
A Carta - Pablo Picasso
Amizade e Coerência = Opostos
Por Filipe Colombia
A amizade é tudo, menos coerente. Por isso, vou explicar de um jeito clínico o que é coerência caso você, leitor “amigo”, não se lembre o que é coerência. De acordo com o ditoso dicionário Aurélio, coerência significa “união das diversas partes de um corpo”. Paro nesse primeiro significado, a segunda não me foi tão subversiva, então, descarto-a. Pensemos juntos, amizade é coerente? Porque veja este meu lado, eu não tive amizades lá muito coerentes. Se entre a amizade e a coerência, existe a bendita palavra “união”, ou melhor, se entre um amigo e outro amigo existe a palavra “união”, por que será que muitas dessas “amizades” são tudo, menos coerentes? Se você tiver tido uma amizade coerente, pare imediatamente de ler este texto maléfico, que provavelmente possa te escandalizar, você que deve ser devoto a amizades coerentes, com atos sagrados e cultos mútuos entre um e outro. Provavelmente, se você discorda de mim e acha a amizade uma coisa coerente, é por que você tem alguém que se sacrifica por você e que você deve se sacrificar por ela, em uma mesma intensidade, de um modo constante, uniforme, nada desigual. Quer dizer, tu leva a amizade de um modo religioso “xiita” e com certeza deve batalhar com unhas e dentes para manter a integridade do manto “santo” que une você ao seu amigo. Mas vem cá, teu amigo nunca te desapontou? Se nunca, eu lhe aconselharia a esperar por isso, se sim, então pode rasgar esse pano santo, pode tornar-se cético e agnóstico. Pois agora eu chuto o pau-da-barraca dizendo que a amizade é injusta, desproporcional, e por último incoerente. Poderia contar a história de minha vivencia, mas isto não daria em nada, mas alguns exemplos são necessários. Acompanho-o a vê-los.
Quando eu era criança, tinha um amigo do peito, respeitava-o, sei lá se o amava, mas andava com ele pra lá e pra cá. Era amigo de escola, tinha talento para teatro, decorava falas e falas, nos teatrinhos na semana da independência, sobre história colombiana. Basta de contextualização, elas não pertencem a vocês. Certo dia meu livro de artes sumiu, e bom, levei uma baita bronca quando cheguei em casa, apanhei, chorei e esqueci. A professora foi informada, a coordenadora sugeriu que poderia ser roubo. Nesse meio tempo tive que me virar para acompanhar a aula de artes sem o livro especifico. Fiquei nessa por uns dois meses, até que certo dia, o livro apareceu na minha mesa, de um jeito “sobrenatural”. Fiquei feliz, sorri, corri, brinquei e estudei. Algumas semanas depois, esse meu amigo, no intervalo entre uma aula e outra, me pediu desculpas. “Desculpas?” eu disse. Ele me explicou que tinha escondido o livro, para fazer uma brincadeira, mas percebeu que tinha tomado proporções enormes, então resolveu manter segredo, e depois ele mesmo colocou o livro meses depois de volta, encima de minha carteira. Eu fiquei estupefato, não pela noticia, mas sim pela façanha, que era de dar inveja, manter em segredo um livro grande como aquele durante meses! Agora pergunte “a amizade acabou por causa disso?”. Eu lhe respondo “não”. Aquele canalha só me fez quere-lo mais e nossa amizade se fortaleceu. Mas coloque na balança, o que deveria ser feito, “ficar de mal”, terminar a amizade, virar a cara? Não, isso seria coerente, ele que pague pelo seu erro, mas eu fui lá e aprendi desde pequeno a ser incoerente.
Outro exemplo. Eu tinha (ou tenho) um amigo até hoje, que sempre foi mais “santo” do que eu, dentro dos padrões humanos. Ele sempre me viu distante, trabalhando desde jovem, com pouco tempo para a religião que é a amizade. Mas ele esteve sempre ali, parado, com seus cabelos amarelos e sua cara pálida, quando eu fazia mais uma besteira, fumava mais alguma droga, ou magoava mais alguém. De certo modo, a amizade era incoerente. Ele não precisava manter-se ao meu lado, vendo escorrer minhas lágrimas, tropeçando em minhas burradas. Incoerência.
De tal modo, defendo a incoerência. Pois ser coerente, ou “justo”, pode ser sinônimo de egoísmo. Não esse egoísmo controlado, pelo qual devemos ter e claro, zelar, mas sim um egoísmo canceroso, que destrói o ventre de toda amizade decente.
A amizade somente é uma amizade quando a incoerência do perdão, da ajuda e das lágrimas esta presente. Amizade é sinônimo da palavra incoerente. Muda os fatores, muda resultados, muda pessoas. Por causa de uma coerência, uma amizade se rompe, um ego se protege, um prédio desaba. Por causa da incoerência, uma guerra termina, alguém cede, duas pessoas se abraçam. A amizade usurpa energias, por que ela procura por algo de valor e nada artificial, então a melhor imagem que consigo para a amizade incoerente, é arvore e a terra. A terra esta lá, cumpre sua função, não é água, é solo, é firmeza. De repente, enterram em suas entranhas uma semente, que logo vai criando raízes, entranhando-se, fincando-se. Quando se vê, a arvore já é grande, exibe lindas flores, pássaros vem aninhar-se em seus ramos. Aquele pedaço de terra, que era terra “só”, tornou-se mais bonito, por causa de uma árvore. Quando mais tarde a árvore é arrancada, dilacerada, esquartejada e se transforma em móvel de cozinha, a terra se deprime, mantêm em si as raízes, a lembrança, não por opção, por que cicatriz não é opção. Dependendo do tipo de terra, nenhuma árvore mais poderá ser plantada naquele local pois ali existe alguma raiz…
Acho que não preciso dizer mais nada sobre este exemplo. Meus dedos não estão parando de escrever essa teoria. Vá, ligue para aquele cretino que te traiu ou aquele cretino que você traiu, e seja um pouco mais incoerente. A amizade não é via de mão dupla, é só contra-mão. Mate ou morra por causa dela.
(tomara que o pessoal saiba o que é um texto subversivo, se não o índice de suicídios ou assassinatos vai ser enorme dentro de algumas semanas)
27-10-09
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Para se ter uma grande amizade
Por Sérgio Dantas
Para se ter uma grande amizade é preciso sentir saudades, perceber a ausência do outro e sorrir com tristeza para se ter uma grande amizade.
É preciso ver além, não olhar a superfície apenas, como se o mar fosse suas águas visíveis. Mergulhar nas profundezas sem temer o desconhecido e a possibilidade de encontrar peixes dourados ou monstros marinhos.
Para se ter uma grande amizade é preciso paciência, tolerância para suportar seus próprios defeitos que sempre se refletem numa grande amizade. É preciso dedicação, ter suas mãos livres para um afago, um tapa ou um adeus, para se ter uma grande amizade.
Para se ter uma grande amizade, não é preciso promessas, nem desculpas e muito menos máscaras que insistem em nos tornar mais atraentes, superficiais. Não é preciso agradar nem ser agradado, muito menos ser inteligente ou conselheiro. Não é preciso ter grana nem ser muito pobre, para se ter uma grande amizade.
Não é primordial que se entenda o que o outro diz, mas que se compreenda porque fala daquela maneira. Nem é preciso lembrar datas de aniversário, mas se faz necessário decifrar o tempo latente que percorre e comove a vida de um grande amigo.
Não é preciso estar sempre presente, mas que sua ausência seja dolorida, para se ter uma grande amizade.
É preciso de loucura com pitadas de sabedoria, desprender-se da razão e apegar-se à poesia, saber falar e saber calar. Fazer as pazes com o silêncio e a presença física, suportar a ausência inevitável e manter vivas as lembranças para se ter uma grande amizade.
Tem que existir tropeços e conflitos, lágrimas e sorrisos, solidão recheada de momentos de profunda comunhão, para se ter uma grande amizade. É preciso entendimento, sinceridade absurda e cuidado exato e contínuo. Caminhadas a beira mar nas tardes cumpridas, conversa nas madrugadas a perder de vista, risadas exageradas e palavras para curar o vazio, para se ter uma grande amizade.
É preciso ver e enxergar, ouvir e escutar, perceber antes mesmo que aconteça, oferecer sem que haja precisão.
Para se ter uma grande amizade é preciso vontade e paixão. É preciso esquecer seu rosto e seu nome e oferecer sempre um sorriso. É preciso saber que um amigo não é seu, mas é tudo que você precisa para ter uma grande amizade. É imprescindível negar as aparências que nos levam a falsas amizades, a vaidade dos momentos fugazes, o medo de sofrer, os próprios interesses e fortalezas. Não se engrandecer e nem se esquecer do que é, para se ter uma grande amizade.
É preciso não temer o sofrimento, a espera de algo que pode nunca mais acontecer, nem desistir de acreditar que ainda existem caminhos que nos levam a grandes amizades.
Para se ter uma grande amizade é preciso esquecer nosso pulso e o som da nossa voz, chorar quando se faz pranto e sorrir quando se tem alegria. Deixar de lado as âncoras que nos prendem em nossa terra firme e navegar pelos oceanos de um outro, que já não nos pertence para se ter uma grande amizade.
05/11/03