Por vezes sou acometido de uma lucidez brutal tal qual um vírus invasor que ataca as baixas imunidades. Basta deparar-me com uma provocação inesperada, fico atônito e distante. Rendido, cercam-me pensamentos inevitáveis dos quais fujo como as crianças que tentam escapar dos monstros de seus pesadelos.
Temo essa distração aguda. Um vacilo, e me perco. Um gatilho e disparo contra o sol. Basta um sopro e serei removido das certezas e rumos previamente entrelaçados. Serei livre e isso é transtorno grave e caminho sem sinalização.
Posto-me seguro quando as criaturas que habitam meu corpo cansado fazem seu trabalho diário. Elas me exigem, me consomem e em troca oferecem as máscaras que me sustentam neste mundo, que me formatam para os outros. Oferecem-me os nomes certos para cada ocasião. Passos firmes e demarcados, em asfalto quente e iluminados pelos postes simétricos. Estou salvo, o céu é cinza e a vida é certa.
Mas basta ouvir histórias daqueles que perderam-se em suas próprias jornadas e as brasas submersas começam a queimar meu peito. Delírios febris manifestam-se sem trégua. Vislumbro o caminho.
Em meio a alucinações relembro que há rumos e pedras a serem desvendadas. Há incertezas e dores que posso tomá-los como ar puro a cortar meu rosto e me fazer vivo. Abre-se diante de meus olhos úmidos um espetáculo a se cumprir.
Hesito no centro dessa arena. Por preço muito menor desfaleceram antepassados e deuses.
Ponho-me diante da encruzilhada e pranteio as marcas que me trouxeram até aqui.
Mergulharei nessa solidão sem lanças nem canoas? Atravessarei esse negrume, essas densas árvores úmidas e tristes? Resistirei aos desertos e crepúsculos cruéis e belos? Insensato, aniquilarei com um golpe único a sensatez que me mantém medíocre e aceitável?
Esbofetearei as faces dos que me amam e me escravizam? Resistirei ao olhar terno que sentencia meu cativeiro? Partirei portanto, sem discursos nem bilhetes de adeus?
Grito para que o não e o nunca sejam gravados em minha carne como teia protetora! Volto à tona esperançoso de habitar tão somente a superfície das coisas. Entre braçadas e respirações ofegantes, luto para manter-me apresentável, intacto. Estou sóbrio novamente e isso basta para sobreviver entre paredes e convenções. Agarro-me a esses escombros para não afundar.
Mas até quando manterei sereno este espectro vazio? Sem paixão nem fúria para levá-lo além. Sem riscos nem destinos. Sem jamais chegar ao conhecimento do verdadeiro nome.
Justifica-me por hora resistir e sobreviver. E se não for assim, se não me restar subterfúgios nem distrações anestésicas, eis que resoluto e tardio aceitarei a dádiva sem rosto e me lançarei calmamente nessa névoa sem fim.


Às vezes, sinto-me numa jornada similar a do seu texto. Quase sempre vivendo a superficialidade, mas aí retorna o pensamento de que há uma busca incessante a ser percorrida nos passos seguintes! Belo texto, como sempre, Mr. Dantas!
Para você, primo / amigo e irmão. Deixo esse belo poema revelação de Robert Frost. Abraços!!!
Duas trilhas divergiam numa dourada floresta de outono,
e lamentando não poder percorrer ambas
e ser um único viajante, longamente parei
e observei uma delas o mais longe que pude
até onde se curvava num mato baixo;
Então tomei a outra, igualmente boa,
e tendo talvez um atrativo especial,
pois o capim a cobria e necessitava o uso;
embora quanto a isso, passar lá,
as teria marcado na verdade igualmente.
E ambas naquela manhã igualmente descansavam
cobertas de folhas que nenhum pisar enegrecera.
Oh, deixei a primeira para um outro dia!
Entretanto sabendo que um caminho leva a outro,
duvidei se algum dia eu voltaria.
Eu contarei isto com um suspiro
em algum lugar, eras e eras distante:
duas trilhas divergiam num bosque – e eu
segui pela menos percorrida,
e isto fez toda a diferença.
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The Road Not Taken
(Robert Frost, Mountain Interval, 1916)
Este é o Sérgio!
Pouco o conheço, mas alguém de uma intensidade tão grande, que não é necessário chegar muito perto para apalpá-la.
Mais uma vez parabéns pelas tão bem colocadas palavras. Cabe aqui as palavras de Milton Nascimento, adaptadas da canção ao verso: “Certas canções que ouço, cabem tão dentro de mim, que perguntar carece: como não fui eu quem fiz?”.
Vc meu amigo, seria um prato cheio para qualquer terapeuta!
Um beijo e excelente ano!
Bom demais perceber que há identificação nas coisas que escrevo. Não seria este o único objetivo que vale a pena neste ofício? Criar laços e compartilhar a humanidade?
Quanto ao terapeuta, ainda não fui atrás com medo de não ser aceito…vc tem razão!
Abraços!!!
Sérgio. Tenho medo dos teus textos. O medo é atrelado a surpresa, e talvez é por isso que não deixo de lê-los. O título faz jus, você é a bala e a arma. Dispare. Mesmo correndo o risco de se acertar (no seu amplo e duplo sentido). Abraços
Este texto e seu legado são parceiros do mesmo crime.
Abraços!
São as convenções, meu amigo. Mas a jornada do herói é diferente, ela tem um chamado, existe um descontentamento constante. E uma hora você vai ter que seguir por essa trilha.
É bom que você acorde desse estado vez ou outra para revelar algumas inquietudes. Quando sai dessa inércia é que somos presenteados com suas mensagens inspiradoras.
De volta?
Forte abraço,
Rique
Veja só você, Rique.
Enquanto antes eu achava essas trilhas não percorridas coisa de andarilhos perdidos e esses chamamentos apenas vozes ouvidas por santos e loucos…hoje aceito como realidade única e caminho sem volta.
Será que estou me tornando um andarilho, um santo ou um louco?
De qualquer forma, é bom , ao te ouvir – sim, estou sempre te ouvindo – saber que não estou sozinho.
Abraços!