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Archive for the ‘Citações’ Category

Quem sou eu?
_ perguntam-me constantemente _
Que no confinamento da cela
Sereno, alegre e firmemente,
Anda feito um fidalgo no palácio?

Quem sou eu?
_ perguntam-me constantemente _
Que aos carcereiros costuma,
Livre, amistosa e francamente,
Falar como quem comanda?

Quem sou eu?
_ perguntam-me constantemente _
Cujos dias de infortúnio
Impassível, risonho e orgulhosamente,
Suporta, como se acostumado a vencer?

O que dizem de mim eu realmente sou?
Ou sou somente o que eu mesmo sei de mim?
Intranquilo e ansioso e doente, um passarinho enjaulado
A lutar por fôlego, com mãos comprimindo a garganta,
A anelar por cores, flores, o cantar das aves,
A ter sede por palavras de benignidade, de proximidade humana,
A se agitar à espera de acontecimentos grandiosos,
A tremer, em desalento, pelos amigos infindamente distantes.
Cansado e vazio no orar, no pensar, no agir,
Desmaio _ disposto a me despedir de tudo?

Quem sou eu? Este ou aquele?
Serei hoje um, outro amanhã?
Ambos serei? Simultaneamente?
Um hipócrita perante os outros,
E diante de mim mesmo, um débil desolado?
Ou há algo em mim que se assemelha ao exército derrotado
A fugir na desordem da vitória já alcançada?

Quem sou eu?
Zombam de mim, tais solitárias indagações.
Seja quem eu seja, Tu sabes,
Ó, Deus:
Eu sou teu!

Poesia “Wer Bin Ich?” de Dietrich Bonhoeffer, escrita durante seu tempo na prisão de Tegel, perseguido pelos nazistas por ser fiel a Deus, sua consciência e não negar sua fé.

Tão pouco o conheço, revivendo fragmentos de sua vida e aprendendo com alguns de seus textos e reflexões por meio de uma única biografia.
Mas o pouco que contemplei dos seus dias, seus sonhos e sua obra, sinto-me devedor com uma gratidão sem medida.
Sou grato por nos aproximar do Cristo, ao viver seus ensinamentos de forma resoluta e sem concessões. Posso ver tanto do Santo crucificado em você!
Obrigado por manter-se firme diante da opressão, do mal e da morte. E mesmo temendo, se considerando fraco ou vacilante, seu exemplo permanece dando alegria e esperança para muitos. Você construiu uma fortaleza inabalável com sua fé. As tropas nazistas, com seu poder bélico e maldade insaciável, não resistiram. Mas sua obra e gestos poéticos, singelos e frágeis, perduram até hoje.
Sofri com o desfecho dos seus dias. Sei que não deveria, pois suas últimas palavras apontam para outra direção…
“Este é o fim […]. Para mim, o início da vida.”
Obrigado, querido Dietrich. Já não posso viver da mesma forma ao conhecer o caminho tão sólido e belo que você nos deixou como legado.

Dietrich Bonhoeffer

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“Abra a janela pra mim,

deixa esse pedaço amarelo de tarde entrar.

Antes que a noite me arraste,

a noite me afaste pra outro lugar.”

Gerson Borges (da canção: Um lugar vago na mesa)

 

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Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? – me perguntarão.
– Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? – Tudo. Que desejas? – Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação…
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra…)

Quero solidão.

Poesia obra-prima, por sua beleza e por ser a expressão perfeita de alguém que está em busca do mar, da jornada e de si mesmo. Tomo pra mim este estandarte, pois também reconheço em minha trajetória essa estranha guerra. Assim como a poetisa, caminho livre e desencontrado, pois quero solidão.

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‘Ora, da mesma forma tudo o que é verdadeiramente bom e belo, de beleza interior moral, espiritual e sublime nos homens e em suas obras, acredito que vem de Deus, e tudo o que há de ruim e de mau nas obras dos homens e nos homens, não é de Deus, e Deus também não acha bom.

Mas involuntariamente sou levado a crer que a melhor maneira de conhecer Deus é amar muito. Ame tal amigo, tal pessoa, tal coisa, o que quiser, e você estará no bom caminho para depois saber mais, eis o que digo a mim mesmo. Mas é preciso amar com uma grande e séria simpatia íntima, com vontade, com inteligência, e é preciso sempre procurar saber mais, melhor e mais. Isto conduz a Deus, isto conduz à fé inabalável.’

Vincent Van Gogh

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A mim que desde a infância venho vindo

como se o meu destino

fosse o exato destino de uma estrela

apelam incríveis coisas:

pintar as unhas, descobrir a nuca,

piscar os olhos, beber.

Tomo o nome de Deus num vão.

Descobri que a seu tempo

vão me chorar e esquecer.

Vinte anos mais vinte é o que tenho,

mulher ocidental que se fosse homem

amaria chamar-se Eliud Jonathan.

Neste exato momento do dia vinte de julho

de mil novecentos e setenta e seis,

o céu é bruma, está frio, estou feia,

acabo de receber um beijo pelo correio.

Quarenta anos: não quero faca nem queijo.

Quero a fome.

– § –

Esse é um daqueles textos que, de forma abrupta, nos provocam uma admiração misturada com inveja, pelo desejo de reivindicar sua autoria. Quisera eu ter escrito, pois ele traduz o que sinto todas as vezes que a fatídica data martela mais um ano em meu calendário particular.

Ainda não fiz quarenta anos, mas certamente ainda escolho a fome à faca.

 

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Por Vinícius de Morais

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Quero RT o ‘Poetinha’ em seu desejo-revelação daquilo pelo qual fomos feitos. Ao ler estes versos exatos, receba o meu frágil abraço, destes braços longos que por vezes me atrapalham, mas por vezes alcançam alguns…

Feliz Natal!

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Vincent Van Gogh

Por Vincent Van Gogh (em Cartas à Theo – Julho de 1880)

Acaso haverá vagabundos e vagabundos que sejam diferentes? Há quem seja vagabundo por preguiça e fraqueza de caráter, pela indignidade de sua própria natureza: você pode, se achar justo, me tomar por um destes.
Além deste, há um outro vagabundo, o vagabundo que é bom apesar de si, que intimamente é atormentado por um grande desejo de ação, que nada faz porque está impossibilitado de fazê-lo, porque está como que preso por alguma coisa, porque não tem o que lhe é necessário para ser produtivo, porque a fatalidade das circunstâncias o reduz a este ponto, um vagabundo assim nem sempre sabe por si próprio o que poderia fazer, mas por instinto, sente: “No entanto, eu sirvo para algo, sinto em mim uma razão de ser, sei que poderia ser um homem completamente diferente. No que é que eu poderia ser útil, para o que poderia eu servir; existe algo dentro de mim, o que será então?”.
Este é um vagabundo completamente diferente; você pode, se achar justo, tomar-me por um destes.
Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor.
“Vejam que vagabundo”, diz um outro pássaro que passa, “esse aí é um tipo de aposentado”. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – “mas” dizem as crianças que o criam na gaiola, “afinal ele tem tudo o que precisa”. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. “Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis! Tenho tudo que preciso. Ah! Por bondade, liberdade! ser um pássaro como os outros.”
Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo…
E os homens ficam freqüentemente impossibilitados de fazer algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito horrível.
Há também, eu sei, a libertação, a libertação tardia. Uma reputação arruinada com ou sem razão, a penúria, a fatalidade das circunstâncias, o infortúnio, fazem prisioneiros.
Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros.
Será tudo isto imaginação, fantasia? Não creio; e então nos perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade?
Você sabe o que faz desaparecer a prisão. É toda afeição profunda, séria. Ser amigos, ser irmãos, amar isto abre a porta da prisão por poder soberano, como um encanto muito poderoso. Mas aquele que não tem isto permanece na morte.
Mas onde renasce a simpatia, renasce a vida.

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