passaram, e ganhei cada vez mais afeto por ele, aquela ambigüidade, aquela mistura de maldade e bondade, um ódio ou amor brusco. Dei-lhe o nome de Novembro.

o lobo

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Ela entrou receosa naquele vagão. Havia muitas pessoas e certo barulho incômodo. Prosseguiu cuidadosamente, dando passos curtos e firmes, buscando um lugar onde pudesse firmar-se. Encontrou uma fresta e ali usou seus dedos rijos e finos para abraçar o cano metálico que lhe trouxe certa segurança. Estava quente o ar, que lhe pareceu pesado demais. Abateu-lhe um receio instantâneo de ter algum mal súbito, uma queda de pressão ou quem sabe, as taquicardias voltassem exatamente naquele momento. Respirou fundo e tentou pensar em outra coisa. Não podia passar mal. Isto não lhe cairia bem. Em sua bolsa estava a parcela mensal de sua aposentadoria minguada, tudo que possuía para seu sustento. Não havia sequer um conhecido por perto que pudesse socorrê-la, só estranhas companhias de rostos estranhos.

O sinal apitou informando que as portas se fechariam, e de forma previsível, aconteceu. Mesmo assim ela se assustou com a violência em que as portas se chocaram. Cobrou-se por ter esses sentimentos frágeis. Nunca fora assim. Sempre enfrentara a vida como uma operária que constrói tudo com suas próprias mãos. Não temera calos, espinhos ou quebraduras. Suas rugas narravam muitas histórias de bravura e sofrimentos enfrentados com resignação e tolerância.

Percebeu que suava naquele vagão abafado. Olhou as demais pessoas, cada uma restrita aos seus próprios pensamentos e demandas. Uns liam, outros mantinham seus olhos fechados e alguns conversavam sobre suas fúteis rotinas. Conversas e silêncios monótonos de uma quarta-feira qualquer. Alguém se importaria, caso ela precisasse? Temeu a solidão e velhice que lhe assaltavam sem chances de resistência. E novamente se cobrou por esse pânico repentino e desnecessário atacar-lhe tão arbitrariamente. Enrijeceu o corpo como resposta a pensamentos tão infelizes, apertando o cano mais um pouco.

Mas então, o trem parou na estação e as portas se abriram, desprotegendo aquele local que começava a lhe parecer seguro. Mãos de cores variadas, rostos estranhos e bolsas invadiam o espaço que já era escasso. Um empurrão brusco forçou seus dedos retorcidos pela artrite que a molestava por anos a soltar o cano e deslocar-se para o centro do vagão, espremida por costas e pontudos ombros alheios.

Com muito esforço e certa dor, firmou seus pés evitando que desfalecesse. Novamente temeu, mas agora percebia ter motivo. Não havia nenhuma condição de segurar-se e tinha apoio somente em corpos alheios que indiferentes a espremiam sem piedade.

Pensou: “quando o trem sair, não poderei sequer me segurar ou levantar esses braços atados de artrite para me manter em pé.” Ficou tensa e naquele instante receou algo realmente grave acontecer.

O apito das portas foi como o arauto de uma situação limite, decisiva. Seu coração acelerou e o suor escorria-lhe pela testa enrugada e tensa. Estava desprotegida.

Mas quando o movimento trêmulo do trem começou por debaixo de seus pés vacilantes, ela percebeu-se amparada. De alguma forma, corpos quentes e cotovelos eram como um apoio abstrato, uma possibilidade remota de divertir-se com a situação. Embalou-se e permitiu que aquela deslocação conduzisse seu corpo que já não sofria mais. Sentiu um prazer estranho, uma alegria gratuita e infantil. Sorriu. Depois começou a suspirar alto e espontaneamente declarou, quase que pensando em voz alta: “que gostoso”. As pessoas que conseguiam mirá-la, lançavam um olhar inquisidor. Mas o prazer de permitir-se solta, dançante, sem resistência ou possibilidade de defesa crescia abruptamente e ela começou a gargalhar sem pausas nem constrangimentos. Ria alto e firme a ponto de lágrimas escorrerem por seus olhos opacos. Outros ao redor permitiram-se contagiar pela sua insanidade e risadas subversivas. Sorrisos, estranhamentos e comentários graciosos encheram aquele vagão como um cogumelo atômico que vai varrendo o espaço monótono sem piedade.

A cada curva, mais risos e frases soltas coroando aquele evento com a certeza de que navegar pode ser sempre de uma alegria assustadora.

E assim divertiu-se durante aquela viagem.

Quando o trem parou em sua estação destino, agradeceu as pessoas desconhecidas e suspirou satisfeita, caminhando com dificuldade para fora do vagão. Os que a alcançavam, apoiavam seu braço ou simplesmente tocavam sua roupa com reverência, com uma estranha devoção.

Ao firmar seus pés na plataforma inspirou um ar fresco, mais leve e pensou como é boa a vida!

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Almas análogas

Eram irmãos. Mesma idade e as mesmas condições de vivência. Tão semelhantes e tão distantes um do outro. Olhos, cabelos, pernas, tudo indicava o quanto eram idênticos, mas cada qual enxergava um mundo, sofriam e se comoviam por coisas distintas e amavam as mais diferentes possibilidades e buscas.

Não se podia afirmar que entre eles havia ódio, mas a competição constante e os inevitáveis desentendimentos faziam com que o estranhamento fosse comum. Em tudo desacordavam e nada propunha fáceis negociações. O espaço de cada um, quem tinha os melhores brinquedos, os melhores empregos, o curso mais reconhecido, o amigo mais fiel, a namorada mais bonita, os filhos mais talentosos. Se o assunto era política, discutiam ferozmente. Se era roteiro turístico, as opções nunca batiam, sempre existia uma praia ou uma aventura que havia sido muito melhor que a já relatada pelo outro. Um preferia a proteção e cuidado excessivo da mãe, outro valorizava a ausência e solitude do pai. Até quando concordavam, o tom era de desavença e já não se sabia se realmente estavam aprovando a mesma coisa.

Desde cedo, ficou nítido que eram rivais vorazes. Não escolheram esse caminho, descobriram-no na comunhão familiar. E por mais que terceiros se esforçassem para uni-los, mais suas opiniões e crenças se tornavam díspares. Quando pequenos os conflitos eram tão freqüentes que faziam parte da rotina familiar.

Mas estavam juntos, sempre. Dia a após dia, desavenças por causa do brinquedo que quebrou na mão do outro, a roupa que foi usada sem autorização, a mentira que se transformou numa surra injusta, o soco dado inesperadamente e que causou muita dor, o palavrão e as pirraças. Tudo isso compunha o relacionamento tão intenso e tumultuado dos irmãos carinhosamente apelidados de Irã e Iraque. A briga atingia um nível internacional quando realmente disputavam algo, como as inocentes partidas de ping-pong que sempre acabavam em raquetes voando na direção do adversário.

Cresceram e muita coisa mudava ao redor dos opositores, mas uma certamente era constante, a discordância. Esta que os unia ainda mais.

Ocorre que um dia, não se sabe ao certo porque, após um desentendimento previsível, um deles descobriu que, meio que sem muito refletir, havia encontrado uma arma mais poderosa que socos, palavrões e provocações. Descobrira o poder da ofensa e passou a ferir seu irmão com palavras que o desvalorizavam e o entristeciam. O outro, para não deixar por menos, assimilou rápido essa técnica e começou a usá-la em sua defesa. Quanto mais se desentendiam, mas procuravam formas de humilhar e ferir um ao outro com o poder das palavras. Isso se tornou um hábito, onde ambos se esforçavam sempre para obter um melhor empenho, não ficando por baixo em nenhum dos embates que tinham.

Porém, quanto mais se ofendiam, mas percebiam que saíam feridos e derrotados, mesmo quando tudo indicava a vitória. E assim a distância de idéias se tornou distância nos corações, que foram afastando-os até não mais acharem um caminho de volta.

Os irmãos perceberam que a possibilidade de ferir a alma poderia ser uma arma poderosa e letal, mas que também agia inversamente. Ao golpear o outro com afirmações cortantes, cada um saía mais abatido e derrotado e as discussões foram se mostrando cruéis e sem sentido algum. Já não gritavam e nem lutavam, mas falavam calmamente, sem alterações no tom da voz, com frases prontamente montadas com um único objetivo, ver o outro derrotado. Escolheram um caminho e já não conseguiam retornar.

Quando se deram conta, o que antes os unia com força tal se perdeu, e após um excessivo acúmulo de mágoas, já se olhavam de forma fria e notaram, tardiamente, que já não se conheciam mais. Não havia portanto, nenhum motivo para desavenças.

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