Feeds:
Posts
Comentários

Ganhei um tênis vermelho. Eu já o desejava há algum tempo. Mas, amigos gentis acabaram com minha angústia, deram-me no dia do meu completar anos…

“Para que ter um tênis que não combina com nada?” – alguns arriscaram questionar. “Você tem mesmo coragem de usar isso?”.

Coragem não tenho muita, mas por vezes arriscar-se é a única opção que resta.

Sorrio tranqüilo, sem dar satisfações ou justificativas. Seria pior explicar, pois clarear nem sempre é solucionar.

Ando meio carregado de signos ultimamente. Não mais roupas, objetos, gráficos, comunicação eficaz e gestos úteis. Converti-me aos símbolos, versos, imagens e afeições. Por isso, ao invés de transitar pelos espaços concretos, sigo dançando pelas nuvens abstratas e vales sombrios.

Não mais vejo a rua, o sobrado e a montanha. Nelas só enxergo saudades de um amigo distante, as cores e formas que compõem o quadro, as enigmáticas composições dos dias comuns. Tudo se torna um apelo, um sentimento e um desvario.

Usar um tênis vermelho é finalmente vestir-me dessas imagens que foram alimentadas há tempos. “Só alguém com sessenta anos tem o direito de usar um blazer vermelho” – narrava o velho professor em um de seus textos apetitosos. “Estranho é gostar tanto do seu All Star azul” – cantava o amigo devoto da Cássia. Vermelho é um código do cinema que anuncia a morte à espreita, pronta para fazer mais uma vítima. Assim seja!

Quero e carrego tudo isso ao vesti-lo. Não será preciso pensar em moda, combinações e aparências. Nem sequer em atender os ferozes olhos dos outros. É impossível agradá-los.

Desapego-me da necessidade de provar-me homem macho, ser respeitável e varão valoroso. Ando desligado por outros caminhos.

E é exatamente porque vermelho não combina, que combina tanto com esse estado de coisas. Saio por aí descombinando na aparência o que dentro já acontece há tempos.

Mesmo que isso ataque minha masculinidade, feminilidade ou religião. Mesmo que se oponha ao meu título, minha formação e responsabilidades. Pode até ser contra os costumes do meu povo, minha cidade ou regras do condomínio.

Sigo contra a maré de cores monótonas, empunhando a chama que se desentende e mostra-se subversiva. Levo este estandarte esquisito e pitoresco para a batalha que se faz contra nossa liberdade.

Por isso ando tão confortavelmente em meu All Star vermelho. Não apenas desencontrado do mundo, mas também descombinado de tudo aquilo que não me pertence.

Verbo

O Semeador - Van Gogh

O poeta é um ser de sombras e velas acesas. Caminha entre dois mundos tentando conectá-los. Percebe que há uma fina tela que separa os dias comuns da eternidade e num esforço subversivo tenta desesperadamente criar fendas para que outros enxerguem aquilo que ele contempla com sua alma.

O poeta é um dançarino. Cria e recria mundos e desvarios enquanto movimenta-se pelo palco escuro de caos e desordem. Lança verbos, adjetivos e conjugações na esperança que uma nova frase se firme nos espaços vazios e dê fôlego a seres alados. A Criação do universo se faz pela palavra do poeta.

O poeta é um mergulhador. Arrisca-se a atravessar a superfície monótona onde transitam os homens. Rasga as águas perigosas e desconhecidas para trazer à tona encantos marinhos, monstros terríveis e verdades de nossa intimidade compartilhada.

O poeta é um ser deflorado por alguma semente lançada secretamente em seu ventre. Abriga contos, conflitos e heróis em seu ser frágil. Sofre as dores de permitir que outros usem seu corpo para existir e na plenitude dos tempos deixa vingar uma nova história. Igual uma virgem, dispõem-se como recipiente vazio e sem essência, na esperança de fazer amor com o vento cheio de vida.

O poeta revela o mistério, destrói impérios e fortalezas para que se faça nova todas as coisas.

Louvado seja o poeta.

Louvado seja Shakespeare e Van Gogh. Guimarães Rosa e Fernando Pessoa. Louvor seja dado a Handel e Bach. Louvadas sejam Cecília Meireles e Adélia Prado.

Louvados sejam, pelos séculos dos séculos, todos os nomes anônimos de artistas marginais, que suportaram a morte e a vida para trazer a tona histórias que jaziam esquecidas.

Louvados sejam todos os rostos, reais ou imaginários, que juntos formam a face do poeta que ainda não foi visto.

Glórias sejam dadas aos verbos que conjugam as histórias criadas e reinventadas, que um dia traduzirão o Nome impronunciável, encontrado apenas nas águas profundas e escrito desde a eternidade no abismo sem fim.

O Hóspede

Por Sérgio Dantas

Sua casa era impecável. Móveis claros, retilíneos e limpos, ambiente seguro e acolhedor. A sala ampla era um convite para conversas e risos em tardes de verão. Todos que o conheciam, guardavam uma admiração secreta e inexplicável. Ele era elegante, mas muito discreto. Passeava sozinho pelas tardes amarelas com um olhar perdido na distância, como se vivesse naquele bairro de empréstimo, por pura gentileza.

Não era belo, mas muito atraente. Talvez seu silêncio e sua serenidade provocassem nas pessoas ordinárias e ocupadas o desejo de estarem próximas, de descobrirem segredos e declarações íntimas.

Os que conviviam com ele tinham sempre uma impressão bastante similar. Os primeiros contatos eram extremamente agradáveis. Sentiam que o início de uma importante amizade estava por vir, seja pelo companheirismo e simpatia que ele despertava nos homens à possibilidade de envolvimento amoroso que as mulheres ansiavam, em seus delírios emotivos.

Mas passada algumas experiências, encontros e declarações, fazia-se nítida a distância delimitada, imposta gentilmente por ele aos que tentavam chegar mais perto.

Pois parecia impossível a qualquer um aproximar-se mais que o permitido, que o previamente estipulado. Todos que se arriscavam a interferir e adentrar seu universo eram bloqueados pelo muro intransponível feito de palavras e gestos, mostrando claramente até onde poderiam avançar. Tal rigor provocava nos que se aproximavam um desconforto crescente e inevitável, resultando em uma surpreendente apatia e rompimento.

Quem se frustrava com o fracasso, imediatamente lançava sobre ele acusações e desconfianças. Chamavam-no de solitário arrogante, egoísta convicto e problemático social. Usavam o desprezo para atingi-lo, mas isso parecia fortalecer suas convicções e atitudes. Ele permanecia cordato, discreto e atencioso. Insuportavelmente educado e inacessível.

Mas alguns, um pouco mais argutos e imaginativos, começaram a levantar teorias, sobre ele, suas particularidades e modos. Talvez fosse um espião infiltrado, quem sabe um psicopata assassino ou um maníaco sexual. Surgiam histórias e fantasias sem fim quando o assunto era sobre o vizinho misterioso e sua casa sempre limpa e organizada.

Até que um dia, alguém que não era digno de tanta credibilidade afirmou saber o segredo que envolvia aquele triste homem. Fez mistério, disse recear represálias e manteve-se quieto por semanas. Mesmo incrédulos de que a verdade pudesse ser finalmente revelada, vizinhos e parentes fizeram pressão sobre o espertalhão que acabou por liberar sua versão.

Contou que o mistério envolvia sua personalidade e sua casa.

Segundo ele, o vizinho misterioso não permite aproximações e estreitamento de laços para não descobrirem o segredo que guarda há muito tempo, como sua própria vida.

Pois ele possui, no porão de sua casa exemplar, um animal selvagem e perigoso, espécie de lobo violento e faminto que é mantido preso há anos por aquele homem.

Alguns riram, outros arregalaram os olhos, mas poucos deram crédito a loucura que acabavam de ouvir.

O mensageiro de tamanha revelação agora agitava-se enervado, buscando convencer sua platéia debochada que não tratava-se de delírio ou invenção. E, como que buscando sua última cartada, revelou ter ele mesmo escutado uivos terríveis do interior daquela casa que fez com que se aproximasse e, pela sorte ou vil destino, encontrar a porta principal aberta. Foi quando, sabe-se por qual coragem repentina, decidiu adentrar e checar que estranho som era aquele. Quando pisou no tapete da sala, viu a fera selvagem que o fitava com olhos chamejantes, terríveis. Ele paralisou. O coração acelerou e podia sentir o sangue ferver em suas veias. Estava claro que o animal o atacaria, não fosse o homem aparecer e gritar com a fera, ordenando que não se movesse. Calmamente o homem abriu a porta que deve dar para uma espécie de porão e o animal entrou por ela, sem fazer mais nenhum barulho. Desapareceu nas sombras. O homem então, como se nada tivesse acontecido, perguntou se poderia ser, de alguma forma, útil.

Parou de relatar sua aventura assombrosa e fitou a roda de curiosos ao seu redor.

Um momento de silêncio se fez, indicando que agora todos dariam crédito à sua história. Mas logo segui-se um solavanco de risadas e comentários ainda mais afiados e hostis. Sua história era absurda demais para ser real. Fez pausa e não comentou mais o assunto com ninguém.

O tempo passou e desistiram definitivamente de entender aquele estranho homem da vizinhança. Todos concordaram em ignorá-lo como forma de punição social.

Quando pessoas novas chegavam, o ciclo reiniciava e por fim, acontecia a mesma frustração seguida de rompimentos. E aquele homem continuava sua sina solitária e misteriosa.

Mas é fato indiscutível, que em algumas noites escuras e silenciosas, uivos podem ser escutados por toda vizinhança. A reação de alguns é fazer servil reverência frente ao desconhecido. Alguns paralisam com um medo ímpar e ainda outros buscam explicações plausíveis e menos assustadoras que a terrível possibilidade de que um homem cordial e educado possa manter secretamente um lobo no porão de sua casa.

- X -  

Sem tempos

Por Filipe Colombia

Nem parecia outono. A terra estava úmida por causa do orvalho, os mal-me-queres estavam descansando fechados e minha sombra estava espalhada pelo solo, comprida: o sol ainda nascia. Minhas galochas logo encheram-se de gotículas brilhantes após pisar por alguns momentos na relva. Na mão direita uma pá, praticamente nova, na mão esquerda um balde.

Eu só ia cuidar do jardim, só isso. Retirar algumas pedras que não sei por que foram aparecer no meu canteiro e depois regar as plantas e esperar com paciência, minhas cinco tulipas holandesas brotarem do chão. Mas o dia passou tão devagar. Antes do almoço eu já estava mais do que esgotado, suando por dentro da galocha, com a camisa xadrez espremida contra o peito, testa escorrendo suor e a barba coçando. O almoço foi atropelado, calado, com suco de laranja para acompanhar. A louça não foi minha, não era meu dia. Voltei para o canteiro. Continuei com o oficio, assim como um bêbado continua na sua bebedisse, mantive-me constante, erguendo pá, tirando terra, removendo as ervas, deixando a terra pronta, quando vi de longe, em uma mistura de tarde, nuvem e suor, a sombra do que eu temia. Decidi não olhar mais, a criatura ainda estava um pouco longe, porém se mexia. Em um fechar de olhos ela já estava ultrapassando a cerca. A noite já vinha.

Voltei pra casa, atirando a pá na terra, deitando as botas na entrada de casa, coçando as costas úmidas. Lavei a cara e peguei na garrafa de vinho, uma taça, e que taça. O sol caia pela janela de casa, entrando pela cozinha, iluminando panelas, copos secando na pia, focalizando meu rosto. Cheguei até a pia, coloquei o copo vazio, e olhando através a janela, vi os passos, a pelugem, o rosto e os olhos do animal. Uma pele extremamente bela, variando desde a cor marrom passando por um vermelho segregado porem pontual e terminando em um preto brilhante e firme. Fiquei observando o animal que também me observava com olhos nítidos, cinzas e amarelos e um focinho comprido que se mexia sutilmente, reconhecendo os cheiros no ar.

Virei-me. Escovei os dentes e sentei-me na minha mesa de estudo. Comecei a escrever, esperando o relógio mexer-se, aguardando as horas passarem. A porta se abriu, e a caneta pausou. Olhei o relógio, 23:59. Arrastei a cadeira para trás, forcei meu corpo a se levantar e vi o lobo, na porta. Eu pensava que ele ia grunhir, latir, mostrar os caninos, mas não. Ele sentou-se ficou a olhar-me, belo, rico, rigoroso, com a cabeça tombada para o lado esquerdo e um olhar que procurava algo em mim. Quando caminhei em direção dele aí sim, ele firmou-se nas quatro patas e avançou. Tomou meu punho direito, fazendo vergar para frente, gritei de dor. Senti o pêlo quente roçando no meu corpo, exalando um calor assassino, senti o bafo do desespero, os caninos arrancando pele, osso, veia e artéria, fiz força para trás, ele veio junto, arrastando-se pelo chão, respirei antes de gritar novamente e ganhei forças para novamente ir para trás, em uma luta violenta, em uma dança desproporcional. Ele largou-me, mas ficou em posição de caçador e eu na posição de presa. Sentei-me na cadeira, com o punho dilacerado, e em duras penas peguei novamente na caneta. Ele chegou mais perto, perto o suficiente para sentir sua respiração em meus ouvidos, procurando por algo, depois, vendo que eu escrevia e que não parava, deitou-se ao lado de minha cadeira, esquentando meus pés noite e madrugada, olhava-me, grunhia e às vezes me mordia os calcanhares e pulso. Quando meu punho já gasto e morto decidiu parar de escrever, ele foi e o lambeu, com aquela língua vermelho carmim, senti o conforto. Sem forças para ir para a cama ele me carregou em suas costas e me deitou, depois me cobriu com seu próprio corpo, não deixando meu corpo sentir frio ou brisa cortante.

Quando amanheceu e eu acordei atordoado pela luz do sol, ele estava deitado ao meu lado, refletindo em seus pelos um pouco da luz matutina, dando-me ânimo. Fiz o que tinha que fazer. Desde tomar meu banho, até o café, depois coloquei minhas botas e voltei para o canteiro. Ele veio junto. Vigiava meu trabalho, fazia sombra quando sol estava ardente, e quando alguma erva era muito difícil de retirar do solo, ele mesmo a arrancava com suas mandíbulas. Os dias passaram, e ganhei cada vez mais afeto por ele, aquela ambigüidade, aquela mistura de maldade e bondade, um ódio ou amor brusco. Dei-lhe o nome de Novembro.

o lobo

filho pródigo - Rembrandt

Filho Pródigo - Rembrandt

Há tempos que sua crise se faz presente e tumultua seus dias, suas horas. Vejo-o debatendo-se, machucando-se nos espinhos de sua própria dúvida e incredulidade. E isso também movimenta as minhas próprias incertezas. Compartilho contigo essa tempestade e me assento ao seu lado, enfrentando a mesma ventania.

Mas percebo que todo esse turbilhão está deixando seu olhar turvo e suas idéias igualmente confusas.

Você diz que sua vida cristã anda cambaleando e que é muito difícil ser cristão. Eu te afirmo que ser cristão é impossível. Não há nada em nós mesmos que possibilite carregarmos no peito o título de “pequenos cristos”, pois este é o significado dessa palavra. Preocupante seria não sentir essa dificuldade, demonstrando sintoma de um cristianismo alienante e superficial.

Perceba que enquanto você busca recursos em você mesmo, não pode receber o presente que é carregar o nome de cristão, pois esse título traz em si o mistério de sermos recebidos como filhos quando merecíamos a morte e a escuridão completa.

A isso, por muitos séculos, chamamos de Graça ou Dom. Mas igualmente difícil é definir esse conceito. Poderia dizer que graça é favor imerecido, presente dado quando o que merecíamos era o castigo, a culpa e o peso de nossas próprias escolhas. Mas isso é pouco para trazer o sabor e aroma da graça. Prefiro as histórias, pois só elas esbarram na verdade…absoluta e íntima.

Impossível não invocar a parábola do filho que se perde. Esses dias ouvi que essa história não deveria se chamar “filho pródigo” e sim a história do Pai que ama. Pois o tema central é o amor incondicional desse pai que não desiste dos seus filhos.

Somos assim. Por vezes o filho mais novo, que decide experimentar a vida e buscar prazer nos extremos. Que se aventura por caminhos desconhecidos tentando se encontrar, mas termina tão fragmentado e miserável, não lhe restando outra escolha que não seja retornar humilhado para a casa do pai. Já me adianto e arrisco dizer que não foi amor que moveu o coração do filho a voltar, e sim necessidade. Quantas vezes volto-me para Deus pois não vejo outra opção. Declaro como aquele trêmulo discípulo…”para onde iremos nós, se só Tu tens as palavras de vida eterna”.

Por vezes somos o filho mais velho. Tão próximos do pai e tão distantes. Frios, hipócritas e formalistas. Cheios de nós mesmos e de justiça própria. Trabalhamos certos de que reconhecimento virá e contabilizamos nossas boas ações esperando receber cada centavo das coisas que fazemos. Ressentidos, cheios de ira e mágoas, somos incapazes de amar. Por isso o filho mais velho fica tão irritado com a presença do irmão mais novo, que por ele já deveria estar morto.

Então…a graça se revela. O pai, que esperava ansioso a volta do seu filho, não pede explicações e nem aceita tratá-lo como empregado. O pai, que sofria a ausência do filho, não consegue sequer esperá-lo e corre em sua direção, abraçando-o e beijando-o sem se importar com o fedor e sujeira que o filho trazia. O pai não soma débitos para cobrá-los depois. Nem soma créditos para recompensar as boas ações. O pai simplesmente ama.

Deus simplesmente nos ama e nos aceita envolto na sujeira e miséria que nos encontramos. Como explicar essa verdade desconcertante?

Só há uma maneira de viver o cristianismo. Reconhecer o que somos, sem rimas nem embelezamentos. A fatalidade de nossa escuridão. Arrepender-se e usar as últimas forças que nos restam para voltar aos braços do Pai. Quantas vezes, você pode me perguntar? Todas. Todos os dias. Sempre. Quem sabe um dia seremos curados dessa nossa necessidade de viver nossas escolhas e livres, poderemos nos apropriar de tudo aquilo que já nos foi dado.

Então, ao invés de percorrer tantas vezes essa trilha árida do pecado, da poeira e destruição de nossa alma, estaremos vivendo a história sob outro ângulo. Sob a mesma perspectiva do Pai que ama. Olharemos o horizonte, carregados de tristeza por aqueles que estão perdidos, mas cheios de esperança em vê-los aparecer ao longe, cambaleantes e sedentos por um abraço, aceitação e cura. Carentes de um olhar cheio de graça e perdão. Seremos como o Pai. Amaremos como o Pai e então nada mais importará exceto viver a cena do reencontro quantas vezes Deus nos permitir.

E se isso não é amor, não me restam formas de defini-lo.

Abraço-te, esperando que você sempre volte para os braços amorosos do Pai e receba o direito que lhe foi dado de ser chamado “pequeno cristo”, ou se preferir, aquele que decidiu amar.

a carta - picasso

A Carta - Pablo Picasso

Amizade e Coerência = Opostos

Por Filipe Colombia

 

A amizade é tudo, menos coerente.  Por isso, vou explicar de um jeito clínico o que é coerência caso você, leitor “amigo”, não se lembre o que é coerência. De acordo com o ditoso dicionário Aurélio, coerência significa “união das diversas partes de um corpo”. Paro nesse primeiro significado, a segunda não me foi tão subversiva, então, descarto-a. Pensemos juntos, amizade é coerente? Porque veja este meu lado, eu não tive amizades lá muito coerentes. Se entre a amizade e a coerência, existe a bendita palavra “união”, ou melhor, se entre um amigo e outro amigo existe a palavra “união”, por que será que muitas dessas “amizades” são tudo, menos coerentes? Se você tiver tido uma amizade coerente, pare imediatamente de ler este texto maléfico, que provavelmente possa te escandalizar, você que deve ser devoto a amizades coerentes, com atos sagrados e cultos mútuos entre um e outro.  Provavelmente, se você discorda de mim e acha a amizade uma coisa coerente, é por que você tem alguém que se sacrifica por você e que você deve se sacrificar por ela, em uma mesma intensidade, de um modo constante, uniforme, nada desigual. Quer dizer, tu leva a amizade de um modo religioso “xiita” e com certeza deve batalhar com unhas e dentes para manter a integridade do manto “santo” que une você ao seu amigo. Mas vem cá, teu amigo nunca te desapontou? Se nunca, eu lhe aconselharia a esperar por isso, se sim, então pode rasgar esse pano santo, pode tornar-se cético e agnóstico. Pois agora eu chuto o pau-da-barraca dizendo que a amizade é injusta, desproporcional, e por último incoerente. Poderia contar a história de minha vivencia, mas isto não daria em nada, mas alguns exemplos são necessários. Acompanho-o a vê-los.

Quando eu era criança, tinha um amigo do peito, respeitava-o, sei lá se o amava, mas andava com ele pra lá e pra cá. Era amigo de escola, tinha talento para teatro, decorava falas e falas, nos teatrinhos na semana da independência, sobre história colombiana. Basta de contextualização, elas não pertencem a vocês. Certo dia meu livro de artes sumiu, e bom, levei uma baita bronca quando cheguei em casa, apanhei, chorei e esqueci. A professora foi informada, a coordenadora sugeriu que poderia ser roubo. Nesse meio tempo tive que me virar para acompanhar a aula de artes sem o livro especifico. Fiquei nessa por uns dois meses, até que certo dia, o livro apareceu na minha mesa, de um jeito “sobrenatural”. Fiquei feliz, sorri, corri, brinquei e estudei. Algumas semanas depois, esse meu amigo, no intervalo entre uma aula e outra, me pediu desculpas. “Desculpas?” eu disse. Ele me explicou que tinha escondido o livro, para fazer uma brincadeira, mas percebeu que tinha tomado proporções enormes, então resolveu manter segredo, e depois ele mesmo colocou o livro meses depois de volta, encima de minha carteira. Eu fiquei estupefato, não pela noticia, mas sim pela façanha, que era de dar inveja, manter em segredo um livro grande como aquele durante meses! Agora pergunte “a amizade acabou por causa disso?”. Eu lhe respondo “não”. Aquele canalha só me fez quere-lo mais e nossa amizade se fortaleceu. Mas coloque na balança, o que deveria ser feito, “ficar de mal”, terminar a amizade, virar a cara? Não, isso seria coerente, ele que pague pelo seu erro, mas eu fui lá e aprendi desde pequeno a ser incoerente.

Outro exemplo. Eu tinha (ou tenho) um amigo até hoje, que sempre foi mais “santo” do que eu, dentro dos padrões humanos. Ele sempre me viu distante, trabalhando desde jovem, com pouco tempo para a religião que é a amizade. Mas ele esteve sempre ali, parado, com seus cabelos amarelos e sua cara pálida, quando eu fazia mais uma besteira, fumava mais alguma droga, ou magoava mais alguém. De certo modo, a amizade era incoerente. Ele não precisava manter-se ao meu lado, vendo escorrer minhas lágrimas, tropeçando em minhas burradas. Incoerência.

De tal modo, defendo a incoerência.  Pois ser coerente, ou “justo”, pode ser sinônimo de egoísmo. Não esse egoísmo controlado, pelo qual devemos ter e claro, zelar, mas sim um egoísmo canceroso, que destrói o ventre de toda amizade decente.

A amizade somente é uma amizade quando a incoerência do perdão, da ajuda e das lágrimas esta presente. Amizade é sinônimo da palavra incoerente. Muda os fatores, muda resultados, muda pessoas. Por causa de uma coerência, uma amizade se rompe, um ego se protege, um prédio desaba. Por causa da incoerência, uma guerra termina, alguém cede, duas pessoas se abraçam. A amizade usurpa energias, por que ela procura por algo de valor e nada artificial, então a melhor imagem que consigo para a amizade incoerente, é arvore e a terra. A terra esta lá, cumpre sua função, não é água, é solo, é firmeza.  De repente, enterram em suas entranhas uma semente, que logo vai criando raízes, entranhando-se, fincando-se.  Quando se vê, a arvore já é grande, exibe lindas flores, pássaros vem aninhar-se em seus ramos. Aquele pedaço de terra, que era terra “só”, tornou-se mais bonito, por causa de uma árvore. Quando mais tarde a árvore é arrancada, dilacerada, esquartejada e se transforma em móvel de cozinha, a terra se deprime, mantêm em si as raízes, a lembrança, não por opção, por que cicatriz não é opção. Dependendo do tipo de terra, nenhuma árvore mais poderá ser plantada naquele local pois ali existe alguma raiz…

Acho que não preciso dizer mais nada sobre este exemplo. Meus dedos não estão parando de escrever essa teoria.  Vá, ligue para aquele cretino que te traiu ou aquele cretino que você traiu, e seja um pouco mais incoerente. A amizade não é via de mão dupla, é só contra-mão. Mate ou morra por causa dela.

(tomara que o pessoal saiba o que é um texto subversivo, se não o índice de suicídios ou assassinatos vai ser enorme dentro de algumas semanas)

27-10-09

- X –

Para se ter uma grande amizade

Por Sérgio Dantas

 

Para se ter uma grande amizade é preciso sentir saudades, perceber a ausência do outro e sorrir com tristeza para se ter uma grande amizade.

É preciso ver além, não olhar a superfície apenas, como se o mar fosse suas águas visíveis. Mergulhar nas profundezas sem temer o desconhecido e a possibilidade de encontrar peixes dourados ou monstros marinhos.

Para se ter uma grande amizade é preciso paciência, tolerância para suportar seus próprios defeitos que sempre se refletem numa grande amizade. É preciso dedicação, ter suas mãos livres para um afago, um tapa ou um adeus, para se ter uma grande amizade.

Para se ter uma grande amizade, não é preciso promessas, nem desculpas e muito menos máscaras que insistem em nos tornar mais atraentes, superficiais. Não é preciso agradar nem ser agradado, muito menos ser inteligente ou conselheiro. Não é preciso ter grana nem ser muito pobre, para se ter uma grande amizade.

Não é primordial que se entenda o que o outro diz, mas que se compreenda porque fala daquela maneira. Nem é preciso lembrar datas de aniversário, mas se faz necessário decifrar o tempo latente que percorre e comove a vida de um grande amigo.

Não é preciso estar sempre presente, mas que sua ausência seja dolorida, para se ter uma grande amizade.

É preciso de loucura com pitadas de sabedoria, desprender-se da razão e apegar-se à poesia, saber falar e saber calar. Fazer as pazes com o silêncio e a presença física, suportar a ausência inevitável e manter vivas as lembranças para se ter uma grande amizade.

Tem que existir tropeços e conflitos, lágrimas e sorrisos, solidão recheada de momentos de profunda comunhão, para se ter uma grande amizade. É preciso entendimento, sinceridade absurda e cuidado exato e contínuo. Caminhadas a beira mar nas tardes cumpridas, conversa nas madrugadas a perder de vista, risadas exageradas e palavras para curar o vazio, para se ter uma grande amizade.

É preciso ver e enxergar, ouvir e escutar, perceber antes mesmo que aconteça, oferecer sem que haja precisão.

Para se ter uma grande amizade é preciso vontade e paixão. É preciso esquecer seu rosto e seu nome e oferecer sempre um sorriso. É preciso saber que um amigo não é seu, mas é tudo que você precisa para ter uma grande amizade. É imprescindível negar as aparências que nos levam a falsas amizades, a vaidade dos momentos fugazes, o medo de sofrer, os próprios interesses e fortalezas. Não se engrandecer e nem se esquecer do que é, para se ter uma grande amizade.

É preciso não temer o sofrimento, a espera de algo que pode nunca mais acontecer, nem desistir de acreditar que ainda existem caminhos que nos levam a grandes amizades.

Para se ter uma grande amizade é preciso esquecer nosso pulso e o som da nossa voz, chorar quando se faz pranto e sorrir quando se tem alegria. Deixar de lado as âncoras que nos prendem em nossa terra firme e navegar pelos oceanos de um outro, que já não nos pertence para se ter uma grande amizade.

05/11/03                                           

 

Ela entrou receosa naquele vagão. Havia muitas pessoas e certo barulho incômodo. Prosseguiu cuidadosamente, dando passos curtos e firmes, buscando um lugar onde pudesse firmar-se. Encontrou uma fresta e ali usou seus dedos rijos e finos para abraçar o cano metálico que lhe trouxe certa segurança. Estava quente o ar, que lhe pareceu pesado demais. Abateu-lhe um receio instantâneo de ter algum mal súbito, uma queda de pressão ou quem sabe, as taquicardias voltassem exatamente naquele momento. Respirou fundo e tentou pensar em outra coisa. Não podia passar mal. Isto não lhe cairia bem. Em sua bolsa estava a parcela mensal de sua aposentadoria minguada, tudo que possuía para seu sustento. Não havia sequer um conhecido por perto que pudesse socorrê-la, só estranhas companhias de rostos estranhos.

O sinal apitou informando que as portas se fechariam, e de forma previsível, aconteceu. Mesmo assim ela se assustou com a violência em que as portas se chocaram. Cobrou-se por ter esses sentimentos frágeis. Nunca fora assim. Sempre enfrentara a vida como uma operária que constrói tudo com suas próprias mãos. Não temera calos, espinhos ou quebraduras. Suas rugas narravam muitas histórias de bravura e sofrimentos enfrentados com resignação e tolerância.

Percebeu que suava naquele vagão abafado. Olhou as demais pessoas, cada uma restrita aos seus próprios pensamentos e demandas. Uns liam, outros mantinham seus olhos fechados e alguns conversavam sobre suas fúteis rotinas. Conversas e silêncios monótonos de uma quarta-feira qualquer. Alguém se importaria, caso ela precisasse? Temeu a solidão e velhice que lhe assaltavam sem chances de resistência. E novamente se cobrou por esse pânico repentino e desnecessário atacar-lhe tão arbitrariamente. Enrijeceu o corpo como resposta a pensamentos tão infelizes, apertando o cano mais um pouco.

Mas então, o trem parou na estação e as portas se abriram, desprotegendo aquele local que começava a lhe parecer seguro. Mãos de cores variadas, rostos estranhos e bolsas invadiam o espaço que já era escasso. Um empurrão brusco forçou seus dedos retorcidos pela artrite que a molestava por anos a soltar o cano e deslocar-se para o centro do vagão, espremida por costas e pontudos ombros alheios.

Com muito esforço e certa dor, firmou seus pés evitando que desfalecesse. Novamente temeu, mas agora percebia ter motivo. Não havia nenhuma condição de segurar-se e tinha apoio somente em corpos alheios que indiferentes a espremiam sem piedade.

Pensou: “quando o trem sair, não poderei sequer me segurar ou levantar esses braços atados de artrite para me manter em pé.” Ficou tensa e naquele instante receou algo realmente grave acontecer.

O apito das portas foi como o arauto de uma situação limite, decisiva. Seu coração acelerou e o suor escorria-lhe pela testa enrugada e tensa. Estava desprotegida.

Mas quando o movimento trêmulo do trem começou por debaixo de seus pés vacilantes, ela percebeu-se amparada. De alguma forma, corpos quentes e cotovelos eram como um apoio abstrato, uma possibilidade remota de divertir-se com a situação. Embalou-se e permitiu que aquela deslocação conduzisse seu corpo que já não sofria mais. Sentiu um prazer estranho, uma alegria gratuita e infantil. Sorriu. Depois começou a suspirar alto e espontaneamente declarou, quase que pensando em voz alta: “que gostoso”. As pessoas que conseguiam mirá-la, lançavam um olhar inquisidor. Mas o prazer de permitir-se solta, dançante, sem resistência ou possibilidade de defesa crescia abruptamente e ela começou a gargalhar sem pausas nem constrangimentos. Ria alto e firme a ponto de lágrimas escorrerem por seus olhos opacos. Outros ao redor permitiram-se contagiar pela sua insanidade e risadas subversivas. Sorrisos, estranhamentos e comentários graciosos encheram aquele vagão como um cogumelo atômico que vai varrendo o espaço monótono sem piedade.

A cada curva, mais risos e frases soltas coroando aquele evento com a certeza de que navegar pode ser sempre de uma alegria assustadora.

E assim divertiu-se durante aquela viagem.

Quando o trem parou em sua estação destino, agradeceu as pessoas desconhecidas e suspirou satisfeita, caminhando com dificuldade para fora do vagão. Os que a alcançavam, apoiavam seu braço ou simplesmente tocavam sua roupa com reverência, com uma estranha devoção.

Ao firmar seus pés na plataforma inspirou um ar fresco, mais leve e pensou como é boa a vida!

jovem - editado

Diz-se que a preguiça é uma falha grave de caráter, principalmente em nossa sociedade industrial onde a medida do homem é extraída de sua produtividade. Acho mesmo uma tremenda injustiça quando tomam os preguiçosos sempre por malandros. Pois há malandros que são trabalhadores exemplares, fontes intermináveis de lucro.

Certa vez ouvi algo interessante sobre a preguiça. Um dos seus significados é a palavra indolência. Uma pessoa indolente é alguém que é ou está insensível à dor, apático. Talvez – já me utilizando dos meus direitos de liberdade poética – alguém que está fugindo da dor ou a evitando a todo custo.

Isso muda as cores do quadro e coloca a malandragem de escanteio, esta que é outra falha de caráter e que creio, absolutamente não te pertence.

A preguiça então pode esconder algo mais grave, uma tentativa de recusar a dor e o desconforto das possibilidades. Fazer uso de analgésicos e anestésicos, um artifício muito comum em nossos tempos modernos. Somos os neopreguiçosos, não mais espertinhos que fogem do trabalho braçal, mas seres deslocados do mundo e dos outros, espectros sensíveis que buscam escapar das possibilidades da vida.

Será que a raiz deste sentimento que te paralisa e te frustra não é o medo de enfrentar o dia e seus percalços? Então o corpo pede descanso, a alma grita por isolamento e o espírito sucumbe às quatro paredes protetoras do seu quarto, lugar seguro e monótono, mas que você conhece bem e nele pode descansar mais um pouco.

Essa casca, essa cápsula protetora pode te trazer alívio imediato, mas diferente dos casulos, não te transformará num ser alado…fará exatamente o contrário, irá impedir que você experimente os abismos do céu sem fim.

Busque os lugares que já visitou, paisagens que habitam sua alma, e que de alguma forma te paralisaram com todo esse temor. Volte a estas cavernas e vales sombrios e ali enfrente os dragões e monstros que você permitiu que crescessem livremente por lá. Há algo que precisa ser vencido, há algo para ser destruído e lançado no fundo dos mares do esquecimento.

Então, decida viver. Não esta vida rotineira e sem significado que constantemente nos é oferecida. Esta vida dos entorpecentes, das sexualidades banais e das frivolidades urbanas. De luzes eufóricas e movimentos alucinantes que não chegam a lugar algum. Busque tão somente a vida abundante que um dia nos foi prometida. Acredite que ela é possível e esforce-se por perseguí-la. Deste movimento, destes passos convictos surgirá o início da sua jornada íntima. Nela haverá sofrimento, dor e despedidas cruéis. Mas lá há cenários belos e tardes infinitas, encontros banhados de alegria e histórias para contar. A esperança será sua companheira e a coragem sua amiga.

Decidir assim é remar rio acima, ir contra o fluxo incessante que nos acomoda e nos faz envelhecer sem memórias. Escolher as lutas ao invés das tréguas que nos diminuem. Dar um passo após outro até esgotar suas forças e mesmo assim continuar andando…

Para isso, é preciso lançar-se no vazio, enfrentar o caos e os abismos e passear pelos vales de sombras e de morte. É preciso arriscar-se em terrenos estrangeiros e andar por trilhas desconhecidas. Os riscos serão altos, mas como dizia o Mestre…”quem quiser perder a sua vida irá encontrá-la”. Pois eu lhe digo, só é possível viver quando negamos essa eterna mania de felicidades egoístas e confortos anestesiantes. Nos jardins há vespas venenosas, mas só ali encontramos o frescor e a beleza. Como dizia o poeta Pessoa…”Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.” E ainda insiste que “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Ouso invadir seu quarto e seu aparente sossego, agitar-lhe os ombros e sacudir suas âncoras, na esperança que desperte deste exílio pessoal e volte para as terras que te pertencem.

Digo-lhe isso por algum louco motivo ou insana certeza. Faço assim por acreditar que há tantos mistérios e enredos, sonhos e desvarios submersos em seu olhar e adormecidos nos porões que você tenta desesperadamente esconder dos que te cercam.

Por enxergar você e suas terríveis possibilidades, risco fósforos ao seu redor na tola esperança de que eles dinamitem seu mundo e te levem para lugares mais altos.

E se não for assim, continuarei procurando pelos espaços e grades onde você inerte, permite-se neste exílio, para quem sabe, dividir contigo alguns momentos de comunhão.

Estive pensando em você e por isso insisto em dizer que você é a moça da canção…seu nome e semblante me trazem lembranças tão boas que me fazem sorrir e sentir uma doce tristeza. Digo isto porque a saudade é estranha, não se encaixa nas nossas gavetas de coisas boas e más. Ela está isenta destes compartimentos, é feita de uma substância não catalogada. Quando sinto sua falta, posso ficar alegre e triste, da mesma forma que o apóstolo dos gentios declarava: “tristes mas sempre alegres”. Agora posso compreendê-lo.

Sei que novamente ficará incomodada por identificá-la como uma pessoa íntegra e meu propósito ao te escrever é tentar explicar porque faço isso. Para conseguir tal feito promovi um concurso de pensamentos célebres que me socorressem nesta árdua tarefa. Assim fiz pois creio que as frases curtas têm um poder de síntese perfeito, que nos proporcionam momentos de reflexão onde quer que estejamos. Deste socorro tomo mão sempre que me vejo em perigo…

Só que ao pesquisar meu arquivo fui percebendo que muitos assuntos me lembravam tua caminhada de forma particular. Fiquei intrigado pois me parece que sua entrega se dá de forma plena, mesmo que você se ache tão inacabada e eternamente no processo. Mas não seria exatamente isto que te faz íntegra, sua capacidade de perceber o quanto você ainda está “desencontrada”, como dizia a Cecília? Invocarei meu primeiro ajudador, Gilberto Freyre…

“Acredito que nunca ficarei completamente maduro nem nas idéias, nem no estilo, mas sempre verde, incompleto e experimental.”

Pois não é exatamente isto que nos faz completos, a capacidade de enxergar que jamais alcançaremos esta condição? Isto nos coloca no caminho, nos incomoda e nos faz ter uma sede insuportável. É estranho notar como se sente imatura para a idade que possui e mesmo assim aconselha pais, amigos e líderes.

Mas há em tudo isto um preço a ser pago. Por vezes até reclamamos uma condição comum que nos foi tirada quando decidimos abdicar da superficialidade, pois isto torna nosso contentamento um tanto difícil.

Mas aí minha mente vagou por outros rumos, e mesmo assim voltava a te encontrar e lembrar dos teus passos. Reli um poema de uma anônima das rodas sociais, das publicações e agora da vida. Uma mulher que amo e tenho certa comunhão sem nunca tê-la conhecido. Assim escrevia Elisabety Freire no silêncio de suas madrugadas…

Há dias em que a força me abandona

e o “eu” escondido me domina

Quando assim me encontro, choro prantos convulsos de criança

Sinto solidão de menina

Sei e reconheço em você esta menina perdida e muitas vezes assustada que busca apoio, um abraço de Pai. Mas isto não te faz insegura, este é o moto que te leva adiante, enche teus braços de energia para batalhar coisas pesadas demais para uma mulher. Tua força se encontra justamente na fraqueza que assalta teu espírito e te coloca muitas vezes em comunhão com a solidão de teu quarto, com as lágrimas que ninguém vê e também aquelas que você tantas vezes guarda no coração, pois os que te cercam carecem de um sorriso que afirma estar tudo bem, isto vai passar.

Mas esta solidão não te torna amarga nem a carga excessiva que você se vê obrigada a levar te faz rude ou cruel. Ao contrário, vejo um coração sensível, que enxerga o outro e tantas vezes tem espaço para se compadecer dos dramas alheios. Encontro em ti uma artista que tem a vida como material expressivo e as pessoas como tema de suas obras. Como afirmava Vincent, meu pintor favorito: “…não há nada verdadeiramente artístico além de amar as pessoas.” Isto você tem descoberto nestas estradas áridas que te foram reservadas.

Por isso quando vejo que não há regras sociais que te conformem nem códigos de relacionamento que façam acomodá-la ao padrão, respiro aliviado por saber que alguns realmente se importam e para eles nunca existirão meios termos nem moderadas palavras. Estas águas mornas não servem para curar, apenas para nos deixar enjoados, insossos. Renato Russo sabia disso, e creio mesmo que morreu porque se viu afundando nessa águas melancólicas de nossa insensibilidade cordata. Por isto ele dizia que “não basta o compromisso, vale mais o coração”. Hoje todos se comprometem, firmam alianças, fecham acordos, mas não vejo traços do coração…este que é o nosso órgão involuntário e vital. Você não, antes escolheu remar rio acima e encontrar a essência das coisas…é certo que pagará o preço de quebrar a camada e penetrar em lugares pouco frequentados. A transgressão que muitos enxergam como rebeldia e por isso se afastam de ti. Um último mestre se faz necessário para reflexão…

Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas ninguém chama de violentas as margens que o aprisionam”. – (Bertold Brecht)

Sei que você entende com sua alma o que este haicai ocidental significa. Sei também que seu corpo muitas vezes sofreu por ser visto pelos outros como águas violentas…mas posso enxergar as margens que te espremem, te sufocam e lutam incessantemente para te transformar naquilo que você não é.

Por isto hoje escrevo com o frágil desejo de que as palavras tenham o poder mágico de ressuscitar tudo aquilo que vêm se perdendo nestes dias monótonos. Reencontre cacos que são teus e que refeitos formarão o lindo vitral que narra tua história. Sempre existirão aqueles que perceberão a beleza translúcida das imagens que habitam sua alma.

Portanto, não relute em reconhecer a integridade do teu coração. Ela está justamente no fato de você andar desencontrada, temendo ser imatura demais para as responsabilidades que cobram de ti, sofrendo o isolamento por não se conformar com relacionamentos parciais e arcando com o peso de escolher teus próprios rumos. Nada está completo em você, nem terminado, mas ao lembrar de ti posso ouvir a sinfonia que caminha para ser perfeita e ao escutá-la meu coração se enche de uma triste alegria.

 

Jogadores de Carta - Paul Cezanne

Jogadores de Carta - Paul Cezanne

“Como o ferro com o ferro se afia, assim, o homem, ao seu amigo”. Provérbio de Salomão 27,17.

 

Você tem uma habilidade rara e tão necessária hoje em dia, escutar com atenção os aflitos. Para escutar é preciso parar nossa própria ansiedade, essa voz interna que grita todo momento que há coisas a serem feitas para nossa própria realização. Coisa irritante são as pessoas que ao ouvir um problema alheio logo encontram uma questão pessoal, sempre maior e mais grave, para lançar na conversa. Assim, fica comprovado sempre o quanto esta pessoa sofre mais que todos os miseráveis do mundo reunidos. Caso clínico.

Mas você não. Ao contrário, vejo-o remando contra sua ansiedade e seus próprios temores. Muitas vezes até anulando-os para simplesmente conquistar a possibilidade de ouvir o outro e dar-lhe conselhos úteis. Sim, sua vida é claramente útil aos que te cercam e isso é opinião unânime. Considero isto realmente louvável.

Se me permite dar um conselho, coisa que exigirá de você humildade, pois os especialistas não costumam ponderar áreas que já dominam…há algumas pedras no caminho que deve desesperadamente superar, senão jamais ultrapassará você mesmo e suas habilidades.

As coisas que são doadas por você são geralmente externas, vem de fora, seja uma opinião sensata, seja um livro a ser estudado, ou a indicação de uma nova possibilidade. Até seu silêncio e companhia são ações pensadas, que buscam ser precisas para o problema apresentado. Os que te buscam quase sempre estão a ponto de explodir, cheios de carências e mágoas e por isso deságuam com brutalidade e não conseguem enxergar outra coisa que não eles mesmos e seus receios. Te ouvirão ou apenas ficarão aliviados pelo fato de que alguém os ouve, e isso já será suficiente.

Um conselheiro pode manter-se firme na arte da oferecer sugestões, coisa que já faz com maestria, ou dar um passo além e oferecer a si mesmo, fatalmente radical.

Explico-me. Há um relato bíblico sobre um homem chamado Jó e seu drama pessoal. Sem aparente causa, Jó foi castigado com todo tipo de má sorte, que atingiu bens, família e seu próprio corpo, esse que é extensão da nossa alma. Amigos conselheiros, como abutres famintos, logo surgiram e derramaram em forma de discurso suas razões. Razões estas carregadas de sensatez e em nada incoerentes, mas que eram estreitas demais para a tragédia que ali se apresentava. Não deram um passo a mais, eram apenas conselheiros que ouviam a voz de um aflito, ponderavam utilizando suas sabedorias e davam um veredicto. E sabiamente concordavam que Jó só poderia ter cometido grave injustiça contra Deus e por isso agora sofria.

Não há absolutamente nada incoerente em todos os discursos dos amigos de Jó. A razão e bom senso, o equilíbrio emocional daqueles sábios os levaram a distanciar-se do sofredor e claramente distinguir a raiz de seus sofrimentos. Porém, Deus os condena por não dizer o que era reto, como fez Jó no meio de sua angústia. O que é reto então além da sabedoria?

Paradoxo complicado que me faz enxergar além das razões, essa que sempre nos deixa seguros, mas não é suficiente para curar todas as feridas humanas.

Deixo aqui um conselho a você que está acostumado apenas a dá-los. Para curar as chagas dos que te procuram, não basta indicar remédios e poções milagrosas, muitas vezes será preciso limpar a ferida com suas mãos e cuidar dela até que deixe apenas a cicatriz de que um dia existiu. E enquanto faz isso, aquiete o desejo de advertir sobre a necessidade de não se ferir…nem sempre esta opção nos é dada.

Quando puder admitir que não tem razão em todas as circunstâncias, dará um passo significativo e perigoso. Quando perceber que seu bom senso é fruto da estreita visão que tem do mundo, irremediavelmente ensinada e muitas vezes imposta, mais um passo. Se admirado notar que seu equilíbrio emocional muitas vezes é resultado da sua incapacidade de viver plenamente suas próprias emoções, também enxergará que somente os que buscam a verdade com o coração sincero, e por isso se ferem, poderão um dia mostrar um rumo realmente excelente aos que estão no caminho.

Pois haverá feridos que jamais experimentarão a cura apenas com seus conselhos racionais e sua disposição em ajudar. Será insuficiente. Para curá-los é preciso encontrar em você a mesma chaga, sentir a mesma dor e então calar-se e apenas permitir-se ao lado.

O mais simples é sempre o mais difícil de atingir, pois geralmente escolhemos as complicações.

Dar de si mesmo é optar pela agudez e pela fragilidade. Escolher o caminho das incertezas e das provações, terreno obscuro onde a razão nem sempre encontra espaço. É saber que suas palavras não valem nada se você não se faz presente quando fala, que seu abraço pouco aquece quando seu corpo não é oferecido como oferta aos que carecem de afeição.

Doar suas imperfeições e dúvidas, eis um bom conselho. Mostrar-se como é, impuro e relutante, falho e determinado a fazer algo mais, eis o que pode ensinar aos que te cercam. Serão poucos, mas estes jamais esquecerão do alimento que você pode oferecer, efetivo e eterno.

Penetrar em lugares inabitados e selvagens, tocar de forma sutil o coração dos que estão ao seu lado, enxugar suas lágrimas sem prometer soluções. Feri-los como prova de bondade e lealdade, para que a dor possa fazer algo mais…

Se assim resolver se arriscar, volte ao início, revisite o momento em que se viu conselheiro pela primeira vez. Prove todos os graus e reflita. Quais os passos está disposto a dar na direção dos que te cercam? E decida se teu coração te impulsiona a ir além de si mesmo ou o lugar que já se apropriou é suficiente para satisfazer teu desejo de ser relevante.

E se não for assim, mais nada tenho a te dizer, pois sempre me faltam razões para argumentar contigo.

Noite estrelada - Van Gogh

Noite estrelada - Van Gogh

Não quero ir para o céu para ter sobrenaturais companhias, como dizia a Cecília. Não quero ir para o céu encontrar a felicidade plena e nem ser livre a ponto de voar com os anjos de luz. Não almejo andar pelas nuvens alvas e nem sentir uma brisa leve, perfumada e constante, que nuca irá mudar, por toda a eternidade. Não quero ruas de ouro nem fontes extremamente perfeitas e cristalinas. Nem busco me proteger nos portões que farão do céu um local seguro e estável. Não mereço o céu e nunca irei merecê-lo, por isso não o tenho como alvo. Até posso conhecê-lo, mas sinceramente não me importo. Não quero ouvir vozes perfeitas e de uma harmonia total dos coros de anjos a cantar seus louvores. Nem sonho em ser importante nos espaços desejados, nem sentar-me próximo a um Serafim ou um humano privilegiado por ter sua vida narrada no livro sagrado, e com eles cear já que não sentirei mais a fome dos mortais.

Não sonho em ir para o céu, pois sei que meu lugar não é lá, nem poderia ser, pois sou um cidadão desse mundo imperfeito. Sou parte dessa terra que tem cheiro e cores. Pertenço ao mar e seus mistérios, e quando o tomo em meus olhos sedentos algo sempre se move em mim. Faço parte da noite escura e o brilho frágil de suas estrelas, das árvores solitárias e sábias e dos sons da natureza que louvam com todo furor e mistério. Eu ando por esse mundo e sinto meu coração pulsar e minha carne estremecer, carregada de sentimentos, exausta de tristezas, mazelas e carências. E me sinto vivo, mesmo perdido, mesmo que não saiba até quando, nem até onde.

Não, o céu nunca me fez falta e acho mesmo que jamais fará, pois esse espaço magnífico que pregam as religiões não faz parte das minhas memórias, e meu corpo e minha alma não o reconhecem.

Mas sei que talvez o céu seja o lugar onde encontrarei meu amigo, então amarei o céu com todas minhas forças, pelo simples fato de servir como cenário para meu tão esperado encontro. Ao me aproximar, sei que seus olhos estarão fitos nos meus e que ele dirá “eu sei, eu sei”. E que meu corpo sentirá o calor do seu abraço tantas vezes sentido apenas por meu espírito, e reconhecerei sua voz doce e firme que já escutei em momentos de solidão e angústia, beijarei suas mãos que me apontaram os caminhos duvidosos, e seu rosto tão puro e simples que sempre me trouxe lágrimas e moveu meu espírito a andar por lugares incomuns.

Sei que o encontrarei, e não existe nada nem ninguém, aqui ou nas regiões celestiais, que poderá tirar de mim essa certeza. Então andaremos entre as árvores num domingo à tarde, conversaremos sobre futilidades e sobre a beleza, navegaremos por rios tranqüilos e mares sem fim, passearemos por montanhas e vales e nunca mais estarei sozinho novamente.

Por isso não me importo com os benefícios que a vida passada eternamente no céu pode oferecer aos seres humanos tão cansados de lutar. Tudo eu deixarei se preciso for, apenas para ter um momento eterno ao seu lado, meu amigo fiel, meu senhor, meu Pai. E dizer que sua morte não foi em vão e seu sangue curou minhas feridas mais profundas. E poder contemplar o seu olhar que sempre demonstrou amor verdadeiro por mim, mesmo sabendo quem sou. Por isso não me importo em ir para o céu, mas encontrá-lo será sempre a razão da minha existência.

Postagens Antigas »