Um visitante impossível, desses que por vezes, erroneamente são tomados como seres verdes e de antenas esquisitas, perguntou-me no alto de seu cinestésico equilíbrio estelar, ‘é fato concreto e persistente o desejo de viver mais um ano neste planeta mirim?’. Surpreso, silenciei. O que interessa a seres tão evoluídos saber se respirar esse oxigênio por mais ou menos tempo é válido, logo eles que certamente já transcenderam essa dúvida milenar? Foi seu olhar pastoso e metalizado que fez-me perceber, com um lapso quase humano de ignorância santa, que eles realmente não compreendiam. Sons quase imperceptíveis eram emitidos do seu corpo esquálido e claro, reverberando dentro da minha cabeça. Respirei e arrisquei justificar-me com resposta meramente pronta e facilmente digerível: vale muito a pena a vida terrena! Temos poetas que nos traduzem com seus cantos que poderiam muito bem habitar nossas bandeiras varonis: ‘de tudo quanto vos disse, vale mais a vida’ – sussurrava um deles em frente ao mar. Ou como outra alma, etérea e flutuante afirmava: ‘eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa…’.
Ele recuou, fechou-se mais ainda em si e se pudesse compará-lo aos irmãos de sangue, esses seres inacabados, poderia afirmar que embruteceu por sentir-se ofendido ou tocado naqueles cantos escuros que não nos pertencem. Silêncio por um mero instante e então seu rosto abriu-se abruptamente, lançando-me raios certeiros e ameaçadores, seguido de uma última questão – perceber isso é um mistério meramente humano, mas algo sempre nos diz quando se trata da última questão – ‘se vale a pena a vida e seus pesados anos a arrastá-los até o fundo da terra, porque se matam e se comem uns aos outros? E porque de tantas pontes e prédios corpos se atiram encurtando suas existências?’. Calei-me novamente, gelado pelo corte afiado que sua pergunta causou em mim. Esperou por um breve momento, mas lentamente foi tornando-se transparente, dissolvido e dissolvendo-se até não poder mais enxergá-lo. Partiu sem sua resposta, ou percebeu que ainda não temos como decantá-la.
Não sei se foi mera visão, ou o fato deu-se naquele terreno escorregadio e gelatinoso entre o despertar e o sonho inacabado, mas o registro desse encontro permaneceu claro em minha mente por dias que antecederam mais um ano completo de vida.
Assoprei a vela com um pesar maior do que os anteriores. Retomei os dias e angústias da infância, quando de nada compreendia, mas percebia muitas coisas. Restou-me apenas um verso para tirar-me da melancolia em que este ser indesejável me relegou com sua aparição: ‘navegar é preciso, viver não é preciso’.


Há tempos não escrevo. Completar mais um ano não muda nada, e muda todas as coisas. Então, escrevo para que vigie essas mudanças sem perdê-las no caminho.
Não sabia que vc escrevia….Vou ser obrigada a incluir seu blog entre os meus favoritos….
Será sempre bem vinda! Obrigado pelo comentário, Ludimila!!!