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O termo ‘especial’ ou ‘deficiente’ vem sendo evitado devido nossa tentativa de ser politicamente correto. Hoje a definição mais aceita é pessoas portadoras de deficiência. Caso esteja desatualizado, por favor me corrijam.

Há alguns meses comecei a trabalhar em um centro de transição de jovens portadores de deficiência intelectual.  Autismo e atraso mental são os casos mais comuns. Tive o privilégio de passar a semana toda com eles em um acampamento de fim de ano. Nada fácil, mas gratificante.

Gastaria horas descrevendo todos os insights, traços de genialidade, criatividade, afetividade e brilhantismo que esses jovens possuem e esbanjam. Parecem personalizar aquilo que o apóstolo Paulo da bíblia chamava de tesouros em vasos de barro. Eles são de uma preciosidade única. Difícil de descrever suas peculiaridades mas tão palpável que em apenas um dia você percebe que ao conviver com eles está na verdade pisando em terreno sagrado.

Quando estou com eles sou desafiado e confrontado em minhas ‘idéias que já não correspondem aos fatos’. Me sinto um ser antiquado, quadrado, pobre e despreparado para enfrentar a beleza da diferença, da diversidade e do olhar inocente de quem está livre da ditadura de algumas normas sociais castradoras.

Alguns fatos porém provocam rupturas abruptas nessa minha mentalidade arcaica. Parecem talhar o solo duro de minhas convicções e finalmente esculpir algo mais belo e profundo nelas. Algo verdadeiro.

Dia desses eles foram convocados a preparar uma apresentação musical. Eu, que já trabalhei como ator, director, corista e dançarino em musicais, lamentava os gestos lentos e imprecisos deles e a dificuldade que os professores apresentavam em conduzir uma apresentação de qualidade. Mas então aconteceu. Olhando para uma garota em seus 15 anos tentei imaginar como seria seu rosto se ela fosse ‘normal’. Por um instante tentei ‘converter’ mentalmente as linhas esquisitas de sua feição em um rosto comum de uma garota adolescente. ‘Como ela seria linda se fosse normal!’ – pensei.

Mas esse momento me revelou algo surpreendente. Sou eu o maior portador de deficiências ao não enxergar beleza naquele rosto que foi formado à imagem do Criador. Eu que sou deficiente por manter um padrão medíocre e limitado de beleza e perfeição. Sou eu que não sou capaz de ver o divino naquele rosto que é certamente mais belo que qualquer face angelical.

Em um outro momento, no meio de uma aula de dança, eu estava focado em ajudar uma aluna que sofre de paralisia progressiva (doença que lentamente atinge a massa muscular até que a pessoa não consiga mais andar, se mover ou respirar) a mover seus braços e ombros ao som da música Despacito. Todos estavam admirados com sua empolgação e como ela se movia de forma constante. Sua alegria contagiou a sala e fomos presenteados com uma epifania. A fisioterapeuta impressionada com o fato me pediu que trabalhasse com a aluna diariamente.

Sai da aula em um misto de empolgação eufórica e desesperança. Pensei que por mais que eu planejasse aulas e estímulos, aprendesse técnicas terapêuticas e fosse capaz de motivar a aluna a não desistir de lutar contra sua condição, ela estará sempre destinada a morrer jovem e nenhum esforço fará muita diferença. É apenas questão de tempo. Por que mesmo investir energia tentando convencê-la do contrário?

Então mais uma talhada cavou fundo na minha alma árida. Lembrei que se a morte definisse a forma que vivemos, ninguém nesse mundo teria motivação para levantar de cama pela manhã. O que temos é o hoje. Todos nós. E dançar com minha aluna é transformar esse momento efêmero que nos foi dado em algo eterno. Algo que exercitará seus músculos e quem sabe esticará um pouco mais as bordas da minha alma demente.

Eles, eu e você temos apenas esse momento. Somos todos portadores de deficiências, sejam elas mentais, físicas, emocionais ou espirituais. Estamos todos destinados a uma paralisia que atinge nossos corpos e sonhos e que se não nos entregarmos ao som de ‘Despacito’ agora, iremos perder aquilo que nos define como seres humanos: transcender tudo aquilo que nos limita e castra. Celebrar a forma tão milagrosa com que fomos criados: únicos e perfeitos em nossas diferenças.

E se pudessemos entender essa nossa condição? Creio que julgaríamos menos e aceitaríamos mais as pessoas como elas são. Provavelmente largaríamos essa mania de tentar mudar o outro para que caibam dentro do nosso mundinho estreito e passaríamos a admirar suas qualidades únicas. Aquilo que nos define como indivíduos e que trazemos ao mundo para contribuir de alguma forma.

Dançaríamos mais e melhor com gente de pele escura, amarela, vermelha ou azul. Abraçaríamos nossos colegas de classe ao invés de massacrá-los por serem frágeis demais, gordos demais, efeminados demais, esquisitos ou quietos demais. Esqueceríamos essa ânsia em ser ‘normal’ ou seguir o padrão estabelecido e trabalharíamos para superar tão somente aquilo que nos impede de viver a potencialidade que já nos foi dada.

Ainda há pouco espaço em nossas salas de estar para aqueles que são diferentes. Eles aindam incomodam pois revelam a verdade que muitos – incluindo eu – não querem lidar: só existe um ser humano defeituoso ou doente, aquele que não aceita o outro como irmão, do jeito que ele é.

Minha esperança é que, ao conviver com esses alunos mais que especiais, eu possa ser, a despeito dessa minha deficiência e limitação, capaz de reconhecer neles o divino, sem expectativas de que sejam algo além do que foram criados para ser: um ser humano inigualável e portanto perfeito.

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Anunciação

Aconteceu no dia que, meio a contra gosto, completei mais 365 dias desse calendário ingrato.
Acordei com a sensação de que o mundo é líquido. Cama, guarda-roupa, abajur. Tudo ao redor me pareceu frágil, irreal.
Foi então que notei, passarinho na janela cantando anunciava auroras.
A revelação caiu sobre mim como água de cascata.
Pesada, certeira, cruel…mas que deixa marcas na pele.
Os dias passam rápidos, as estações dançam em roda e os anos não são nossos.
A flor que hoje captada em sua beleza, desaparecerá.
Esses homens que caminham em silêncio, assim fazem por medo de revelarem suas almas. Vestem solidão como capa para proteger de tempestades.
Os que rezam terços e curas estão tentando forjar o mundo em suas caixinhas de jóias e manuais de sobrevivência.
Apressa-te pois não há muito tempo.
Eis o machado em sua mão direita para ferir a superfície de hipocrisia e trivialidades.
Leva também contigo água fresca e pão para alimentar-se apenas de simplicidade.
E cobre tua cabeça com poesia. Quem sabe um dia enxergará o Altíssimo.
E enquanto caminha, entrega-te sem reservas. Vai os poucos doando aos suplicantes aquilo que tanto segurou em tuas mãos.
Nunca negue um abraço.
Beija como quem cumpre a única lei necessária.
Nunca preguiçoso, se permita frívolo ou companheiro da moral envelhecida.
Que a verdade seja a única luz que ilumina seus passos.
E a bondade a vela que não te deixa no escuro.
Não precisará mais de unções, galardões ou paraísos celestes.
Tua salvação virá ao se desfazer pelo caminho.

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Estufas frias

Um guia turístico colombiano explicando a cultura holandesa inserida no interior de São Paulo lançou uma pequena semente em solo fértil sem saber.
No balanço de uma van lotada de turistas de meia idade Marcelo explicou o longo processo de cultivo das orquídeas.
Por quase dois anos a planta é mantida em uma estufa de temperatura estritamente controlada, para fazer com que seus caules verdes se sintam aquecidos, protegidos e felizes dentro desse ambiente amistoso.
Mas a planta feliz é verde. Como é verde qualquer mato ou capim. Não tem valor a não ser para si mesma. Vai vivendo feliz. Nada diferente do que qualquer outra planta.
Mas os fazendeiros de flores tem planos diferentes para essa planta satisfeita. Após quase dois anos de pleno conforto e segurança eles tiram-na desse abrigo e lançam-na na estufa fria. O choque provoca pavor. A planta sabe, querem assassina-la!
Ao reconhecer o sabor da morte seu corpo reage. O trauma desencadeia uma transformação interna. Suas estruturas se agitam e se debatem contra o frio abrupto e o desconforto indesejado. Ela sofre. Não quer desaparecer.
É forçada a sobreviver sem seguranças ou proteções.
Resta-lhe apenas uma escolha. Em seu ato desesperado ela compreende…é preciso morrer para se lançar sementes. Para que ao morrer outras plantas possam nascer dela com brotos frágeis a serem protegidos em estufas aquecidas.
Morre-se para que algo de si ainda viva.
E nesse turbilhão interno de resistência. Nessa ânsia para estender-se. Para ainda existir. Para que não desapareça e sua existência termine sem sentido…ela se transforma. Seu corpo verde se adapta, se modifica, desafia sua forma comum.
Brotam-se novas folhas e flores. Das mais diversas cores e formas. Nasce a beleza. Faz-se poesia.
E então se produzem sementes.
Mas foi preciso sofrimento ao ser arrancada de seu suave abrigo.
Foi preciso o choque de ser lançada no lugar hostil e desconhecido.
E o gosto da morte em seu corpo. E a renúncia do ser para permanecer.
Como dizia o poeta campestre…’é preciso chuva para florir’.
Marcelo também lançou sementes com sua narrativa técnica.
Pois tudo nesse mundo é nascido verde e inacabado. Tudo que respira quer abrigo e conforto. Quer viver em paz.
Mas a beleza é rara. A poesia surge em lugares que a morte anuncia fins e nosso corpo, ameaçado pela crua realidade, se transforma.
Brotam de nós as flores de nosso destino. Surgem em nós as pétalas e sementes que nos lançarão aos campos eternos.

Quando criança aprendi sobre preces. Os antigos usavam a palavra petição e eu ficava pensando qual seria o significado daquilo. Alguém compartilhava sua luta, suas lágrimas, suas ânsias por uma dádiva e por vezes suas alegrias e gratidões. Outros oravam em nome dos que sofriam ou daqueles que celebravam a graça alcançada. Mãos unidas, erguidas ao alto ou pousadas contra o peito. Olhos cerrados, joelhos no chão, palavras selecionadas entre pausas e suspiros para juntos formarem a petição que subiria aos céus e pleitearia o favor divino.
Esse constante exercício me fez enxergar a vida sobre a lente de que é possível transformar o fatalismo das coisas, anular a certeza dos fatos, ser surpreendido por um destino que vai contra a obviedade dos dias. Cresci baseando minha percepção do mundo na esperança. Não me conformava com a sentença que a vida por vezes impunha de forma cruel sobre a história das pessoas. Sempre imaginava um destino outro, onde o doente em estado terminal seria curado, o divórcio se transformaria em uma emocionante história de reconciliação, os fracos experimentariam vitórias e os coxos de corpo ou alma superariam suas limitações. Lábios que sussurravam preces e corações crentes poderiam acessar o mistério que move o mundo. Essa esperança foi meu alimento e contaminou meus olhos e minha razão.
Mas então algumas preces feitas com tanta insistência e gana não eram atendidas. O amigo que carregava em seus olhos azuis uma certeza flamejante de cura perdeu a luta contra o câncer. O artista de talento excepcional virou auxiliar de escritório para não morrer de fome. A vizinha jaz paralisada na cama por anos e o primo distante perdeu sua luta contra a bebida e a solidão.
Eu experimento um ano que veio para me ensinar a força o amargo gosto das perdas. Bebi o fel de um junho abrupto que com um golpe seco aniquilou minha alegria, um outubro de abrir mão, e outras perdas ainda disputam uma vaga no calendário já lotado de sentenças rudes. Sigo me movendo como fazem os mutilados que persistem no caminho. Vou juntando cacos entre escombros.
Resta-me uma única saída, lutar para que a esperança não tenha voz em minha mente. Pois a esperança também pode ser cruel quando ela impede que enfrentemos a vida de frente, quando ela nos anestesia mas não cura, não soluciona, só nos deixa iludidos momentaneamente para depois nos atirar a realidade dura em nossa face.
Aprendi que nem toda prece é atendida e nem toda esperança é bem-vinda.
Também perde-se sem ganho algum. Perde-se aquilo que mais precisávamos e não nos será reposto, perde-se as pessoas que mais amamos e nunca mais veremos. Perde-se o abraço para sempre. Perde-se o rumo. Alguns se perdem e não se acham mais.
No mês em que completo mais anos do que sinto tê-los, anseio por perder a esperança para ter um olhar que finalmente enxergue a vida. Faço uma prece para que meu coração não seja contaminado pela espera daquilo que tem raízes tão somente na ilusão. Calo aqueles sussurros que ditavam mundos fictícios em minha mente. Sigo em silêncio. Reservo uma única esperança, a de ter olhos sãos para finalmente enxergar o caminho que me foi destinado, em toda sua crueldade e beleza bruta. E quem sabe, guardar também alguma esperança na mochila para os momentos em que não suportar mais tanta realidade.

Egoísmo do bem

A sociedade atual, tolerante e fiel defensora das minorias, vestida de causas nobres e solidária com os necessitados parece ter escolhido o egoísmo humano – conhecido desde quando o primeiro carinha jogou toda a culpa por comer o fruto proibido em sua parceira, tirando o seu da reta – como o pecado mais horrendo, um mal a ser eliminado.
Egoísta, lá no fundo, todos somos. Alguns nem precisa ir tão fundo para encontrar egoísmo em estado bruto. Agora assumir nosso egoísmo é coisa rara de se ver.
Isso tem explicação. Entendemos completamente o instinto de sobrevivência que nos faz cometer sandices. Roubamos, mentimos e até traímos amigos se nosso pescoço está em jogo. Claro, sempre tem aqueles heróis que são exceção. Mas aqui no piso térreo, onde vivem os mortais, a história é outra.
Mas egoísmo puro e genuíno, aquele dos bons mesmo, se mostra quando temos todas as condições de pensar coletivamente, sem ameaças ou riscos de morte, mas decidimos pensar só em nós mesmos. Por diversão, falha de caráter ou costume. As vezes num momento de descuido, numa fase de imaturidade ou para a grande maioria, a vida toda.
E assim vamos seguindo, pensando em nós mesmos mas fingindo-se politicamente corretos para não sermos reprovados pelos altos níveis altruístas da sociedade vigente. Manejamos bem o que e como nos comunicamos para ocultar aquilo que vai dentro, que só busca uma coisa…algo que vá nos beneficiar… E se puder beneficiar mais alguém que a gente gosta muito, melhor. Senão, escolho só eu mesmo, obrigado!
Ai você pode me dizer… Exagero seu! Você está esquecendo de tantos exemplos de pessoas que dedicaram suas vidas colocando a necessidade dos outros acima deles próprios?
Esqueci não! Por isso intitulo esses tais de egoístas do bem. Pois tem egoísmo que faz bem não só pro egoísta gerador mas para os que estão ao redor. Fiquei louco não… Espero um pouco e já te conto mais.
O egoísmo tradicional e largamente conhecido é aquele onde o indivíduo, por razões das mais diversas, resolve pensar, sentir e agir baseado apenas e tão somente em seu próprio benefício. Daí surgem os corruptos, os puxa sacos, os políticos brasileiros, as selfies, os resorts com hidromassagem, os Big brothers e polêmicas no facebook. É desse movimento que também surgem crimes, brigas de família, divórcios, reeleições e a famosa hastag #prontofalei.
Já os egoístas do bem são outra história. Esses são egoístas do mesmo jeito, só que não descobriram ainda. E por não saberem, aliam seu egoísmo com algo realmente bom, o desejo de contribuir com gestos poéticos, de combater injustiças, de propagar afeto, de perpetuar esperanças. A fórmula egoísmo + habilidade + vocação é poderosa. Transforma história de gente comum em desfechos extraordinários. Inspira biografias e filmes baseados em fatos reais.
Daí você pode argumentar já irritado com esse texto sem nexo. Gente assim nem de longe é egoísta. É do altruísmo deles que pode surgir algo que beneficie o mundo ao redor. Pera lá amigo… Seguir uma paixão, aquela voz íntima e terrível que nos leva a caminhos perigosos, que nos arranca de nossa vida confortável e nos atira em jornadas cheia de riscos e desafios pode revelar um coração valente e disposto a dedicar seus recursos próprios por algo maior… mas nem por isso deixa de ter egoísmo no rolo. Pois esses seres iluminados e corajosos fazem tudo isso por um único motivo: buscar um sentido para a existência que traga alívio lá no fim da estrada. Dai, egoísta que são, podem descansar em paz, sabendo que fizeram algo pelos outros para satisfazer esse desejo íntimo de fazer sentido. De ser relevante. De deixar pegadas.
Nobre demais essa causa, mas só a buscamos para satisfazer nós mesmos. Pois nossa vocação, nosso chamado íntimo, por mais belo e elevado que seja, por mais benefícios e bondades que tragam para os que nos cercam, sempre vem cheios de nós mesmos e da nossa necessidade de nos mostrarmos belos.
Que eu me lembre, o único que realmente deixou de lado toda vontade própria para fazer a vontade de outro foi o mestre Jesus, que até suou sangue nesse luta contra o egoísmo. Pudera, nem o corpo humano suporta tamanha agressão. Estirpar o egoísmo da nossa carne chega a ser anti-natural. Nossa alma geme e nosso corpo sangra de dor.
Você pode citar outros heróis como Madre Teresa, Mather Luther King, Gandhi e até mesmo a pop princesa Diana, mas você tem certeza que o egoísmo deles não os ajudou a seguir adiante? Ser relevante para a humanidade custa caro, mas encontrando glórias ou cruz no fim da estrada, ainda assim o maior beneficiado será você. Descansará em paz por satisfazer nossa necessidade maior de vencer a mediocridade.
Assim como colesterol, isso também é egoísmo mas do tipo bom. Do tipo que funciona, que salva vidas, que provoca alegria, que cessa com injustiças e transforma histórias.
Então, ao invés de lutar contra o egoísmo – esse monstro interno praticamente invencível – que tal escolher o tipo certo e juntá-lo com outros ingredientes. Esse prato especial que você vai preparar eu farei questão de provar. Muitos outros farão também, comerão e se fartarão com aquilo que você está oferecendo. Mas pode ter certeza, a pessoa mais satisfeita nisso tudo será você, um verdadeiro egoísta, só que do bem. #prontofalei.

Vejo com muita tristeza as declarações grosseiras e equivocadas de repulsa ao Nordeste e a nordestinos por votarem nesse tão (mal) falado partido dito de trabalhadores. Como se em São Paulo, estado que se orgulha de liderar e não ser liderado, não existissem nordestinos. Pois existem, e muitos! Sou filho de dois deles. Neto e sobrinho também.
Não entrarei nas discussões políticas tão acirradas e nem contribuirei para deixar o facebook ainda mais insuportável. Sou preguiçoso demais para discussões do gênero. Posições políticas eu as tenho. Meu pai, nascido em Recife, nos deu uma consciência política mais acurada e completa que qualquer carreira parlamentar poderia oferecer. Mas pouparei vocês de ouvir minhas posições e partidarismos. Prefiro fazer política com histórias e contos, imagens e sons.
Se em São Paulo atualmente falta água, essa seca deveria lembrar os paulistanos, estressados demais com sua rotina sempre insuportável, que muitos compatriotas já morreram por causa disso. Mas não deveríamos tomar o nordeste com o irmão pobre que sempre precisa de auxílio – não falaremos de bolsa família aqui, senão a conversa descamba para xingamentos novamente – e sim percebermos que a maior riqueza cultural brasileira vem de lá, dessa terrinha quente, com gente de cabeça chata e sorriso farto.
É lá que ferve o frevo pernambucano que até hoje me intriga com suas cores e fitas. Foi lá o berço de gênios nascidos gênios. Terra de Gonzagas, Gonzaguinhas, Velosos e Ramalhos. Terra de baianos, novos e antigos. Terra de todos os santos, coronéis e lampiões. De lá canta o sabiá e o azulão. Gaiolas penduradas no teto das salas de visita. Mosquiteiros em camas de casal pra proteger de muriçocas e morcegos. Rapadura, tapioca e cuscuz com carne seca.
De lá que vem as Marias, os Roselinos, Pedro de Gimiu, Tonho da Copa e tantos outros que são identificados pelo nome daqueles aos quais pertecem. Sim, porque o nordestino sempre pertence a alguém, não existe solidão nas dunas e sertões. Pode faltar água, comida, afeto e educação, mas não falta amor, esperança e sabedoria vinda da força popular. Povo bruto, mas com coração arretado.
Hoje, vivendo por um tempo em terras estrangeiras tão distantes, falo com orgulho do meu Brasil, mesmo quando amigos meus de cantos diferentes do planeta repetem exaustivamente que não pareço nem um pouco brasileiro.
Injusto! Ainda disfarço as lágrimas quando tento explicar o sabor da feijoada, o som do ‘xote das meninas’, a poesia de Assaré e Suassuna, as cores e formas das praias e as reuniões familiares onde todos falam muito e juntos, mas nunca falta entendimento e risadas. Primos, tios, abraços e histórias que provocam uma saudade difícil de suportar.
Sim, problemas e limitações temos muitos. No Nordeste e principalmente em São Paulo. O maior deles é não nos darmos conta do quanto somos ricos. Talvez porque nós de Sampa estamos esquecendo o que significa o nordeste e o nordestino na formação do nosso estado paulista orgulhoso demais para compreender que só lidera bem quem sabe servir, instruir e amar.
No dia do nordestino a única coisa que lamento mesmo é não ter nascido lá.

Solta isso agora! Ordem nada facultativa dada por meus pais durante toda minha infância. Difícil obedecer e deixar ir aquilo que consideramos o objeto da nossa felicidade. Principalmente quando esse objeto era passado para meu irmão ou um amigo que iria desfrutá-lo na minha frente enquanto eu ficava com as mãos vazias e o coração cheio de rancor. O mundo é injusto e aprendi desde cedo que é preciso lutar para ter aquilo que achamos ser nosso por direito!
Meus pais estavam tentando me ensinar algo importante que até hoje tá difícil de aprender… Deixar ir, desistir de segurar aquilo que não me pertence, confiar que tudo que preciso me será dado graciosamente no momento em que já nem espero mais.
Desistir tem sido a árdua escolha que me ajuda a experimentar o extraordinário.
Porque é quando desisto dos meus planos que posso vivenciar a plenitude daquilo que nos é ofertado a cada alvorada.
É quando desisto de programar cada passo da minha jornada que sou surpreendido pelo mais belo por-do-sol que já vi ou posso assistir os espetáculos que a natureza oferece diariamente e que poucos presenciam. Sim, estamos muito ocupados cumprindo os planos e roteiros pre-estabelecidos que traçamos diariamente.
É quando desisto de implorar por atenção e afeto que encontro pessoas que me amam pelo que sou e estão dispostas a dividir suas vidas comigo sem reservas.
Quando desisto de lutar contra a solidão então posso experimentar comunhão.
Quando não emprego mais forças na ânsia por ser bem sucedido que tenho chance de esbarrar no propósito para o qual fui criado.
Quando compreendo que nunca serei justo e bom o suficiente para julgar as ações e intenções dos que me cercam, posso finalmente perdoá-los e compreendê-los.
É quando desisto de pedir, de esperar retorno, de exigir o que é meu por direito que posso ter o coração grato por tudo aquilo que já me foi dado e do qual, reconheço, não merecia nem a metade.
Quando desisto de perseguir a felicidade a todo custo eis que me encontro tão pleno e satisfeito que fica difícil entender porque fui escolhido para experimentar tamanha alegria.
Já dizia o mestre, pois é desistindo da vida que podemos ganhá-la e conhecê-la em toda sua plenitude.
Mas desistir não acontece apenas uma vez. Desistência é uma decisão a ser tomada em pequenas doses diárias junto com o café da manhã.
Porque sou fraco e quando vejo os objetos do meu desejo desfilarem diante de mim fico doente de novo e a ansiedade por possuí-los toma conta do meu corpo. Quero agarrá-los! Exijo garantias de permanência! Forjo gaiolas, redijo contratos e não os deixo partir. Dedos rijos e coração aos pulos na ânsia te reter o que não me pertence.
E então preciso lembrar, só é possível experimentar a plenitude quando desisto de agarrá-la com minhas mãos.
Pois é quando desisto que finalmente encontro o que foi destinado para mim e pelo qual eu não preciso mais lutar para receber.