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Foggy day

Andy morreu essa manhã.
Ontem à noite ele ainda murmurava estranho, grave, doido.
Não se movia, só se ouvia o gemido.
Pela manhã, luz amena, seu corpo parecia menor.
Sua cabeça largada no piso e seu pescoço torcido
parecia que o mundo é que pendia pro lado.
O dia era uma mistura de neblina e chuva grossa.
Combinação inusitada.
E calma cinza. Quase reverência. Quase que pausa.
Ele, apenas um bode que estava ficando velho demais.
Minha razão me acusava de falsário ao detectar um lamento honesto.
Como posso eu me comover com a morte de um bode?
Se tantos bois, e frangos, e porcos são abatidos
e deles faço refeição, ovo virado, feijoada e bife suculento no prato.
A razão, essa que nos acusa, também nos salva.
De sofrer a morte de bodes e passarinhos…
De prantear inutilmente o corpo de refugiados afogados…
Ou crianças famintas de um país qualquer da África.
Que morrem em números. Milhares. Diariamente.
Que tornam notícia de jornal e servem apenas como distração,
de nossa miséria herdada.
Seja eu pois racional e coerente,
com o resto do povo que vive como quem pisa em solo sagrado.
Mascando chiclete, fone de ouvido, celular grudado.
Só que hoje, estranho
tive essa sensação, quase mística
de que quando Andy suspirou pela última vez
a terra gemeu em luto.
E a chuva que caía, era na verdade lágrima
que molhava seu pelo negro para prepará-lo
solenemente,
mãos cuidadosas,
para seu funeral.
Porque todo primeiro suspiro é um milagre.
E fere o universo inteiro, quando pois cessado.
E não importa se emotivo notamos
ou seguimos anestesiados.
Árvores e vento.
Ovelhas e lagos,
fizeram silêncio para reverenciar Andy.
O bode que morreu hoje
nessa manhã de chuva grossa e neblina.

foggy day

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Bamba

Ah se a vida fosse receita de bolo

equação matemática ou manual de TV

Um mais um

Meio copo de açúcar

Cabo vermelho no conector mostarda

E a coisa vem assim mesmo

do jeitinho que você esperava

Se fizer assim dará cebola

e se regar ao fim do dia, tomate e alfafa

Se para direita noventa graus

e esquerda quarenta e cinco

o resultado será batata.

Mas a receita e a fórmula

a tabela e o conselho do tia Maria

Tudo perde força e sentido

Quando a vida, astuta e imprevisível

nos surpreende, nos suspende e nos maltrata

Um filho que nunca se enquadra

no quadrado sistema escolar

e o mosquito que aparece do nada e assusta até macaco

Um surto de gripe asiática

E um tufão raro com nome de menina

Deixa a gente assim

Desabrigado de certezas

Sem teto e sem firmezas.

Mas não me disseram que se plantar feijão vai ter feijoada?

Mas quem foi que previu a geada?

Por isso mesmo

esquece aquilo tudo que um dia alimentou

seu sonho de respostas fáceis

De que pra tudo existe uma dica mágica

Para cada relacionamento uma terapia

E cada pessoa uma determinada caixa

Pratica pois

com sapatilha gasta e sombrinha

A arte de caminhar na corda que bamba

No fio da navalha afiada

Na linha tênue que separa

o que é, o que era

e o que já virou piada

E pensa que hoje é mais para esquerda

Amanhã corpo um pouquinho pro lado

E direita na sexta pra fechar o saldo

E neste balanço que seu corpo

Flexível, leve e solto faz

ao caminhar nessa trilha instável

Quem sabe um dia descubra surpreso

Que não apenas vive, luta e caminha

mas dança

belo, vivo, intenso

enquanto segue a estrada.

jumping

Um dia todo nublado, quase cinza. Úmido, grudento, suado. Tentando vencer as horas, as tarefas, o cansaço acumulado da semana.

A praia logo ali, do outro lado dos arbustos. Mas e as compras ainda por fazer? A lista das coisas esquecidas, barraca pra montar antes que escureça, amigos que esperam cordialidades, o hamburguer, a salada, o catchup.

A praia, essa terá que esperar…

A tarde cai rápida e o dia as vezes anuncia um balanço negativo nas contas que inutilmente fazemos entre viver desejos e aceitar aquilo que temos pra hoje. It is what it is.

Mas então, quase que na virada do dia, no lusco-fusco que anuncia desistências, um entardecer laranja-rosa rasgou aquela monotonia e explodiu céu e mar em cores dificilmente catalogadas.

Eu, que estava prestes a tomar uma ducha gelada e desmaiar em cima do colchão inflável fui revigorado por esse firmamento de um degradê assustador.

Minha câmera! Pensei enquanto via acampantes correrem para a praia com seus celulares em punho na ansia de registrar aquele espetáculo. Eu me apressava para encontrar minha tão bem vinda máquina fotográfica e me regozijava pelo fato de que dessa vez eu capturaria um por-do-sol nível superior. Seria uma preciosidade para minha coleção de crepúsculos. Já conseguia até visualizar os comentários entusiasmados dos meus amigos mais chegados a uma poesia visual. Quantos likes? Instagram seria iluminado com tal aquisição.

Mas ao (re)conhecer a luz que cobria aquele campo, os vultos ao redor, os carros e as árvores, tive a sensação de que o mundo, tal qual o conhecia, desaparecia. Algo novo estava surgindo diante de mim. Como uma segunda camada. Tão irreal e vivo. Distinto. Sagrado.

Me senti constrangido, quase que envergonhado por tentar capturar tamanha imensidão e enquadrá-la em minha página do facebook entre selfies e comentários alheios.

Tive quase que uma convicção, um chamado. Aquele momento ofertava uma oportunidade rara de celebração, de receber o mistério com reverência. Caminhei solenemente até a beira daquela pequena baía. Os turistas e seus celulares gargalhavam e festejavam. Eu resolvi carregar meu cansaço, minhas frustrações, minha alegria e esperanças silenciosamente para dentro do mar e nadei até onde os gritos e risadas se calaram.

Ali era apenas o laranja rosado refletindo em mil pontos luminosos na superfície das ondas miúdas enquanto o horizonte se desnudava sereno, imenso e belo. Meu corpo flutuando parecia se dissolver e se misturar com tudo aquilo que se distinguia da rotina, da semana, dos dias. Eu recebia ao invés de consumir e guardar. Eu aprendia ao invés de demonstrar. Eu digeria o momento para que aquela beleza pudesse também habitar em meu corpo molhado. Podia finalmente esquecer meu nome e aquilo que rouba minha paz.

No retorno pensava o porque quero tanto capturar retratos e expô-los. Talvez seja uma necessidade de provar aos outros que tenho realmente vivido. Tenho feito algo grande e digno de ser notado. De que não serei esquecido. E por isso coleciono imagens. Para que comprovem isso aos demais.

Mas algo se revelou enquanto nadava em direção ao grupo que ainda fazia suas algazarras. Ficou claro que foto alguma poderá nos salvar do destino a qual estamos todos setenciados: desapareceremos.

O album de casamento. O banho do primeiro filho e a viagem para Cancún. Tudo será um dia deletado. Envelhecerão amarelados ou serão arquivados naquele armário usado que será vendido no brechó da esquina. E o tempo se encarregará de sumir com tudo que um dia orgulhosos seguramos em nossos braços e publicamos nas redes sociais. A prova de que tivemos vidas sensacionais esvaecerão.

Ainda anseio por fotografar crepúsculos e compartilhá-los com meus companheiros de jornada. Não pretendo aposentar minha câmera tão cedo. Mas quando surgirem a luz e a aurora, o vento ou aquele sorriso dado quase por graça, acho mesmo que vou fazer silêncio e com olhar atento captar o momento. Digeri-lo como quem saboreia uma última refeição. Sabendo que acaba-se, finda-se em instantes e nos resta tão somente aquilo que guardamos em nossas almas. Para que permaneça eterno em algum outro lugar que ainda não nos foi revelado.

Aqueles que não se contentam em falhar apenas uma vez…

Esse texto não é para aqueles seres talentosos e mal acostumados com o sucesso. Nem para os gênios acadêmicos ou empreendedores que sabem fazer dinheiro mesmo em nosso país verde e amarelo. Não, esse texto não é para gente bem sucedida e resolvida.

Escrevo para fracassados. Pois eu como ninguém entendo suas dores e lutas.

A eles quero enviar minha simpatia, meu ombro amigo, um colo e um cheiro.

Pois de sucesso em sucesso, aprendi que um dia, dadas as circunstâncias, você se torna um fracassado recorrente e enfrenta a amarga missão de espremer o seu ego – que antes estava pra lá de inchado – numa caixinha claustrofóbica chamada resultados e fatos.

Como aceitar que nunca fui lá tudo isso? Depois de tantos anos piamente acreditando que eu, um gênio artístico, um profissional versátil e competente, um comunicador nato e um motorista excepcional, terei que engolir a verdade de que, basta mudar o cenário e me torno um colecionador de fracassos e perdas.

Dói bastante. Ficamos tentando amenizar nossa incompetência com desculpas e explicações que fazem o remendo pior que o rasgo.

E você pode ser tentado a me consolar, na ânsia de recusar ter que se considerar um fracassado também. Mas lhe digo, contra fatos não há argumentos e tenho atingido altos índices de perdas e danos. Comprovo pois.

Anos atrás, na tentativa de expandir minhas habilidades profissionais fui trabalhar em um evento como garçom. Evento esse banhado de taças de vinho e garrafas de cerveja a serem servidos por qualquer ser humano com certo equilíbrio (físico e emocional). Eu estava ciente da minha canhotice e como era carinhosamente chamado de ‘desastrado ‘ desde minha mais tenra infância. Mas eu, organizador de projetos e eventos de proporções gigantescas, certamente saberia lidar com algumas bandejas e clientes seletos.

Não foi só uma, mas três destas derrubadas em cima dos convidados. Cheiro de cerveja e cacos de vidro nas roupas finas dos que agora me olhavam com certo ódio em suas feições nada amigáveis.

A primeira bandeja derrubada te faz perder o chão. Mas depois da terceira nem se sabe direito onde se está e qual é seu nome. Dignidade, por onde anda?

Outro episódio. Anos de experiência com teatro, crianças, gramática, leitura de três a cinco livros por mês, palestras, treinamentos, técnicas de comunicação e afins, tive que engolir a seco o feedback despretensioso e crú de que poucos entendem o que eu falo em minhas apresentações. Aquele restinho de dignidade que guardei depois do episódio das bandejas quebrou na calçada dura da realidade.

Ainda insistente, acreditando em mim mesmo e pensando que tudo não passa de uma fase maluca que servirá apenas para aprimorar o ouro escondido, continuei firme na missão de viver como o vencedor que sou. Pois já nasci assim, claro!

Um golpe final no meu ego que coitado, andava desnutrido.

Querem ouvir mais uma? Processo de transferência da minha carteira de motorista, assim poderia dirigir livremente – e definitivamente – pelas estradas sinuosas da Nova Zelândia.

Teste teórico, passo direto devido claro minha genialidade nata. Agendo teste prático e nem me dou ao luxo de estudar o manual. Afinal, motorista de anos, oriundo da cidade com um dos trânsitos mais difíceis do mundo, e sem nenhum acidente no currículo – não revelarei aqui a capotagem hollywoodiana que sofri (ou provoquei) meses atrás e que resultou no carro completamente destruído no meio do pasto.

Enfim, voltando ao teste prático.

Certo de que passaria de primeira, fiquei estarrecido com o feedback final de que colecionei erros básicos, como usar setas, checar espelhos e pontos cegos. Quanta injustiça!

Segundo teste. Reprovado. De novo. Terceiro. Nem chego a terminar, pois cometo um erro gravíssimo e o mesmo é interrompido. Sou portanto considerado um risco para o trânsito internacional.

Marco o quarto teste. Prometo para mim mesmo, esse será o último. Errar é humano. Já usei minha cota e meus últimos dólares. Sei que heróis como eu passam por dificuldades e cometem erros apenas para ressurgirem mais fortes. Estudo, me preparo, respiro fundo e vou. O instrutor, percebendo que eu já sabia tudo sobre o teste, se sentiu relaxado o suficiente para iniciar uma conversa amigável. Entre responder sobre curiosidades do Brasil e as distintas formas de direção, tudo parecia sob controle e certamente dessa vez eu passaria.

Mas bastou uma indecisão e uma decisão errada – não são elas a mesma coisa? – para ele, frustrado demais, anunciar que eu tinha reprovado. Pânico. Decepção aguda. Frustração. Experimentei o gosto amargo da derrota final.

Há no fracasso algum sentido escondido, algum propósito? O fracasso indica que precisamos melhorar ou apenas ressalta nossos limites? Se fracasso tanto, como ainda posso achar que realizarei algo decente em vida?

Esse foi o debate mental que travei na volta para casa. Atropelei um passarinho e não me arrependi. Minha face cruel estava exposta. Eu também tinha sido atropelado pelo caminhão realidade. Quem se importa com um pardal. Eu me importaria não fosse o estado lastimável de auto-decepção.

Sentia os ossos do meu ego esmagados e partes deles espalhados na pista. Meu nome, minhas habilidades, minhas crenças foram expostas e ridicularizadas. Dessa vez nenhum comentário amigável no facebook poderia me salvar da angústia de falhar. De não ser suficiente. De não atingir sequer a média. Sonhos de grandeza? Ser medíocre já tem sido um alvo duro de atingir.

O que fazer então quando a realidade crava suas unhas em sua carne. Sentar e lamentar ou seguir lutando como se pode?

Marquei o quinto teste, mas agora ciente de que este talvez não fosse o último como acreditei firmemente das outras vezes. Falhar era a opcão mais provável.

Não encontrei propósito, nem sentido, nem descobri a moral da história e o aprendizado único nisso tudo. Mas algumas marcas que me formam se tornaram evidentes a olho nú. Expostas como feridas abertas.

Não me basto. Nem nas coisas mais básicas como um teste de direção ou carregar bandejas. Sou em tudo dependente. De estudo, de prática, de família, de amigos e tantas vezes de desconhecidos que surgem do nada para mudar o resultado das coisas.

Sou mais limite que possibilidade. Mais dores que privilégios. Mais insuficiências que habilidades. Entre tudo isso a diferença se faz com muito esforço e não ter vergonha de tentar novamente. No meu caso mais quatro ou cinco vezes…

Os gênios existem. Os que fazem história também. Eu não sou um deles. Se um dia for considerado parte desse grupo, será por puro acidente ou acaso.

Existe uma força que não está em mim, que rege as coisas de forma misteriosa. Eu a chamo de Deus. Você talvez chame de outra coisa. Mas nas horas que o impossível nos ameaça, somente ela é quem muda percursos, fatos e distorce a realidade como quem brinca de modelar. Nesse Deus eu coloco minha confiança sabendo que não posso confiar em mim mesmo.

Você pode dizer que coleciona fracassos maiores e mais dramáticos que esses. Eu também, só não tive coragem de expo-los aqui.

Fracassado? Sim, muitas vezes. Derrotado? Também, algumas. Infeliz e amargurado? Não, jamais. Pois a partir do momento que reconheço-me pequeno e insuficiente, me mantenho curioso, menino, carente de aprender, atento a essa possibilidade de enfrentar a vida e colecionar histórias. E elas são o combustível que me levam muito mais além do que meu escasso estoque de habilidades jamais poderia.

Ps. Se você ficou curioso sobre meu quinto teste de direção, talvez te conte em um outro texto. Ele por si só daria um livro. Viver é bom, até para fracassados como eu.

Quando a coisa fica feia tudo que era grande fica miúdo
As contas a pagar
O teste de direção
A vizinha implicante
Ou a última discussão do domingo passado
Tudo perde cor e peso
Mágoas
Prazos
Medos e precauções
Resta apenas a clara percepção daquilo que ainda nos sustenta

Quando a coisa fica feia o que era firme qual rocha se esvai como poeira
Nem teologias ou certificados
Promessas ou batizados
O que era sólido evapora em segundos
Restam-nos aquelas coisas frágeis
Uma prece sem palavras
Luz de uma vela
Bolha de sabão
Brisa em dias de verão
Para manter acesa nossa última esperança

Quando a coisa fica feia os inimigos se tornam irmãos
Abraçamos o médico plantonista
E confidenciamos nosso maior segredo para o desconhecido no avião
Não há mais preto, branco, azul ou amarelo
Judeu ou grego
Gay ou hétero
Estagiário ou patrão
Todos sofremos quietos
Juntos e iguais
As razões que antes regiam nossa vontade
Desaparecem
Pois quando a coisa fica feia
Sabemos ser esse grão de areia
Essa pluma ao vento
Frágil e insignificante
E nos resta apenas
A despeito do abismo que se abre diante de nossos corpos falíveis
Enxergar o essencial
E nele quase que desvendar
Aquele mistério que rege a vida.

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Adventos

Advento 1

Enquanto esperamos, esperamos assim…
Invisíveis. Quietos e cansados.
Segurando em nossas mãos rústicas uma frágil esperança…
De que essa ordem rígida que nos esmaga e despreza um dia será invertida.
De que o reino que ansiamos um dia nos pertencerá. E nos pertenceremos.
Os velhos sonharão novos sonhos.
Os últimos serão finalmente notados.
O pequeno será de todos o mais sábio.
E uma criança nos conduzirá pela mão…
Para um lugar nascido de novo,
onde não mais haverão coroas, espadas ou títulos…
…mas somente irmãos.

Advento 2

Esses muros e espinhos, se olharmos com franqueza…
Esses muros e espinhos são nossos.
Não estão fora como obstáculos a serem transpostos e esquecidos.
Nos pertencem. Nos constituem. Nos doem diariamente.
Mas vou negando suas existências com medo de expor cicatrizes.
Porém o justo viverá pela fé.
Fé de que os mesmos dramas, deficiências e incapacidades que nos afligem serão chave para nossa completa libertação.
Se com olhos valentes pudermos finalmente enxergar quem somos…lá bem fundo.
E anunciarmos nossas misérias e dores como quem convida amigos para um banquete.
Então poderemos sorrir aliviados. E celebrar!
Vulneráveis e belos como são os pássaros caídos de seus ninhos.
Fortes e calmos como envelhecem as árvores fortes.
Pois quando sou fraco, eis que então posso ser recipiente do mistério que não tem nome.

Advento 3

Aquilo que tenta nosso corpo, fugimos furiosamente ou nos entregamos. Pelos pecados da carne somos julgados e condenados. Afligidos ou realizados.
O corpo em evidência. Uma religião míope e manca.
Mas nem só de pão vive o homem a ser tentado.
Misérias maiores e silenciosas nos assolam.
Quando não enxergo o outro, somente meu rosto a se refletir em tudo que toco.
Quando sedento por atenção manipulo e ameaço.
Quando me desespero ao compreender que o destino de todos é um dia desaparecer.
Quando finalmente entrego minha alma para que, mesmo que por um momento, outros se curvem diante de mim.
Espelho e queda. Não haverá redenção aos que só amam a si mesmos.
Mas são os quebrados, esquecidos e sujos que um dia serão consolados.
Aquele que serve nas cozinhas escondidas e os que cantam hinos tristes nos porões dos séculos.
Serão esses os únicos que verão a face das coisas altíssimas.
Pois não foram cegados pela própria imagem.

Advento 4

Não mais profissões, títulos ou especializações.
Descartar a placa de doutor fixa na porta do consultório. E o cargo que me concede privilégios.
E o cartão VIP da sala de embarque.
E meu nome. Não amá-lo ou nele colocar minhas esperanças.
Mas antes a ousada caminhada de abdicar…
Das importâncias e aplausos…
Do meu rosto na capa do livro…
E do meu nome cravado na pedra.
Vamos! Esqueça-te!
E deixe-te guiar-se pelas estrelas que são infinitas.
E quem sabe uma delas te mostrará o destino.
Uma criança.
O mistério sem fim.

Advento 5

O dia comum vai exigindo atenção redobrada.
A lista do supermercado.
Roupas e lençóis a serem lavados.
Os planos a serem feitos pra semana.
Uma visita inesperada. O café com leite e torrada.
A comida do gato que insiste em destruir o sofá.
E aos poucos vamos esquecendo as luzes, as canções de outros tempos, o amigo secreto.
A euforia dos feriados cheio de amigos e cunhados se transforma em ressaca sem álcool.
A rotina nos parece até um alívio.
E de tantas fotos e comida ingerida, pouco realmente nos resta.
Pouco, muito pouco é nascido em nós.
Voltamos como chegamos.
Somos os mesmos, só um pouco mais velhos e pesados.
A luz que ilumina noites escuras… essa estrela misteriosa não nos pertence.
E os lugares esquecidos a serem descobertos repousam fora do alcance de nossos olhos cansados.
O rosto da criança.
Um bebê que traz em si o mistério sem fim,
ainda espera, perdido em algum lugar, entre casebres pardos e rotinas.

Orua bay

 

O termo ‘especial’ ou ‘deficiente’ vem sendo evitado devido nossa tentativa de ser politicamente correto. Hoje a definição mais aceita é pessoas portadoras de deficiência. Caso esteja desatualizado, por favor me corrijam.

Há alguns meses comecei a trabalhar em um centro de transição de jovens portadores de deficiência intelectual.  Autismo e atraso mental são os casos mais comuns. Tive o privilégio de passar a semana toda com eles em um acampamento de fim de ano. Nada fácil, mas gratificante.

Gastaria horas descrevendo todos os insights, traços de genialidade, criatividade, afetividade e brilhantismo que esses jovens possuem e esbanjam. Parecem personalizar aquilo que o apóstolo Paulo da bíblia chamava de tesouros em vasos de barro. Eles são de uma preciosidade única. Difícil de descrever suas peculiaridades mas tão palpável que em apenas um dia você percebe que ao conviver com eles está na verdade pisando em terreno sagrado.

Quando estou com eles sou desafiado e confrontado em minhas ‘idéias que já não correspondem aos fatos’. Me sinto um ser antiquado, quadrado, pobre e despreparado para enfrentar a beleza da diferença, da diversidade e do olhar inocente de quem está livre da ditadura de algumas normas sociais castradoras.

Alguns fatos porém provocam rupturas abruptas nessa minha mentalidade arcaica. Parecem talhar o solo duro de minhas convicções e finalmente esculpir algo mais belo e profundo nelas. Algo verdadeiro.

Dia desses eles foram convocados a preparar uma apresentação musical. Eu, que já trabalhei como ator, director, corista e dançarino em musicais, lamentava os gestos lentos e imprecisos deles e a dificuldade que os professores apresentavam em conduzir uma apresentação de qualidade. Mas então aconteceu. Olhando para uma garota em seus 15 anos tentei imaginar como seria seu rosto se ela fosse ‘normal’. Por um instante tentei ‘converter’ mentalmente as linhas esquisitas de sua feição em um rosto comum de uma garota adolescente. ‘Como ela seria linda se fosse normal!’ – pensei.

Mas esse momento me revelou algo surpreendente. Sou eu o maior portador de deficiências ao não enxergar beleza naquele rosto que foi formado à imagem do Criador. Eu que sou deficiente por manter um padrão medíocre e limitado de beleza e perfeição. Sou eu que não sou capaz de ver o divino naquele rosto que é certamente mais belo que qualquer face angelical.

Em um outro momento, no meio de uma aula de dança, eu estava focado em ajudar uma aluna que sofre de paralisia progressiva (doença que lentamente atinge a massa muscular até que a pessoa não consiga mais andar, se mover ou respirar) a mover seus braços e ombros ao som da música Despacito. Todos estavam admirados com sua empolgação e como ela se movia de forma constante. Sua alegria contagiou a sala e fomos presenteados com uma epifania. A fisioterapeuta impressionada com o fato me pediu que trabalhasse com a aluna diariamente.

Sai da aula em um misto de empolgação eufórica e desesperança. Pensei que por mais que eu planejasse aulas e estímulos, aprendesse técnicas terapêuticas e fosse capaz de motivar a aluna a não desistir de lutar contra sua condição, ela estará sempre destinada a morrer jovem e nenhum esforço fará muita diferença. É apenas questão de tempo. Por que mesmo investir energia tentando convencê-la do contrário?

Então mais uma talhada cavou fundo na minha alma árida. Lembrei que se a morte definisse a forma que vivemos, ninguém nesse mundo teria motivação para levantar de cama pela manhã. O que temos é o hoje. Todos nós. E dançar com minha aluna é transformar esse momento efêmero que nos foi dado em algo eterno. Algo que exercitará seus músculos e quem sabe esticará um pouco mais as bordas da minha alma demente.

Eles, eu e você temos apenas esse momento. Somos todos portadores de deficiências, sejam elas mentais, físicas, emocionais ou espirituais. Estamos todos destinados a uma paralisia que atinge nossos corpos e sonhos e que se não nos entregarmos ao som de ‘Despacito’ agora, iremos perder aquilo que nos define como seres humanos: transcender tudo aquilo que nos limita e castra. Celebrar a forma tão milagrosa com que fomos criados: únicos e perfeitos em nossas diferenças.

E se pudessemos entender essa nossa condição? Creio que julgaríamos menos e aceitaríamos mais as pessoas como elas são. Provavelmente largaríamos essa mania de tentar mudar o outro para que caibam dentro do nosso mundinho estreito e passaríamos a admirar suas qualidades únicas. Aquilo que nos define como indivíduos e que trazemos ao mundo para contribuir de alguma forma.

Dançaríamos mais e melhor com gente de pele escura, amarela, vermelha ou azul. Abraçaríamos nossos colegas de classe ao invés de massacrá-los por serem frágeis demais, gordos demais, efeminados demais, esquisitos ou quietos demais. Esqueceríamos essa ânsia em ser ‘normal’ ou seguir o padrão estabelecido e trabalharíamos para superar tão somente aquilo que nos impede de viver a potencialidade que já nos foi dada.

Ainda há pouco espaço em nossas salas de estar para aqueles que são diferentes. Eles aindam incomodam pois revelam a verdade que muitos – incluindo eu – não querem lidar: só existe um ser humano defeituoso ou doente, aquele que não aceita o outro como irmão, do jeito que ele é.

Minha esperança é que, ao conviver com esses alunos mais que especiais, eu possa ser, a despeito dessa minha deficiência e limitação, capaz de reconhecer neles o divino, sem expectativas de que sejam algo além do que foram criados para ser: um ser humano inigualável e portanto perfeito.

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