Reflexos
Por Sérgio Dantas
Desde pequeno aprendeu a odiar e evitar os espelhos, esses portais misteriosos que costumam molestar nossa alma e nos ludibriar com imagens aparentemente exatas. Irritava-se com aquele rosto que para ele era forjado por essa lâmina fina e cruel, refletindo sempre aquilo que ele recusava aceitar. Não acreditava nela.
Quando atingiu a idade em que as pessoas buscam refúgio e identidade, alugou seu primeiro espaço íntimo e a primeira decisão foi eliminar daquele pequeno apartamento urbano todo e qualquer objeto que pudesse refletir imagens. O espaço era uma coleção de paredes nuas e móveis discretos.
A isso acrescentou a estranha mania de evitar lugares com espelhos, desde prédios com enormes janelas de vidro até espelhos d’água e vitrinas. Andava pelas ruas como fugitivo, que não pode ser surpreendido com mudanças, forçando-se a fazer sempre os mesmos caminhos e desvios na manutenção de sua sobrevivência.
Desapegou-se de tal forma ao reflexo de sua imagem que com o tempo, a lacuna de não saber-se foi tornando insuportável. Era preciso um substituto para lhe dar ciência de como ele era sem ceder aos tiranos espelhos da cidade.
Quanto mais estranha se tornava sua aparência, tanto mais o observavam admirados e por vezes indignados os transeuntes que cruzavam seu caminho. Aos poucos, foram esses olhares que o guiavam e o deixavam consciente de como ele estava e de quem realmente era.
Passou terminantemente a depender dos olhares dos outros, para saber quem ele se tornara. Quando assustados, sabia que não estava perfeitamente asseado, quando recebia olhares de admiração e desejo, percebia-se belo e pleno. Quando não recebia atenção, abatia-se por pensar em sua insignificância. Toda sua atitude baseava-se agora no reflexo de olhares alheios e reorganizou sua rotina, personalidade e desejos em cima disso.
Nos primeiros anos foi difícil encontrar a imagem que a todos era perfeitamente agradável, mas com o passar do tempo foi conhecendo e domesticando o pensamento e preferência comum e tornou-se fácil refletir exatamente aquilo que atraía a maioria.
Era portanto alguém democraticamente belo e isso lhe bastava.
Assim viveu aquele homem que se enxergava tão somente nos olhares dos outros.
Certo dia foi surpreendido pela percepção de que as coisas mudaram juntamente com o passar dos dias. Já com seus anos avançados e o cansaço tomando espaço cada vez mais em seu corpo, rareavam os rostos que o miravam. Este golpe o desesperou. Foi ficando tão carente a ponto de acreditar que já não pertencia mais a este mundo, era alguém invisível, inexistente. Sua situação agravava-se a cada dia, até que ninguém mais lhe doava sequer um rápido olhar, aquilo que para ele era vital como o ar.
Aos poucos, foi se desfazendo. Da rua, dos corredores escuros de seu prédio úmido e até de alguns cômodos de seu pequeno apartamento. Desaparecia diante da platéia e do mundo.
Quando não lhe restava mais lugar nem desejos, notou surpreso, não sem uma relutância inicial, que até sua aversão aos espelhos desaparecera. Ao contrário, o único desejo que conseguia reconhecer em sua alma esvaziada era de novamente, quem sabe pela última vez, postar-se diante de seu inimigo tão evitado durante seus dias. Ficou claro que este seria seu confronto final e destino.
E como desperto de uma dormência, precipitou-se rua afora em busca de algo que refletisse seu rosto. Não demorou a encontrar em uma loja de esquina toda uma parede interna espelhada. Ao parar em frente do estabelecimento, mirou um homem bastante grisalho, olhos tristes e rosto marcado por rugas estranhas. Quem seria este? Já não conseguia reconhecer-se. Ainda estava vivo, podia sentir, mas totalmente fragmentado e exilado daquele corpo que já não mais lhe pertencia.
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Reflexão (Espelho)
Por Filipe Colômbia
A noticia não é novidade. Saca? É que nos custa escrever sobre algo tão óbvio como a imagem refletida. Não é necessário aprofundar-se no conceito físico do espelho, na propagação da imagem, nessas coisas lógicas sobre “ver a verdade”. Afinal, o espelho diz a verdade, mas ao mesmo tempo mente, pois ele recorta a realidade, nunca poderá refletir tudo, mas sim refletir parte desse tudo. Nem o mar em sua superfície aquosa e quase infinita pode refletir o mundo por completo, e mesmo que ele conseguisse, não se refletiria a si próprio. Todo espelho engana a recortar parte do fato, mas em seu recorte existe uma lealdade, uma fidelidade inegável.
Seja o meu espelho no banheiro, seja o espelho da máquina fotográfica ou do retrovisor do carro ou a placa metálica do prédio contemporâneo, seja o que for, espelho reflete e reflete com veemência. Porém as verdades ditas pelo espelho são um fato sólido, incontestável, mas eu sabendo da margem de erro ínfima, não quero acreditar no que vejo. O que vejo refletido na poça, no copo, no lago, na janela do carro, é o peso do tempo só, o eu distorcido pela curva da vida, catenária errante de tentativas. E Paulo, o grande Paulo da Bíblia (que me custa ler nestes dias nublados) disse referindo-se a Deus: “Hoje eu te vejo, como um reflexo obscuro…” Ah sim, um reflexo não mente, mas é parcial, é a ponta do plano horizontal e vertical que é infinito, da glória que se estende pelas galáxias. Todo reflexo não é verdadeiramente a “coisa”. A fotografia é um reflexo pausado e neste reflexo vejo meus instantes verdadeiros, mas a fotografia não demonstra a casualidade interior, não é o instante propriamente disso, mas sim, o reflexo, seja ele em modo fotográfico, seja ele em modo pictórico ou talhado da pedra, permite a viagem, o resgate. Nem o vídeo, o cinema, que são as variáveis do reflexo mais abrangentes em sua veracidade, conseguem trazer o momento, ou fazer a “coisa” acontecer. Pois todo reflexo é incompleto.
Como humano, quero refletir a luz do verdadeiro Homem, que é o único que brilha. Eu não brilho (só brilho quando deixo a minha pele ficar oleosa). Cabe a mim refletir (permita-se perder-se nos diferentes significados de “refletir”). Deus sabe que todo humano pode refletir e ele também sabe que nós só podemos refletir, nunca poderemos ser o que refletimos. Então, sou espelho, recorte daquele que me criou, mais precisamente: caco de espelho.

Menina no Espelho - Norman Rockwell