Cinco dias na cidade excessivamente européia – distante milhares de quadras do continente europeu – são suficientes para trazer uma certeza: é impossível ter impressões definidas ao conhecer um lugar tão múltiplo, cheio de contrastes e faces enigmáticas… por vezes pela história que cada esquina carrega, outras pela camuflagem planejada dos que lucram com visitantes deslumbrados.
O convívio curto e o espaço carregado de ruas charmosas, belos prédios e muitos monumentos, escancaram a incômoda certeza aos pobres turistas perdidos “a cá”, que devem conformar-se com o simples aroma do que vem realmente a ser essa metrópole porteña.
O bairro Boca, bastante conhecido pelo futebol azul e amarelo e suas casas excessivamente coloridas dá certo consolo aos olhos curiosos que insistem em ver tudo pela lente das máquinas digitais. Nesta cidade estamos sempre na Boca, ansiosos por aportar e desvendar seus enigmas culturais.
Seguem-se avenidas de uma largueza extravagante, onde só argentinos são capazes de atravessá-las mantendo a pose tão sólida de cidadão europeu. Pobres brasileiros só conseguem cruzar esses espaços com sobressaltos, ameaças de atropelamentos e pernas descompassadas. Sim, por muito pouco não pegamos um taxi na famosa Avenida 9 de Julho, ou melhor esclarecendo, por bem pouco ele não nos pega.
Não sei se é lenda ou fato, mas sou crente fervoroso da crença de que esta avenida é a mais larga do mundo. Seria possível tomar um táxi – agora sim, entrando civilizadamente no carro – simplesmente para chegar do outro lado. Confesso pontadas de orgulho ao informar que estávamos hospedados nela, e posso provar com fotos da janela, produzidas sempre às pressas por causa do vento cortante no rosto. Para os incrédulos, enviarei o cartão do Hotel Embajador, localizado na Rua Carlos Pellegrini, número 1.185. Os nomes não conferem simplesmente porque a avenida 9 de julho tem tantas pistas, que resolveu dividir sua autoria com outras ruas. Não falarei mais neste assunto!
Há também um gosto por cafés, como lugares atrativos onde se conversa sem pressa, em qualquer horário do dia ou da noite. Sim, falemos do lugar, pois o café como produto deixa muito a desejar para exigentes brasileiros acostumados ao bom pó nosso de cada dia. Mas o doce de leite, esse sim pode se considerar o melhor do mundo, entre tantos outros itens que os argentinos insistem em afirmar ser sempre melhor. O Flan Casero acompanhando de creme e doce de leite pode se inscrever para as sete maravilhas do mundo moderno.
Para os admiradores de maçã – meu caso – corre-se um tremendo risco de voltar da cidade odiando as verdes e vermelhas, ou seja, todas elas. Salada de fruta com maçã e caroço, torta e bolo de maçã por todos os lugares são suficientes para mudar sua preferência de anos. Não sei por que insisto em duvidar quando uma fruta tem sobrenome, como no caso das Maçãs Argentinas. É fato concreto, ao visitar o país saiba que as encontrará fielmente e excessivamente por lá!
Mas tem o tango. E como esquecê-lo se ele é para a Argentina o que o samba e o carnaval é para o Brasil. Inutilmente a guia tenta convencer os turistas de que Buenos Aires não é só tango e parrilha. Tudo prova o contrário, desde competitivas casas de show com pretensões a la ‘broadway’, bonecos e camisetas, pinturas e outdoors e até aqueles famosos aglomerados de curiosos nos calçadões centrais onde pode-se assistir a estranhos artistas tentando mostrar que o tango está em todos os lugares, escancarado como só a paixão latina pode expressar. Seja como for, a sedutora dança argentina é tão valorizada que faz o samba brasileiro parecer órfão de pai e mãe.
Há ainda as deliciosas empanadas, os passeadores de perros compondo o cenário bucólico das largas praças – profissão ingrata mas que conforme informado, rende muchos pesos – e claro, o ícone máximo dos descamisados, a ‘quase santa’ Eva Perón. Havia cartazes por todos os lados comunicando que Eva estava convocando os trabalhadores para a luta. Sabe-se lá em que sessão espírita isso será possível ou então, ignorantes turistas que somos, nem ficamos sabendo que Evita ainda está viva e atuante como nunca. Foi inútil visitar o túmulo da família Duarte e encontrar uma placa provando que o corpo da dama dos flagelados repousa por lá. Depois de tantas histórias de seqüestro de corpo e de ver sua memória tão onipresente em todas as bancas de jornal e muros, sempre fica a dúvida se a primeira dama mais famosa do mundo não está realmente entre nós (ou entre eles, para não parecer intrometido).
Já os argentinos conseguem driblar o caos instaurado nos traços étnicos que toda metrópole provoca em seu povo. Há basicamente três tipos de perfil portenõ (eu avisei que é impossível não ser simplista e de julgamento parcial e limitado): os argentinos que todos os brasileiros tem como banco de imagem – cabelos pretos lisos, pele clara e olhar sedutor (acrescente o curioso costume masculino de não pentear os cabelos) – os bolivianos que nasceram na Argentina sabe-se lá porque e aqueles que não lembram nada nem parecem com ninguém, típicos de cidades grandes. Os negros são raros, pois segundo nos foi informado, eles foram convidados a se retirar durante alguns anos de guerra.
No país latino precursor do casamento gay, não foram casais homo que chamaram a atenção e sim o fato de mulheres serem reservadas ao se cumprimentarem, enquanto verdadeiros brucutus se beijam em todos os lugares ao se encontrarem. Taxistas e seguranças de shoppings davam um show neste quesito. Que fique muito claro que não estou relacionando um fato ao outro, para não parecer excessivamente míope culturalmente. Acredito na masculinidade argentina, só achei estranho. Melhor não me estender nessa questão, o assunto está cada dia mais perigoso.
A cidade dá as boas vindas e despede-se com o obelisco – que este, certamente não é o maior do mundo – acompanhado de bandeiras azuis e brancas por todos os lados, em janelas, vitrines e fachadas.
O argentino ama seu país, as cores de sua flâmula que se confundem com o céu de inverno, a santa dos pobres, a arquitetura clássica e a casa rosada. Ama dançar como quem é consumido por uma paixão e ama protestar com panelas e faixas na praça de Mayo. E se não ama, de duas uma, ou engana bem ou isso são falhas críticas de irmãos de fronteira, mas que possuem diferenças tão grandes, como se oceanos nos separassem e não apenas as belíssimas cataratas do Iguazu.


Obrigada por descrever de maneira tão divertida e real a experiência deste dias em Buenos Aires.Ainda voltaremos lá como guias alternativos para mostrar aos turistas as coisas interessantes que descobrimos caminhando, caminhando, caminhando…
Bjs
Márcia
Já tenho clientes-turistas na fila. Se não conseguirmos fazer grana como guias, podemos muito bem arriscar a profissão de babás de perros.
Bjs
Ah, que saudade das empanadas!!!!
E as sevenUps…não te fazem falta???
Estou admirada com sua habilidade de transformar em palavras essas experiências…. ao ler, pela primeira vez estive em Buenos Aires.. sem nunca ter estado lá!
Grande beijo!
Mas não se engane. Tenho certeza que se você for pra lá terá uma impressão bem diferente.
A cidade é maravilhosa e se mostra como quer…
Recomendo!
Abraços e obrigado pelo interesse no blog.
Cara, é impressionante como você conseguiu resumir muito bem tudo aquilo que eu passei anos atrás ao visitar nosso país hermano.
Parabéns pelo excelente texto.
Ou seja, você também ficou perdido ao tentar ‘resumir’ a cidade?
Esta foi a base para escrever o texto.
No fim das contas, a dúvida é sempre mais interessante que as certezas.
Abraços!
Só assim mesmo para eu saber como foi sua viagem , já que ninguém tem mais tempo para conversas nessa vida, rsrsrs.
Adorei o texto!
Bjs
Raras conversas pessoais, mas o máximo de revelação por meio dos textos…por isso amo esse exercício…